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22 de setembro de 2011

Tara river

É dia de rafting mas o tempo não está grande coisa. Arrefeceu e até chuvisca em Zabljak, aquela chuva tipo spray.
No entanto quando chegamos ao rio mudámos de clima.

O rafting no Rio Tara começa normalmente cerca de 2km a montante da Tara Bridge e na margem há pequenas infra-estruturas de apoio.
O nosso captain entrega-nos o nosso equipamento (fato de neoprene de manga comprida, botas, colete e capacete) e junto levamos o barco e os remos até ao rio.

Vamos remar 40 km!
Penso se será rápido ou não. Até estou um bocado nervosa. Só me lembro de imagens de barcos a saltar contra as pedras e as pessoas a saltar dos barcos e a caírem na água.
Mas não.  O rio Tara nesta altura do ano não está assim tão rápido e nós até temos que remar com bastante força algumas das vezes.


O desassossego e o espanto surgiram perante a vista do canyon olhado de baixo. O 2º canyon mais profundo do mundo.


Zabljak

A entrada em Zabljak é das do tipo "triunfal". Descemos das montanhas até chegarmos ao canyon do rio Tara, envolvidos numa paisagem de cortar a respiração.
Atravessamos para a outra margem pela vistosa ponte.



Zabljak é uma estância de ski que no verão é perfeita para percursos de bicicleta, trekking, raftings, escalada, etc...

É o perfeito encontro com a natureza.




15 de setembro de 2011

BUS MEMORIES: Uzice – Zabljak

O bus para Zabljak sai às 12h00. Mas ninguém na estação e posto de informação sabe quantas horas dura a viagem... e quando pergunto ainda olham para mim com ar de “tu e as tuas perguntas!”

Pois às 12h00, autocarro nem vê-lo... nem às 12h30...
Os outros autocarros vão chegando e saindo e ficam por norma 2 ou 3 minutos no apeadeiro. É o tempo suficiente para conseguirmos decifrar o destino escrito em cirílico e nos certificarmos que não estamos a perder o nosso autocarro.
Às 13h00 encontramos uma pessoa que fala inglês. Depois do quebra gelo com as habituais piadas futebolísticas explica-nos que o nosso autocarro vem do Norte do Sérvia (quase na Hungria) e normalmente chega sempre atrasado...

Não percebo! Zabljak é relativamente perto da zona de montanhas de Zlatibor (Sérvia) e o único autocarro diário para lá vem quase da Hungria?

Às 13h30 avistamos finalmente o letreiro Жабљак e em 2 ou 3 minutos estamos dentro do autocarro e em movimento.
Não há 2 lugares juntos. Sento-me atrás do condutor ao lado de uns sacos de plástico e uma caixa de cartão. Pergunto se posso arrumar aquilo no compartimento superior mas eles limitam-se a encolher os ombros e a rabujar algo apontando para os outros lugares vazios.

A viagem é tranquila mas dali a pouco paramos para almoçar e reparo que os motoristas tentam esconder a caixa de cartão que ia ao meu lado. Não são nada simpáticos e olham para mim como se eu estivesse a estorvar.

Junto à fronteira somos parados por polícia que revista o autocarro todo. Mais à frente na alfândega da fronteira (Sérvia-Montenegro) somos novamente revistados. Ficamos parados mais de meia hora enquanto os polícias revistam o autocarro todo, como se soubessem o que procuram...
Entretanto encontram a caixa de cartão que ia ao meu lado, que é confiscada.

Pergunto o que se passa. Um guarda fronteiriço responde “No!” irritado.
Não percebemos nada. Ao longe vemos a caixa de cartão a ser despejada numa mesa no exterior. Vejo os dois motoristas a trocarem grandes maços de notas e os passageiros a fumarem repetidos cigarros.
Alguns pedem boleia a carros que passam na fronteira em direcção ao Montenegro e retiram as bagagens do autocarro. Outros seguem a pé com as malas na mão.

Eu começo a rabiscar a palavra “Zabljak” numa folha em branco e preparo-me para ir pedir boleia.
“Será que isto é normal?” penso...

Eventualmente fazem-me sinal para entrarmos no autocarro. Tínhamos tido permissão para arrancar com um dos motoristas e deixamos a Sérvia e os seus problemas de comunicação.
O outro motorista ficara retido na fronteira, junto com os maços de notas e a misteriosa caixa de cartão....

