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11 de maio de 2016

torres del paine #5: paine grande


O dia amanhece solarengo no Refúgio Los Cuernos.
Isto torna impossível de descrever a intensidade dos azuis e verdes do Lago Nordenskjold e da vegetação que o rodeia.

Caminhamos junto à margem do Lago com os olhos postos ora no reflexo que a trégua do vento permite, ora na montanha do Paine Grande e nos seus glaciares suspensos sobre o Vale Francês.

De vez em quando ouve-se o som de trovão que sucede os colossais desabamentos de massas de gelo e que acompanha as avalanches que se seguem.




Perto do Camp Italiano atravessamos o Rio del Francês que por ali corre em tumulto. As pontes suspensas que vamos encontrando parecem ser algo improvisadas, há vários sinais que advertem para que só atravessem 2 pessoas de cada vez. 

Entretanto o rio corre forte e ensurdecedor.
As árvores são gigantes com ramos torcidos pelo vento. 



Ao fim da tarde olho para o céu enquanto o Sol lhe pega fogo.
Sinto-me perfeitamente insignificante perante a magnitude da Natureza.
E muito feliz por estar aqui.



9 de maio de 2016

torres del paine #4: los cuernos


Depois de uma aurora nublada na lagoa azul-turquesa das Torres del Paine, seguimos caminho em direcção ao Refúgio Los Cuernos onde será o próximo acampamento. 
É uma caminhada de perto de 16km que nos levará umas 6h, mas não temos pressa. 
A vida de caminhante é simples e as preocupações são básicas: água, abrigo, comida.

Uma parte do caminho já o tínhamos percorrido no dia anterior, mas depois de passarmos pelo Refúgio Chileno rapidamente chegamos ao atalho que nos leva ao trilho que contorna o Cerro Almirante Nieto e acompanha o belíssimo Lago Nordenskjold em direcção a Los Cuernos. 



A margem deste Lago presenteia-nos com um dos trilhos mais bonitos que já percorri. A maior parte do percurso é a descer por isso, apesar de longa, é uma caminhada muito tranquila onde vou aproveitando para me habituar à cor da água que me parece sempre tão surreal.

Qualquer pretexto é bom para parar, tirar fotografias e ficar simplesmente a apreciar a paisagem.





À medida que nos aproximamos do final começam a revelar-se os Cuernos, as outras formações rochosas ex-libris do Parque Nacional. São fáceis de distinguir por causa da sua coloração clara com os topos escuros. 

O Refúgio tem uma localização privilegiada, com uma bela vista para o lago. Acampamos no parque de campismo e jantamos no Refúgio onde se juntam muitos caminhantes de diferentes nacionalidades, com uma coisa em comum: foi um grande dia de caminhada para todos.




6 de maio de 2016

torres del paine #3: las torres

Acordamos de madrugada a ouvir o riacho que passa no meio das árvores que abrigam o Camp Torres.
Não somos os únicos. Muita gente se prepara para a última parte da caminhada que nos coloca frente a frente com as maravilhosas Torres del Paine.

A cereja no topo deste bolo são os primeiros 10 minutos de Sol que pintam as paredes das Torres de vermelho, por isso esta caminhada é feita ainda de noite.
Deixamos as mochilas na tenda, enchemos o cantil no riacho, pego na máquina fotográfica e partimos para a caminhada de aproximadamente 1h sempre a subir num trilho rochoso.

À medida que vamos subindo, percebemos que não se vêem estrelas, e eu vou pensando que de céu nublado, o mais certo é não encontrarmos uma paisagem de cores muito vivas.

Mas a Patagónia é uma terra de surpresas.



Uma viagem à Patagónia será sempre uma viagem pautada por sensações fortes.
Primeiro, a paisagem soberba, claro, para isso uma imagem valerá sempre mais que mil palavras. Depois a percepção que temos dos nossos limites, da nossa resistência física e o choque ao percebermos que afinal aguentamos tão mais e precisamos de tão menos do que pensávamos. Por fim, os momentos, as experiências, também elas imponentes. Na Patagónia não só fui constantemente relembrada de que a Natureza está muito viva e a pulsar de energia, mas também eu me senti inexplicavelmente muito viva.

Quanto às cores, mesmo de céu nublado, mesmo sem paredes vermelhas, nunca vi um azul-turquesa tão vivo como o daquela lagoa.
E as Torres, são tal como sempre as imaginei, maravilhosas.


3 de maio de 2016

torres del paine #2: vale do rio ascencio

O primeiro dia de caminhada nas Torres del Paine reserva-nos a subida ao Camp Torres, situado na base do trilho que dá acesso ao miradouro das Torres del Paine.

Este percurso divide-se facilmente em duas partes: 2h até ao Refúgio Chileno + 2h até ao Camp Torres. É hora de almoço por isso estamos a tempo de lá chegar ainda de dia, mesmo com as mochilas.

