É magnífica.
1 de agosto de 2006
Casablanca
É magnífica.
25 de julho de 2006
Paixão Vermelha, MARRAKECH – part III
E mais depressa do que desejei, deixei Marrakech.
Sorridentes atravessámos novamente a Djemma el Fna com o sol a iluminar o caminho em direcção à Koutoubia. As mochilas às costas iam agora um pouco mais pesadas, com aquele tipo de algazarra interna que não custa a carregar...

... só custa a esquecer.
Banca nº42
Não apanhei os nomes deles mas eram 4 ou 5 à nossa volta e quase todos se chamavam Mohamed ou Mustafá.
Um deles, o mais falador e gozão queria saber tudo da nossa vida. Que idade tínhamos, se éramos casados e tínhamos filhos. Insistiam que eu não teria mais que 18 anos... e quando lhes mostrei o meu passaporte para provar que sou bem mais velha... não acreditaram e pediram para ver os meus dentes....
Hilariante!
Rapidamente ficámos a saber o mesmo sobre eles... incluindo os planos para desposar a próxima noiva, que podem ser 4 ao todo... de preferência estrangeira.
Divertimo-nos imenso... mas tenho pena de o meu francês ser hiper-super-limitado pois teria conversado mais.

Apesar da conversa fiada toda, eles não descuravam o seu trabalho, iam e vinham à vez... e continuavam as suas tarefas de cozinhar e angariar novos clientes.
Também ajudámos nisso.
DAR ESSALAM

“É aqui que o Rei vem jantar quando está em Marrakech”, dizem assim que entramos. Depois somos conduzidos à mesa a nós reservada.
Há música ambiente ao vivo.
Dali a pouco chega um rapaz com um recipiente de cobre enorme para onde verteu água para lavarmos as mãos.... e toalhas....
E depois vieram as hariras, as saladas, os couzcouz, as tajines, as koftas e as brochettes... um manjar.
A meio do jantar surgiram dançarinas que deram um outro colorido ao jantar... dançam 3 músicas, a de apresentação, a principal e a de despedida.

Gostei.
24 de julho de 2006
Paixão Vermelha, MARRAKECH – part II
Hoje levantámos tarde...
Queríamos encontrar um Hammam (banhos públicos com massagens...) para relaxar antes do jantar então fizemo-nos à Riad Zitoun e às suas paredes cor de rosa.


Fomos até ao incomparável Palácio el Badii que agora não passa de uma ruína que alberga dezenas (ou centenas?) de cegonhas.
Não encontrámos um hammam de jeito... ou muito caro, ou muito barato... mas reservámos uma mesa no Dar Essalam para essa noite.
De volta aos souks andámos o resto da tarde em negociatas pra trás e prá frente... comprámos um narguilé (cachimbo de água)...


Estávamos estafados... a hora do jantar aproximava-se e nós decidimos separar-nos. Uns para o hotel, outros de volta aos souks...
Eu decidi ficar na Praça...
Não acreditava que no dia seguinte ia deixar a cidade.
Não fui para lado nenhum, fiquei lá só.
A olhar para as pessoas, a tirar fotos, a curtir os últimos raios de sol do dia, pedi a uma rapariga para me fazer uma tatuagem de henna. A azáfama e os fumos das bancas surgiam novamente do nada. Os tambores, esses não descansavam...
Os raios de sol que me douravam e acariciavam a face foram deixando a Djemma el Fna e eu aproveitei cada um.
Said e a noite marroquina
Queríamos jantar na Praça e assim combinei com o Said – que tinha conhecido no ano passado – em frente ao café Argana.