14 de setembro de 2011

"presos" em Uzice

Chegamos a Uzice às 20h. Queremos sair dali e ir para Zabljak (Montenegro) a 150km de distância.

Temos várias opções:
1 – Apanhar o bus nocturno das 21h para Herceg Novi (na costa do Montenegro, junto à Croácia) e no dia seguinte apanhar outro bus para Zabljak. Poupar uma noite.
2 – Apanhar o comboio internacional Belgrado – Bar que chega a Uzice à 1h (se não tiver atrasos), sair em Mojkovac por volta das 4h e de lá tentar desenrascar algo para Zabljak, ainda a 50km de distância. Poupar uma noite.
3 – Ficar “presa” em Uzice e no dia seguinte apanhar o único bus para Zabljak às 12h00.


Por muito que não me agradasse “ficar presa” em Uzice, realizei que já começo a ter tolerância zero para viagens nocturnas... E diga-se de passagem que a opção 1 não teria lógica nenhuma, e  que a opção 2 só teria lógica há 10 anos atrás.

Assim, “presos”, como quando ficamos num sítio que não tem nada para ver nem fazer, como os sítios de passagem que nos dão a sensação de desperdiçar tempo, como aquele tempo que passamos nos aeroportos entre “connecting fllights”.
Num mundo em que vivo cada segundo, porque me parece que é sempre melhor se estiver em movimento?


Ficamos no hotel Zlatibor, um edifício da era comunista, o mais alto de Uzice. Betão rugoso à vista sem acabamento, mobiliário retro de metal tipo anos 70, carpetes ruças do uso, algumas com nódoas, vidros partidos, luzes que não acendem...

Saímos para jantar. Não há restaurantes. Nem abertos nem fechados.
Mas as ruas... cheias como sempre.
Comemos um cachorro e ficamos a observar...

Calor à noite, gente, cafés, gelatarias, pipocas. Gritos de miúdos a correr numa praça gigante, patins em linha, grupos de adolescentes, elas de um lado com os seus vestidos da marca “para usar em noites de verão”, eles do outro de telemóvel da mão, os pais nas conversas de café.
Na Sérvia como em Portugal.

Também “preso” se pode viajar. Já o devia saber.

13 de setembro de 2011

Uma ponte sobre o Drina em Visegrad

De passaporte na mão passamos novamente para a Bosnia-Herzegovina, mais concretamente para a sua região Republica Srpska. Mas não há carimbos, pessoas mal encaradas ou esperas prolongadas... É quase como se a fronteira não existisse.

Chegando a Visegrad, não encontramos informações de tipo nenhum na paragem do autocarro, como por exemplo “como sair dali no dia seguinte?”, e o hotel para onde planeávamos ir tinha ar de estar fechado e abandonado há muitos anos... Parece que não tínhamos chegado a lado nenhum...
Mas depois vimo-la.



A ponte de Visegrad, sobre o rio Drina, chama-se Mehmed Pasa Sokolović, em honra ao grão vizir otomano que encomendou a sua construção no século XVI.
A sua estrutura é típica da arquitectura/engenharia que existia no apogeu do império Otomano, contemporâneo do Renascimento italiano.

Por razões arquitectónicas, históricas e geográficas, esta é uma obra que foi – e continua a ser – testemunha de intercâmbios culturais da transição entre impérios (otomano - austro-hungaro) e palco de conflitos (1ª, 2ª Guerra Mundial e guerra na Bósnia) que nos últimos séculos caracterizaram a região.

Gosto de pontes históricas e desta também gostei.
O seu valor é inquestionável e transcende fronteiras e culturas.



Para além disso, tirei aqui uma das minhas fotos preferidas de sempre...

on the way to Visegrad


Receio bem não ter "desperdiçado" tempo a tirar fotografias...
Não consegui desviar os olhos da paisagem
...

12 de setembro de 2011

BUS MEMORIES: Mokra Gora – Visegrad

Depois do comboio do Sargan 8 chegar à estação de Mokra Gora, por muito que tivéssemos gostado de aqui estar - sabemos que está na altura de seguir viagem.
Claro que informações... “tá quieto”... não existem, ninguém sabe. Toda a gente chega a Mokra Gora no seu próprio veículo.