A ideia inicial era deixar parte da nossa bagagem em algum lado, de modo a aliviar a carga durante as caminhadas. No entanto, o único local onde voltaríamos mais tarde, o escritório da CONAF, na Laguna Amarga, que marca a entrada/saída do Parque e onde os autocarros param para os visitantes comprarem os bilhetes de entrada, não oferece esse serviço. Por isso, para a frente é que é o caminho.

E neste caso, para cima também.
A caminhada começa de frente para o Cerro Almirante Nieto. Vamos subindo devagar, parando várias vezes para descansar e apreciar a paisagem e eu vou pensando que se há algum sítio onde devemos caminhar sempre a olhar para a frente e também para trás, é aqui. A paisagem é incrível, para onde quer que nos viremos.



Em alguns pontos o caminho bifurca dividindo-se entre o trilho para caminhantes e o trilho para cavalos. Todos os mantimentos que abastecem o Refúgio Chileno são transportados na garupa de cavalos que fazem este percurso várias vezes por dia.

No final da primeira grande subida somos recompensados pela vista do Vale do Rio Ascencio e suas montanhas envolventes. 



Mais à frente, no Refúgio Chileno, aproveitamos para fazer uma pausa e para absorvermos o ambiente de descontracção entre caminhantes. Este é o Refúgio mais próximo do miradouro das Torres del Paine, por isso é muito concorrido.



Depois continuamos atravessando uma floresta de lengas, as árvores típicas da Patagónia onde conseguimos avistar um huemul, uma espécie de veado, que está em extinção, natural da região andina sul e um dos animais icónicos do Chile (a par do condor).

Estamos sem dúvida num local ímpar no que diz respeito ao contacto com a Natureza.



Dados (aproximados): distância: 9km | duração: 4h00 | desnível total: 500m(up)  

27 de abril de 2016

torres del paine #1: trekking world



As histórias sobre a Patagónia evocam invariavelmente paisagens de tirar o fôlego e para isso contribui, em larga escala, o Parque Nacional das Torres del Paine, no Sul da Patagónia Chilena, uma zona do mundo de terreno desafiador onde a estepe encontra os Andes imediatamente antes de estes mergulharem abruptamente no Pacífico.

Depois de uma longa viagem desde El Calafate, que inclui a travessia da fronteira da Argentina para o Chile, chegamos finalmente à Laguna Amarga onde somos recebidos por uma simpática manada de guanacos a petiscar arbustos à beira da lagoa.

É impossível não vibrar de emoção à medida que nos vamos aproximando do Parque Nacional, que culmina no momento em que avistamos ao longe as Torres gigantescas erguendo-se verticalmente do maciço montanhoso.




A Laguna Amarga é a zona de entrada no Parque onde compramos o bilhete e aguardamos por um transfer que nos leve para o sector Las Torres onde vamos iniciar a nossa caminhada. Enquanto esperamos, vemos muitas pessoas de pés descalços, a relaxar na relva verde, recostadas sobre as próprias mochilas. Provavelmenre acabaram de chegar das suas caminhadas e aguardam pelo próximo autocarro de volta a Puerto Natales. Mal podemos esperar para saber o que estarão a sentir, para além de cansaço. Para já, ainda só sabemos que estamos a chegar a uma daquelas zonas que aparecem sempre no top 10 de qualquer ranking de trekkings do mundo.

A caminhada mais procurada das redondezas é o “Circuito W” que se faz em 4-5 dias e nos leva às melhores vistas do Parque. Estas vistas incluem lagoas azul-turquesa, glaciares colossais e montanhas recortadas, formidáveis. Quem tem mais tempo aproveita para fazer o “Circuito Completo” que para além dessas vistas circunda todo o maciço Paine e demora 8-10 dias.


As noites podem ser passadas em refúgios ou parques de campismo, que são geridos por 2 entidades: Fantastico Sur (ex: Chileno, Cuernos) e Vértice Patagónia (ex: Grey, Paine Grande). Os acampamentos into the wild, que são as zonas onde é permitido o acampamento dito “selvagem”, grátis e por isso básico, são geridos pela CONAF a entidade responsável pela conservação do Parque (ex: camp Torres e camp Italiano).

É preciso considerar que as caminhadas nas Torres del Paine são muito mais movimentadas do que as caminhadas em El Chalten, ou seja, os refúgios mais solicitados esgotam com semanas de antecedência e até para acampar em alguns parques de campismo (seja nos que existem junto aos refúgios, ou nos acampamentos into the wild) poderá ser necessário reservar.

Tal como em El Chalten, optamos por acampar, em nome da aventura, do back to basics, da flexibilidade do itinerário e da boa saúde do porquinho mealheiro. Os refúgios, para além de concorridos, são muito caros.

Para caminhar nas Torres del Paine não é necessário guia, os trilhos são fáceis de seguir e estão todos muito bem sinalizados.
No entanto, é preciso dizer, algumas caminhadas não são extremamente acessíveis. Algumas partes do trekking são literalmente longe de tudo, no meio da Natureza, com recursos limitados, onde a comida, água, etc, chega em caravanas de cavalos, ou às costas de porters e onde a estrada mais próxima poderá estar a mais do que um dia a pé de distância. 

