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14 de fevereiro de 2012

Festa portátil

A caminho da estação de comboios de Varanasi percebemos que deve ser dia de festival, pois vamos passando por vários cortejos, no mínimo, carnavalescos. Estão em todas as ruas e cruzamentos, alguns nos últimos preparativos, outros já em grande animação.

Os cortejos são liderados por cavalos e cavaleiros enfeitados de roupas douradas vermelhas e verdes, seguidos de andores com estátuas e de uma infantaria de transportadores de holofotes e arcos de luzes, tipo santos populares. É tudo muito decadente, muito usado, muitos têm ferrugem e lâmpadas fundidas, as roupas estão gastas, mas isso não impede a folia.

Ora há uma banda filarmónica que segue atrás das luzes a tocar os seus instrumentos, ora a música sai de colunas transportadas num ciclo-rickshaw, seguidas dos ciclo-rickshaw que transportam os geradores de electricidade.
A multidão é maioritariamente masculina e são jovens rapazes que dançam de modo violentamente contagiante. E também lançam foguetes.
É uma festa portátil que se vai movimentando aos poucos pelas ruas da cidade. Uma visão tão desconcertante quanto improvável.

Mas porquê?! 
Não chegamos a perceber o que estão a festejar. 
Calculo que o tentar perceber o motivo das festas seja um hábito europeu que o português ainda não conseguiu largar totalmente.  

9 de fevereiro de 2012

Onde os comboios têm nome

Não adoram quando os comboios têm nome?
Claro que a Índia não é o único país onde isto acontece. Mas é o país com o maior sistema ferroviário do mundo e isso, confesso, é uma das características que para mim, enquanto train lunatic, é das mais apelativas quando decido pôr a mochila às costas.

Quando se decide viajar de transportes públicos, viajar de comboio dá-nos outra liberdade.
Normalmente tem-se mais espaço que num autocarro, é possível ler e escrever sem ficar tonto, aproveitar para esticar as pernas, mudar de ares, apanhar ar, conversar com mais pessoas e dormir mesmo na horizontal. Num autocarro muitas vezes ficamos presos horas a fio na mesma posição, não há margem para grandes manobras e se temos o azar de ficar na última fila numa estrada esburacada, então o melhor é trazer o capacete. 
Felizmente, a história do descolamento da retina é mito.
E muito importante, viajando de comboio não se perde a conexão com a terra que desaparece sempre que apanhamos um avião, não se perde a noção dos quilómetros percorridos e de como a paisagem evolui e se transforma.

Os comboios têm todos um número.
Mas, talvez por viver num continente onde a maior parte dos comboios não têm nome, são TGV’s e EUROSTAR’s, são INTERCIDADES 1, 2 ou 3... adoro quando chego a uma plataforma indiana e vejo nomes em vez de números: Grand Trunk Express, Darjeeling Mail, Shiv Ganga Express... todos os comboios do país com o maior sistema ferroviário do mundo, mesmo que façam um percurso semelhante têm um nome! E isso passa-me um feeling de familiaridade.

... mas isto de andar num comboio com nome transformou-se num privilégio... é que nos outros sítios, parece que eles se transformaram em comboios de luxo... até o nosso, o melhor amigo dos interrailers portugueses, o Sud Express... (!!)

8 de fevereiro de 2012

degraus

Mas quem é que pode gostar da Índia?

Para nós, Varanasi está muito longe de tudo o que encontramos nos sítios que chamamos de “casa”. Está no lado oposto. 
Mas isso não quer dizer que tenha sido um alívio entrar no Chaurichaura Express em direcção a Gorakhpur e ao Nepal. 
Antes pelo contrário. Deixo Varanasi com um nó na garganta. Neste caso, deixar Varanasi significa também deixar a Índia e o seu mundo, aos nossos olhos, primitivo.

Dizem-me “é muito fácil dizer que se gosta da Índia quando a quantidade de tempo que lá se esteve se mede em dias, em vez de meses”. Talvez.
Dizem-me que “é cool” dizer que se gosta da Índia, que se sobreviveu! Que só por isso é que é possível existir tanta gente a dizer que gosta. Porque na realidade só pode ser impossível gostar desta balbúrdia toda.