Não conseguimos comunicar. Na recepção do hotel, para pedir uma informação sobre horários de autocarros, o procedimento -ainda que simpático- é ligar a uma amiga de um amigo que fale inglês que entenda o que queremos... e a resposta “?? Lá para as 18h30 deve haver um para Uzice mas não tenho a certeza”...

Os turistas que vieram andar no comboio histórico vão embora nos seus carros e em menos de 10 minutos ficamos sozinhos.

Estamos por nossa conta.
A única coisa que sabemos é que por volta das 16h há um autocarro na direcção de Visegrad (foi nesse que chegámos a Mokra Gora no dia anterior)... e sabemos que existe uma ponte antiga património da Unesco em Visegrad.
Decidimos ir até lá... e de lá seguir para o Montenegro (não sabemos bem como). Uzice é que não!

Enquanto espero pelo autocarro sentada na berma da estrada penso que é por causa disto que eu adoro viajar sem nenhum sentimento que não seja o verdadeiro “que te apetece fazer agora?”

E reaprendo mais tarde -não fosse já estar esquecido- que também de decisões não planeadas podem sair boas surpresas: uma viagem de autocarro no meio de paisagem de tirar o fôlego, junto à fronteira da Sérvia com a Bósnia-Herzegovina... ‘uma’ fotografia que já me valeu ter saído de Portugal, tirada da ponte de Visegrad... descobrir que as aparências enganam em Uzice... 

Agora só falta aplicar isto ao resto da vida.

9 de setembro de 2011

MOVIE @ Sargan 8: LIFE IS A MIRACLE



A vida é mesmo um milagre.

Sargan 8

Às 10h30 saímos do chalet no apeadeiro para entrar no comboio histórico que percorre a linha Sargan 8.
Esta linha de bitola estreita faz parte do caminho de ferro que ligava Sarajevo – Belgrado, desactivada desde 1974.

Este tramo foi reconstruído por voluntários com a ajuda de militares sérvios e é motivo de grande orgulho nacional pois foi re-inaugurada em 1999 durante os bombardeamentos da NATO a Belgrado.

Este é um troço icónico por ser o único no mundo que em planta tem a configuração de um 8 (a solução encontrada pelos engenheiros da altura para o comboio ultrapassar o desnível de 250m que existe desde Uzice até ao topo da montanha de Sargan) e apresenta-se na Sérvia como uma das suas atracções turísticas.






Pelo caminho passamos em vários túneis que nos desorientam e vamos parando em vários locais com vistas especiais ou em antigos apeadeiros.
Um deles - Golubici - é o “set” do filme do Kusturica “A vida é um milagre”, com a sua belíssima plataforma com vista para Mokra Gora e Drvengrad mais acima. Consta que foi deste apeadeiro onde o realizador escolheu o local onde iria viria a construir a sua vila cinematográfica.
A vista é fenomenal... ouve-se Goran Bregovic... e eu estou em êxtase.






Não posso deixar de me lembrar de uma certa malograda linha do Tua... num país pacífico à beira mar plantado. Pacífico demais, arriscar-me-ia a dizer.

5 de setembro de 2011

MOVIE @ Drvengrad: PROMISS ME THIS



Outro filme do Kusturica, absolutamente encantador, filmado nesta zona.
Um neto cumpre a promessa feita ao avô: vender a vaca no mercado, comprar um icon de S. Nicolau, arranjar uma noiva...
Fácil

Drvengrad, a aldeia de madeira

Drvengrad é o nome da aldeia construída pelo Emir Kusturica que se situa na montanha “por cima” de Mokra Gora. Também é conhecida por Kustendorf ou Mecavnik.
Do apeadeiro há um atalho até lá cima.

Esta vila étnica nasceu do sonho do realizador de construir a sua própria vila depois de ter perdido a sua cidade natal durante a guerra (Sarajevo).
O plano era, para além de desenvolver o turismo da região e dar um novo alento ao caminho de ferro histórico de Mokra Gora, criar um sítio para fazer festivais de cinema sem passadeira vermelha, workshops relacionados com as artes, uma escola de cinema, um sítio para os amigos e para toda a gente que quisesse aparecer.

Nós aparecemos.
E quando chegamos percebemos porque Drvengrad significa “aldeia de madeira”. 