A dificuldade das caminhadas é um assunto muito relativo que para além do estado de “fitness” do caminhante, dependerá, naturalmente, do clima e do peso da mochila.
No meu caso, não sendo uma pessoa especialmente “fit”, e tendo que carregar uma mochila de 12kg, confesso que no início talvez não estivesse muito optimista, mas no final dos 4 dias concluí, orgulhosamente, que tudo é possível.

“If you really want to do something, you’ll find a way. 
If you don’t, you’ll find an excuse”.
Jim Rohn

14 de abril de 2016

vida na estância



Numa zona do mundo com clima tão hostil, muito frio, seco e com um vento arrasador, é fácil imaginar que a agricultura sempre esteve muito limitada.
Por isso a economia da Patagónia desenvolveu-se e prosperou fundamentalmente devido a actividades relacionadas com a pecuária.

O povoamento desta região baseou-se na distribuição de terras para estabelecimento de estâncias destinadas a criação de ovelhas. As terras eram concedidas e após um período de arrendamento, caso cumpridas as exigências de permanência, tornavam-se propriedade do ocupante.
Ou seja, uma “estância” era o lugar para se "estar".

As ovelhas foram trazidas pelos ingleses para Patagónia no fim do sec XVII, e os primeiros negócios dedicavam-se apenas à produção de lã devido à inexistência de instalações frigoríficas.

Por toda a Patagónia encontramos muitas estâncias que hoje em dia também acolhem turistas e lhes possibilitam contactar e aprender sobre as diferentes tarefas diárias dos gaúchos da Patagónia.

Ver os gaúchos trabalhar como o gado, tosquiar ovelhas ou percorrer o campo a cavalo são algumas das actividades possíveis de rechear uma experiência de vida na estância, que o mais certo é terminar à mesa, a saborear um belo asado argentino acompanhado por um tinto malbec.








Estas fotos foram tiradas na Estância Nibepo Aike, perto de El Calafate. 


11 de abril de 2016

perito moreno

Perito Moreno, o homem, era um explorador argentino, especialista na Patagónia, que nessa região ajudou a definir a linha de fronteira entre a Argentina e o Chile, com base na linha de cumeada das montanhas dos Andes, no entanto nunca chegou a ver o glaciar que hoje leva o seu nome e que é, provavelmente, o glaciar mais conhecido do mundo.

Desde El Calafate é muito fácil visitar o glaciar Perito Moreno. Existe uma estrada que liga a cidade à península de Magalhães, onde o glaciar desemboca, literalmente, e nesse ponto de encontro foi colocado um conjunto de passadiços que permitem ao visitante observar os vários ângulos do glaciar.  

Mesmo de perto.


Essa proximidade, que possibilita uma experiência espectacular, também faz com que este seja o glaciar mais famoso do mundo, mas existe uma “multidão” de outros glaciares ligados ao Campo de Gelo Patagónico Sul, igualmente espectaculares, apenas não tão acessíveis para o comum dos visitantes.

O glaciar Perito Moreno tem outra importante característica que é a de ser um dos únicos glaciares do mundo que, para além de não estar em regressão, até está a crescer. Ou seja, o seu ritmo de formação na base é superior ao ritmo de desprendimento de blocos na frente, de modo que o seu avanço é constante.


Ficar à espera de ver o desprendimento de blocos na frente do glaciar é uma experiência tão sedentária quanto emocionante. São blocos do tamanho de contentores que sem prévio aviso se desprendem e caem nas águas do Canal de los Tempanos (canal dos icebergues), num splash gigante, acompanhado por um som de trovão que ecoa no vale e pelas respectivas ondas que agitam a água até à península de Magalhães.



Como está em crescimento, de tempos a tempos, o glaciar alcança a península, bloqueia a passagem de água entre os braços do Lago Argentino e forma-se uma pequena barragem que faz aumentar o nível da água do braço Sul do Lago.
A pressão causada pelo aumento do nível de água vai desgastando o gelo até se formar um túnel que permite a passagem da água. Com o passar do tempo e da água, o túnel vai aumentando e transforma-se numa ponte que acabará por colapsar num fenómeno chamado "ruptura do glaciar".

O ciclo de ruptura do glaciar é irregular e pode ocorrer a cada 2-4 anos, ou 10. 
A última ruptura aconteceu no dia 10-Março-2016. (Estas fotografias foram tiradas no dia 25-Fev-2016)


Para além de observar o glaciar Perito Moreno percorrendo os vários quilómetros de passarelas, também existem outras opções para o apreciar em todo o seu esplendor. 
Por exemplo, de barco, numa navegação no Lago Argentino que nos aproxima também de outros glaciares (Upsala, Spegazzini), ou a pé, no mini-trekking que nos leva a caminhar sobre o seu azul infinito.







De uma maneira ou de outra, visitar o Glaciar Perito Moreno (património da Unesco) é uma experiência inesquecível que uma vez mais nos recorda de como a Natureza é poderosa, sublime e genial.