Foi engraçado. Ele vinha envergonhado mas foi fácil de reconhecer, conheceu o pessoal todo e correu tudo bem.
Não jantou connosco mas bebeu um chá.
No início ofereceu alguma resistência ao meu convite e enquanto esteve connosco até parecia um pouco desconfortável sempre a olhar por cima do ombro. Não percebi... mas ele explicou. É que a praça é uma zona muito policiada pela brigada turística de Marrocos e supostamente o Said não tinha autorização oficial para estar ali connosco. Não era nosso guia oficial... e poderia ser confundido com um dos muitos “faux guides” que importunam os estrangeiros e que são punidos se forem apanhados. Bem... senti-me uma atrasada mental egocêntrica mas correu tudo bem e ele descontraiu... comemos umas brochettes fantásticas!
Depois do jantar fomos até um dos terraços com vista para a praça e bebemos um chá. O pessoal disse que queria ir a uma discoteca marroquina e o Said levou-nos...
Depois de 40minutos a pé.... chegámos a Gueliz. Foi muito cómico.
Era um discoteca marroquina, com música tradicional ao vivo e sem ser ao vivo...
Vimos cerveja à venda pela primeira vez e aproveitámos. O Said bebeu limonada.
Pudemos ver raparigas marroquinas “ocidentalizadas”... iguais a nós, aliás... melhores que nós tal era a produção. Nas casas de banho não havia 1 cm2 de espelho livre.. e na pista de dança ... elas dominaram completamente... dançam mesmo à oriental... foi o máximo vê-las porque só de pensar dançar ao lado delas já me faziam sentir como um homem desengonçado e sem ritmo... :-) Bem, suponho que depois de algum tempo ganhámos coragem e invadimos a pista... Foi uma paródia.
Mais tarde despedimo-nos do Said e regressámos à Djemma el Fna estafados... mas aqui o forrobodó estava para durar...
21 de julho de 2006
Paixão Vermelha, MARRAKECH – part I
O pessoal está preocupado com o hotel, com as mochilas a carregar, mas eu nem penso nisso. Estou de volta a Marrakech, a minha mochila pesa 100gr e só penso em juntar o meu coração ao coração da cidade.
Não sei se os outros se apercebem do meu entusiasmo mas eu fervilho por dentro.
Deixamos o parque de estacionamento e vamos em direcção à Praça. São 18h30, perfeito, o sol inclinado dá uma cor dourada a tudo o que tem o privilégio de ser iluminado por ele.
Chegamos...
A Djemma el Fna saúda-nos com as suas cores. Começa a ser montado o caos organizado diário das barracas de comida.
Sinto que nasci aqui noutra vida, quero dançar perto dos grupos que tocam e cantam à minha frente...
O sol também me ilumina. Sinto-me cansada e suja, livre e feliz. Quero estar onde estou. Hoje é este o meu lugar no mundo.


Marrakech mexe com as pessoas, revira-nos por dentro. É uma cidade que vibra literalmente.
Assim que entramos na praça e metem-nos cobras no pescoço, vêm os aguadeiros oferecer água, as meninas das tatuagens de henna chamam-nos por debaixo dos seus chapéus de sol, os músicos pedem gorjetas. Os fumos vão-se espalhando.
20 de julho de 2006
Rentrée na Cidade Vermelha
Mas a entrada em Marrakech foi atribulada.
Queríamos ir directamente para o centro como tínhamos feito em Fes... mas Marrakech não é Fes... e nós não conseguíamos chegar à Praça Djemma el Fna. Quando dávamos por ela estávamos em becos sem saída, em ruas onde não cabem carros... algumas pessoas apontam-nos o caminho... mas a maior parte anda por ali despreocupadamente no meio do trânsito, de carros, de motas, de burros... não olham, não querem saber... é o desenrasca e toda a gente passa à frente de toda a gente.................... menos nós.