As ruas têm nomes de personalidades consideradas relevantes para Kusturica: Fellini, Che Guevara, Maradona... há um hotel, um restaurante, uma pastelaria, uma igreja, lojas e um cinema, claro...
É uma vila surreal, como os seus filmes.

NOTA – soube depois, que seguindo o mesmo conceito está em curso a construção da 2ª vila étnica, Kamengrad, a “aldeia de pedra”, a poucos quilómetros de distância, perto de Visegrad, na BiH.

2 de setembro de 2011

um chalet em Mokra Gora

Queríamos ficar na aldeia construída pelo Emir Kusturica na altura da filmagem do Life is a Miracle. Ouvimos falar e a única indicação que tínhamos é que se localiza “perto” de Mokra Gora.
Mas tal como descobrimos mais tarde, o advérbio “perto”, para ser mais preciso, deveria ser transformado em “por cima”, pois na realidade, a aldeia do Kusturica situa-se na montanha com vista para Mokra Gora, 100m acima.
Estávamos no sítio errado, com 15 kg às costas, e com um Sol de escorrer suor pelas pernas abaixo...

Para nossa sorte, também existe um hotel na estação de comboios de Mokra Gora, de onde sai o histórico comboio que percorre a linha Sargan 8…
E para uma train lunatic, haverá melhor localização para um hotel?
Um hotel não... um chalet com flores à janela!



1 de setembro de 2011

TRAIN MEMORIES: Beograd to Mokra Gora (II)

O comboio é em direcção a Uzice, cidade-hub industrial do Sul da Sérvia onde pensamos apanhar um autocarro até Mokra Gora.
Já alguma vez referi que adoro andar de comboio?
Este comboio vai para Bar, na costa do Montenegro. A viagem é muito recomendada por ser muito pitoresca, principalmente na zona da fronteira Sérvia/Montenegro.
Mas nós saímos antes. Depois de umas tranquilas 4h de viagem (3h+1h de atraso) chegamos a Uzice, uma das cidades mais tristes e feias que já vi.


Mas encontramos pessoas simpáticas. Não entendem o que dizemos mas estão prontas a levar-nos até à porta do autocarro para Mokra Gora (o segundo dos 2 autocarros que existem por dia, em direcção a Visegrad, na Bósnia-Herzegovina).
E depois ficam a dizer-nos adeus da plataforma quando este parte.
A viagem dura 1h30 e é fantástica.
Saímos da cidade e do horror paisagístico que caracteriza o centro urbano de Uzice para entrar na zona de montanhas de Zlatibor com as suas casinhas de madeira e telhado vermelho.

Ao chegar a Mokra Gora o autocarro deixa-nos no meio da estrada numa paragem imaginária.
Percebo que não fazemos ideia de onde estamos. Não vem nos mapas, mal é referenciado no guia...  nada! Faz lembrar o Portugal profundo.

E o cenário é arrasador!
Estamos num vale verde e florido com casinhas pequenas típicas de madeira. Cheira a campo. Há animais à solta. Flores silvestres. Fardos de palha e muito Sol.

Estou na Sérvia profunda e estou profundamente encantada.


30 de agosto de 2011

TRAIN MEMORIES: Beograd to Mokra Gora (I)

Manhã cedo. Estação de comboios de Belgrado.
Ao tentar comprar bilhetes percebo logo que é difícil comunicar.
Como não percebem inglês nem nós sérvio e não querem perder tempo a tentar decifrar-nos fazem-nos saltitar de guichet em guichet. 
Não é nada com eles. Não estão para se chatear.

O tempo a passar... e nós – à portuguesa  chegámos à estação mesmo em cima da hora do comboio. 
E não o podemos perder. Só há 2 por dia e o outro é à noite!
O mais fácil é pensar: “Como é possível, Na estação de uma capital europeia e ninguém sabe dar informações em inglês?!”... mas depois penso na estação de Santa Apolónia... será que um sérvio conseguiria entender-se por lá?

E o tempo a passar.
Quando por fim, depois de gramar com 3 filas de mochila às costas, me mandam para o 4º guichet e eu percebo que afinal é igual ao 1º, não posso senão – mesmo à portuguesa  passar à frente de toda gente, que fica a resmungar nas minhas costas.

Mas eu não percebo sérvio. 

26 de agosto de 2011

MOVIE @ Belgrado: UNDERGROUND


Sou das apaixonadas pelos filmes do Kusturica. Se há humor non sense de que gosto, é o dele.
E a perfeita banda sonora/visual de acompanhamento a uma visita a Belgrado é o filme UNDERGROUND, uma comédia negra e surreal passada durante a 2ª Guerra Mundial até aos anos da guerra nas Balcãs.
 

"Once upon a time there was a country... and it’s capital was Belgrade"


24 de agosto de 2011

uma noite em Belgrado

Ao deambularmos pelas ruas perguntamo-nos se alguém trabalhará nesta cidade.... As ruas estão cheias de gente tal como os cafés e esplanadas.
Em Belgrado parece que todos os dias são fim de semana.
E como lemos algures, se todos os dias são fim de semana, todas as noites são véspera de fim de semana...

Dizem que se nos abstrairmos do cliché que é Las Vegas, ou dos muitos locais na Europa durante a silly season...  Belgrado é “a” cidade da diversão nocturna por excelência. Cartazes nas ruas anunciam todo o tipo de espectáculos e eventos artístico-culturais: 3 dias antes tinha acontecido o que viria a ser o último concerto da Amy Winehouse, 15 dias depois seria o internacionalíssimo EXIT festival em Novi Sad... Esta é época alta de festivais também na Sérvia!
Não há falta de sítios para ir conviver e dançar...  e beber. Há bares para todos os gostos, em casas particulares, ao ar livre, em barcos ou em caves debaixo do chão...

Ao pôr do sol apanhamos um autocarro para o outro lado do Sava até Zemun nas margens do Danúbio. Esta zona, fora do pulsar do centro da cidade é perfeita para jantar num dos muitos restaurantes sobre o rio. 

Escolhemos o Saran um must de Belgrado... principalmente porque nos permitiu comer um belo peixe de rio sérvio regado com um belo fio de azeite português, isto ao som de música das balcãs tocada ao vivo como é costume por aqui.

Depois caminhamos até à zona de bares flutuantes, junto ao hotel Jugoslavija, a grande landmark da zona, bombardeado em 1999 pela NATO.
Esta é uma zona muito movimentada. Vamos por um passeio/ciclovia que se desenvolve ao longo dos 10km de Zemun a Belgrado. 
Reparamos que à meia noite as ruas estão cheias. De gente a andar de patins ou de bicicleta ou a passear, jovens, velhos, casais a namorar, crianças.
E é 3ª feira.

Alguém nos recomenda o bar flutuante Acapulco por ser popular entre os amantes de turbo-folk, um estilo de música originária nas Balcãs conhecida por misturar música popular folk sérvia com elementos de pop e dance music.
O Acapulco está vazio às 00h30, mas por aqui não faltam outros bares flutuantes para beber um drink.

Outro club da moda é o urbano Andergraund, junto à fortaleza de Kalamegdan. 
Por isso, depois do drink, em 2 minutos de taxi trocamos o ambiente ligeiramente decadente dos clubes flutuantes por um terraço moderno e fluorescente, com música vibrante e cheio de gente bonita... É uma daquelas noites quentes em que dançamos sem parar...
 
Belgrado e eu começámos com o pé esquerdo, mas depois percebi. 
É uma cidade muito boémia, moderna e apesar de não ter o factor “wow” de outras cidades europeias há todo um outro feel que torna esta numa cidade onde nos sentimos bem.

Quando saímos do frenesim do Anderground, de madrugada, caminhamos até ao hotel e pelo caminho continuam a chegar-nos sons de outras paragens, outras festas, outros concertos...

A noite ainda era uma criança.

O bom de Belgrado é que não se faz o que os turistas fazem e depois se restar tempo sai-se para viver a cidade. Não.
Em Belgrado vive-se logo a cidade, tal e qual como o corpo pede.

23 de agosto de 2011

um dia em Belgrado

Belgrado não é uma cidade bonita, lemos isso nos guias e nota-se... principalmente depois de chegar de Sarajevo. 
Arquitectonicamente, é um mix de edifícios imperiais e “bunkers” de cimento da era comunista. 
Isso e o cirílico fazem-me lembrar Moscovo.


Belgrado também é conhecida por ser a cidade das Balcãs onde a relação qualidade preço da acomodação é pior. 
Pois no hotel Royal, por 60€ (!!) tive que roubar as toalhas e o papel higiénico do quarto ao lado e só havia um lençol individual dobrado em cima da cama.
Soube mais tarde que este é um daqueles hotéis... onde certas senhoras de má fama ainda tentam regatear o preço por não ficarem a noite inteira... mas sim apenas umas horas..