Eventualmente lá conseguimos contornar a muralha (les Remparts) por dentro e ir dar à zona da mesquita Koutoubia, onde param as dezenas de autocarros de turistas... e as caleches de cavalinhos magros.
Col du Tichka
Adoro percorrer esta zona do Alto Atlas. Por todo o caminho passamos por pequenas vilas fortificadas pelos seus kasbahs acastanhados cor de terra. As torres das mesquitas sobressaem, brancas, ao longe. Os campos são cultivados em socalcos perto do rio... as cores são vibrantes, o castanho da montanha e dos kasbahs, o verde luminoso das culturas, o cor de rosa das flores e das roupas das raparigas nos campos.
Fizemos uma paragem para esticar as pernas no Col Du Tichka – onde a estrada pára de subir e começa a descer - ... e que “big mistake”... quer dizer, não se pode dizer que não soubéssemos o que ia acontecer... E qual é a estratégia desta vez... Bem, convém dizer que estamos no topo de uma montanha... um sítio de passagem... e os turistas que por ali passam têm que ser ardilosamente agarrados...
Logo nos sentimos – pelo menos eu – viajantes intrépidos a trocar mercadorias com os nativos em locais onde o dinheiro perde todo o seu valor, etc
Hilariante!
Dei-lhes uns ben-u-ron’s, que agradeceram e depois – cá está – fui convidada para entrar numa loja para escolher um “cadeau”... um presente para pagar a troca.... e o resto não é preciso contar... mas saí de lá com mais do que o próprio cadeau.
Vêem-se imensas pessoas a vender aquelas pedras que são brilhantes por dentro... rapazes sozinhos sentados à beira da estrada com as pedras da mão...
... mas, eventualmente as montanhas acabaram e a cidade vermelha aproximava-se....
“O Mundo é Pequeno, mas o Sahara é Grande”
Conversámos um pouco com um deles sobre aquilo que ia na nossa cabeça... e ele explicou que de facto muitas vezes não eram simpáticos com o pessoal de fora, mas isso devia-se ao facto de não terem dinheiro para comer. Isto impressionou-me imenso mas ainda mais o facto de eu me dar conta que não consigo lidar com isso. Pura e simplesmente não sei como agir.
Ele ofereceu-nos um chá... vindo do coração acrescentou, depois de ver o nosso ar desconfiado... “un té de mon coeur... pas de commerce” garantiu...
Era um rapaz novo da nossa idade que falava um francês fluente e fácil de compreender...
Palavra puxa palavra... acabámos por ficar sentados no tapete dele durante mais de 1hora... falou-nos da vida de nómada que às vezes levava... vivia-se um dia de cada vez e como era bom poder de um desses dias para o outro embrulhar a trouxa e partir... contou que já tinha sido pastor de camelos no deserto... também era músico e tocava vários instrumentos... conhecia muitos países do Sahara por onde já tinha viajado, Argélia, Mali, etc... falou-nos das dificuldades do povo Tuaregue em manter o seu modo de vida nómada... e não tinha medo de nada... nem de envelhecer, nem de adoecer.. o que virá virá.
Ele, concentrava em si o melhor de dois mundos: o comerciante berbere (da parte da mãe) e o nómada tuaregue (da parte do pai)... Acreditava que nenhum mal lhe aconteceria... pois nenhuma doença sobrevive ao deserto.
Tal como nós, agradecia o facto de sermos diferentes pois assim, teoricamente, teríamos infinitamente mais a lucrar destes encontros... a verdade é que estava tão entusiasmado que mal nos deixou falar... ainda bem para nós.
Achei-o deslocado do seu mundo mas ao mesmo tempo perfeitamente enquadrado.
Consciente mas não completamente aderente ao mundo moderno... dizia que a coisa que mais o irritava era a proliferação dos cyber cafés em tudo o que é terreola... dizia não acreditar que alguma vez o progresso alcançasse o meio do deserto... e nas palavras dele, o mundo era pequeno, mas não o Sahara... o Sahara era enorme...
O chá vindo do coração foi-se bebendo, o tempo foi passando e ele foi contando as histórias dele à medida que fumava cigarro atrás de cigarro.
Depois mostrou-nos a sua “arca do tesouro”... o baú cheio de items trocados nas suas viagens... tecidos... bijuterias... bibelots... armas antigas... eu sei lá... juro que vi lá coisas vindas das Índias... depois explicou para que serviam cada uma... pois muitas vezes o objectivo não era nem tão pouco mais ou menos óbvio...
...
Mas entretanto tivemos que nos despedir, com a promessa de enviar fotos por correio para Mhamid, a sua árida terra natal, quase na fronteira com a Argélia, onde deveria regressar dali a alguns meses...
19 de julho de 2006
Ait Ben-Haddoun e a "ingénua depressão da esmola"
Na estrada em direcção a Marrakech, a 30km de Ouarzazate fica outra das vistas mais emblemáticas de Marrocos... o kasbah de Ait Ben-Haddoun.
Este era talvez o spot onde eu depositei maior expectativa... porque vem em todas as revistas/artigos sobre Marrocos... porque é a capa do Rough Guide que comprei depois de voltar de Marrocos no ano passado... e porque nessa altura passei a 10 km dele e nem me apercebi... Havia portanto, um personal issue entre mim e este kasbah, que estava em vias de ser resolvido.
Toda a gente sabe que expectativas altas são difíceis de corresponder... e para além de depois ter ficado com a impressão de que o kasbah deveria ser mil vezes mais bonito com a luz dourada do pôr do sol... aqui neste sítio apercebemo-nos também, sem margem para dúvidas, do que move a vida de grande parte dos marroquinos em relação a nós... dinheiro.
Óbvio?... Pois sim... mas é sempre amargo para aqueles sensiveizinhos de nós que tem aquela vontade inexplicável, estúpida e curiosa de falar com as pessoas desinteressadamente, de ouvir coisas diferentes, de saber de outros modos, outros hábitos, para depois se aperceberem que isso trás sempre água no bico uma vez... e outra... e outra....
É a compreensão da impossibilidade da mistura... de que nunca iremos sentir que os sítios também são nossos... de que somos os "europeus ricos" topados à légua a quem se vai sempre, sempre... tentar vender gato por lebre...
Não vale a pena dizer que somos de Portugal (conhecido em Marrocos como o país pobre da Europa)... pois estamos no meio de nenhures, entre o deserto e as montanhas... e aqui ninguém sabe onde fica Portugal... só sabem que somos brancos.
“Nós temos que comer”... dizem... e contra factos não há argumentos...
Aqui nada é gratuito... muito menos os sorrisos... muito menos indicar o caminho...
Bem, suponho que no meu caso haja sempre um dia reservado ao que eu chamo de “ingénua depressão da esmola”... e foi hoje.
... pena que foi no spot_capa_do_Rough_Guide
:-)
18 de julho de 2006
Na Rota dos Kasbahs
Mas rapidamente nos pusemos a caminho... tínhamos que chegar a Ouarzazate ainda hoje.
As rajadas de vento traziam a areia para a estrada. Pode-se dizer que o deserto nos seguiu tal era a quantidade de areia no ar... para se despedir... ou para nos expulsar... ?
Há algo nesta paisagem lunar que me invade... e sacia, como se procurasse algo que não sei o que é e o encontrasse onde não existe nada.
É a estrada sem fim...
Rissani – Erfoud – Tinerhir. Em Tinerhir, base de exploração das Gargantas do Todra, almoçámos umas brochettes (espetadas) de carne maravilhosas enquanto éramos almoçados por moscas.
De tarde explorámos as formações rochosas mais famosas de Marrocos.
No caminho para Ouarzazate, através do Vale do Dades, a paisagem começa a modificar-se, a ficar mais verde. Os kasbahs castanhos, sucedem-se.... surgem palmeirais imensos...
Chegámos a Ouarzazate já tarde...