Ultrapassada a questão hoteleira, fazemos o sightseeing na Knez Mihailova às 06h00, mas ainda demorou até conseguir um café, o primeiro bem essencial após uma noite mal dormida num autocarro.
Ou seja, pode dizer-se que para além das expectativas não serem altas, eu e Belgrado começamos com o pé esquerdo -como convirá nestas zonas.

Mas isso resolveu-se rapidamente.
Em oposição às cafetarias, as pékaras (pastelarias) abrem bastante cedo, para gáudio de viajantes madrugadores acidentais como nós... e para mim, o segundo bem essencial após uma noite mal dormida num autocarro é um croissant quentinho recheado do mais decadente chocolate ainda a derreter... porque eu mereço!

Começamos pela cidadela-fortaleza de Kalamegdan de onde avistamos a encruzilhada dos rios Sava e Danúbio. 
E onde mais tarde durmo uma sesta debaixo das árvores. 
O corpo pede, Belgrado dá.



Vamos de tram para todo o lado, herança austro-hungara. O que eu adoro.
O almoço é no obrigatório quarteirão boémio de Skadarska onde experimento o imenso hamburguer recheado, típico do país. 

Aqui vemos paredes grafitadas com arte, há flores nas janelas, a rua é empedrada e há bancos para sentar e ficar a ouvir o ocasional músico roma (cigano) e sua orquestra.


O café é no Supermarket. Fiquei fã.

Belgrado até pode ser uma cidade feia, se a compararmos às outras capitais europeias, mas o bom de Belgrado não está em monumentos apocalípticos ou numa arquitectura arrebatadora. 

O bom de Belgrado está nas ruas, na vibração que se sente, num certo sentimento de hedonismo, de parar para aproveitar a vida, de cultivar o que nos dá prazer.

E como em tudo na Sérvia isto faz-se acompanhados ou “orgulhosamente sós”.

9 de agosto de 2011

BUS MEMORIES: Sarajevo to Beograd

O nosso autocarro partia às 22h do terminal de Lucavica (lê-se Lucávitsa).
Às 21h apanhamos um taxi para lá…. Ainda é longe do centro de Sarajevo, muito mais longe do que podíamos imaginar. Está na Republica Srpska.
O nosso taxista avisa-nos para isso e diz que vamos encontrar diferenças. Percebe logo que vamos para Belgrado. É fácil. Da estação de Lucavica só saem autocarros para Leste.

Na estação de Lucavica está tudo escrito em cirílico e não entendemos uma palavra. É preciso puxar pela imaginação ao tentar imaginar as letras do alfabeto grego que conhecemos da matemática...
Uma senhora velha vestida como se fosse nova, de sapatos de verniz, cabelo despenteado e cigarro na mão vende-me os bilhetes sem olhar para mim.
Ninguém fala inglês.

Continuávamos dentro de Sarajevo?... Sim. Mas ao mesmo tempo já tínhamos deixado aquela Sarajevo que nos faz querer ficar mais tempo.
Percebemos o quanto Sarajevo e a BiH estão tão divididas, o quanto a guerra separa as pessoas e por motivos que para nós são tão difíceis de entender.

A viagem em si foi uma espécie de pesadelo, apesar de não ser assim tão longa (apenas 7h30).
Apesar de eu não ir a dormir.
Mas de noite, com as luzes apagadas, sem conseguir pregar olho, sem ninguém com quem conversar... e ainda, com alguns passageiros a festejarem a entrada na Sérvia fumando cigarros dentro do autocarro... esta viagem preencheu muitos dos requisitos para poder engrossar a minha lista das piores de sempre.

... mas nada que não se tenha curado com um café forte à chegada!

8 de agosto de 2011

Sarajevo – TUNNEL


Durante o cerco de Sarajevo pelas forças Sérvias, entre 1992-1995, nada entrava nem saía da cidade. A água, o gás, a luz e as telecomunicações foram cortadas, as armas e munições para se defenderem escasseavam. Era uma questão de tempo até a cidade cair.

Sarajevo está rodeada por montanhas, por isso é fácil imaginar onde se posicionaram os militares sérvios.


Mas os cidadãos de Sarajevo tiveram a ideia de escavar um túnel por baixo da pista do aeroporto, sob a zona supostamente neutra controlada pelas Nações Unidas, até ao território Bósnio.

O túnel de 800m foi escavado em 1993, por voluntários que trabalhavam em turnos de 8h, durante 4 meses. Consta que começaram nas pontas e encontraram-se no meio...

Por ele entraram 20 milhões de toneladas de comida e ajuda humanitária, electricidade, gásoleo, armas e notícias. 
O túnel foi a verdadeira linha de vida da cidade. 


Hoje apenas 20m de túnel restam e fazem parte de um museu bastante gráfico, com um video, imagens e artefactos como uniformes, sacos de ajuda humanitária vazios, vestígios de bombas... 


Bosnia-Herzegovina – it’s complicated...

A Bósnia-Herzegovina (BiH) é um país complicado!
Confluem no seu território 3 etnias cuja característica mais diferenciada é a religião. Ou seja, a BiH é composta por 3 povos constituintes: 45% Bosniaks (muçulmanos da BiH), 30% Sérvios (ortodoxos cristãos), 15% Croatas (católicos cristãos) e 10% de outros, em números redondos.

Na era pós-Tito (pós 1980), depois de colapsado o comunismo presente na região desde a 2ª Guerra Mundial, os líderes ultranacionalistas Milosevic (Sérvia) e Tudman (Croácia) planeavam dividir o território da BiH entre eles – metade para a Croácia e metade para a, na altura ainda, Jugoslávia/Sérvia. Mas estes planos não incluíam as opiniões do maior grupo étnico da BiH, os Bosniaks.
Assim, após um referendo em que 99% da população bosniak votou a favor, e sob a orientação do presidente Izetbegovic, a BiH declarou independência em 1991.
Isto trouxe grande instabilidade social uma vez que cerca de 30% da população (de etnia sérvia) não era a favor da separação da Jugoslávia.
A instabilidade social transformou-se rapidamente numa guerra civil.

Durante os anos de 1992-1995, as forças sérvio-bósnias apoiadas por Milosevic e pelo seu Exército Popular Jugoslavo atacaram a BiH de modo a tentarem assegurar o território com maior percentagem de habitantes sérvio-bósnios.
Isto levou aos episódios de “limpeza étnica” da população Bosniak, por todo o território leste da BiH, atingindo o seu expoente máximo no massacre de Srebrenica, em 1995.


Também a Croácia, com a divisão do território da BiH em mente tentou invadi-la junto à sua fronteira, onde existe a maior percentagem de população de etnia croata (católicos). Estes confrontos foram responsáveis pelo terror espalhado em Mostar e pela destruição da sua ponte histórica em 1993.

A BiH estava a ser atacada por todos os lados.
Foi várias vezes denunciado pelo presidente Izetbegovic, o “lavar de mãos” dos países ocidentais e o falhanço total em tentar conter a agressão sérvia.
Esta é, no geral, a consciência comum presente no país. Que os países ocidentais viraram a cara e as forças da NATO, vieram tarde e a más horas.
Assim, recorreram ao mundo árabe, nomeadamente ao Irão, para apoio.. Estes enviaram armas e os seus guerreiros sagrados mujahedin
Esta decisão não foi nada bem vista pela Europa pois começaram a surgir manchetes alarmantes: “Bósnia: pólo europeu de extremistas islâmicos!”
Uma bola de neve.

O que é certo é que Sarajevo esteve cercada 4 anos, antes das forças internacionais da NATO intervirem.
A formação da Federação Bósnia-Herzegovina (bosniaks e bósnio-croatas finalmente aliados) e os bombardeamentos da NATO fizeram com que a Republica Srpska recuasse.


A paz foi assinada no final de 1995, no acordo de Daytona, moderado pelos EUA.
Surgiram 2 entidades autónomas dentro do mesmo país: a Federação da Bósnia e Herzegovina e a Republica Srpska. Cada entidade tem a sua capital e as fronteiras estão perfeitamente definidas.
O país é uma républica com a presidência tripartida e cada etnia tem o seu representante: 1 bosniak, 1 croata, 1 sérvio. O cargo de presidente vai rodando pelos 3 ao longo dos anos de cada mandato...

Vive-se uma paz condicionada.
Porque quem vive aqui, sabe muito bem o que custa a guerra.