Esta cidade é a verdadeira cidade encruzilhada. Outra cidade de passagem de caravanas... de quem quer ir de Norte para Sul, do litoral para o interior... Costuma ser a base de partida para muitos sítios e figura invariavelmente nos roteiros de quem se aventura pelo deserto. A sua importância deve-se ao facto de ter uma localização estratégica. É principalmente um sítio de partidas e chegadas... perfeito para pernoitar quando se vem do deserto em direcção a Marrakech.... mas de resto não tem muito que ver...
... por isso, connosco foi harira e cama.
... Marrakech... e aqui se dá o ínício de uma certa efervescência no sangue...
13 de julho de 2006
Acampamento nas Dunas de Merzouga
Ficámos encantados com a simpatia deles e com nossa fortaleza... não sabíamos se ir se ficar... queríamos tudo.
Connosco, a conduzir os camelos, vinha um rapaz de roupagens e turbante azuis. Deixou as sandálias no limiar da areia e fez o caminho todo a pé, descalço.
A viagem durou praticamente 2 horas... e a meio do caminho caiu a noite e levantou-se a Lua no horizonte... cheia.
Perfeito.
Chegámos ao acampamento depois do meu camelo rebolar duna abaixo – comigo em cima - duas vezes... Estavam mais cansados que nós, coitados... Assim, fiz a parte final do percurso a pé porque o bicharoco se recusou a continuar caminho...
Já quase me tinha esquecido de como é difícil caminhar na areia.
Aguardavam-nos homens e rapazes, todos vestidos de azul, os responsáveis pela manutenção do acampamento. Deram-nos as boas vindas e conduziram-nos às tendas negras dispostas em círculo à guarda de uma duna gigante. Havia mesinhas com candeeiros e velas, espreitámos e dentro das tendas vimos camas e cobertores e lençóis... tudo muito acolhedor e confortável para não faltar nada ao turista, claro.
Começaram a tocar e a cantar... nós também, mais desajeitados, e no final dançámos todos juntos até estarmos cansados.
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13-Junho-2006, Terça-Feira
Levantámos às 5h00 para ver o nascer do sol nas dunas, já era bem de dia.
Foi duro subir aquela duna gigante com os pés e as pernas a enterrarem-se constantemente... a areia a escorregar.. e nós a escorregarmos com ela... e quanto mais se subia... mais se escorregava, mais vento estava.... e quanto mais vento estava menos podíamos abrir os olhos para olharmos toda a imensidão que nos rodeava...
... ... (sem palavras) ... ... ...
O afamado “silêncio do deserto” mostrou ser não mais que uma quimera perdida em versos de poesia... pois basta uma aragem para o deserto ser profundamente ruidoso.
Enquanto descia a duna sozinha experimentei o meu primeiro momento de solidão desta viagem. Uma solidão de pessoas. Uma sensação alegre e sorridente de se estar acompanhado de sítios e não de gente. Como se os sítios falassem e as pessoas desaparecessem... ou então como se os sítios fossemos nós.
Depois da descida, despedimo-nos dos nossos anfitriões e rapidamente nos fizemos ao caminho de volta ao albergue.











