Mas o que eu digo – e perdoem-me o cliché – é que só é possível gostar se se olhar para além do que está à superfície. Quanto ao resto, é a teoria do surfista que é enrolado na onda: não tentar combater o que não é combatível. Simples.
Só se pode gostar depois de interiorizada a máxima do haja o que houver, é tudo ganho!
Percebi que a oportunidade de estar num universo tão desigual é 100% win-win. E para isso, abraçar o caos é muito mais libertador que tentar percebê-lo. É que nem vale a pena ficar chateado quando somos abalroados na rua por um ciclista ou quando insistem em tentar engraxar-nos os sapatos mesmo que naquele dia tenhamos calçado havaianas.

Ou seja, se o que se pretende é relaxar de pés na areia e caipirinha na mão, zero de confusões e muita gente sorridente o melhor é ir para outro lado.

À chegada vinha ressacada por um bocado de boa vida, e há tanta no Mediterrâneo ou ali ao lado no Sudeste Asiático. Ressacada por um bocado de organização, como a nossa europeia ou como a do Japão, milimétrica... Mas não posso deixar de pensar que se lá estivesse em vez de na Índia iria sentir falta daquele je ne sais quois que me deixa literalmente o coração a palpitar...

e não sou a única.

2 de fevereiro de 2012

Shivalinga

Varanasi é a cidade de Shiva, o deus da destruição, ou como alguns preferem, da transformação.
Tenho que dizer que considero o panteão hindu muito complicado. Saber o nome de alguns deles e o que significam é fácil, pelo menos na teoria, mas reconhecê-los nas suas muitas representações é uma missão no mínimo ambiciosa.


Esta viagem representa o encontro entre duas mega-religiões, o hinduísmo e o budismo, uma Shiva meets Budha trip. E em Varanasi, encontramos Shiva. Esta é a sua cidade.
Aliás, encontramo-lo em toda a parte sob variadas formas.
A mais usual é a lingam, o símbolo fálico de Shiva, a pedra preta que representa o poder criador e a energia masculina que existia no momento em que foi gerado o universo. A lingam é representada sobre uma base arredondada a que se chama yoni e que representa o lado feminino da criação.



Outro símbolo de Shiva é o touro branco, chamado Nandi, o seu veículo e mais fiel servo. Normalmente aparece deitado à frente dos templos dedicados a Shiva e simboliza agressividade e força.

Na realidade Shiva é o deus, de aparência humana, mais fácil de identificar. Está muito ligado ao Rio Ganges, que se diz brotar da sua cabeça, normalmente apresenta-se com um tridente na mão, uma cobra ao pescoço, ou no meio de fogo. O fogo é o elemento da transformação e está sempre presente nos momentos de puja (devoção) em toda a cidade, e claro, nas cremações.




Em Varanasi vemos muitos sahdus, homens santos praticamente despidos ou enrolados em trapos de cores fortes, de cabelo enriçado e atado sobre a cabeça. Muitos deles são seguidores de Shiva.
Passam os seus dias em contemplação meditativa sobre o Ganges, fumando hashish ou pedindo esmola em troca de orações, de boa sorte... e de fotos.


Quando tentamos visitar o Golden Temple de Varanasi, o Kashi Vishwanath, um dos templos dedicados a Shiva mais sagrados do hinduísmo e da Índia, somos proibidos de entrar por não sermos hindus.
Imagino que o mais correcto de se fazer seria ter compreendido, respeitado e encaixado que o mais provável era de qualquer maneira não sermos capazes de entender nada do que se passa no interior desse templo.
Mas já me estava a chatear esta questão dos “infiéis” não poderem mostrar o seu respeito por outros credos na Índia, ainda mais depois de termos entrado em tantos templos no Rajastão incluindo o templo de Brahma em Pushkar... Por isso resolvi comentar com o proibidor que se estivéssemos em Portugal a ele não lhe seria vedada a entrada em nenhum dos nossos locais sagrados.
Bem sei que estava a pedir um “então volta prá tua terra” mas não foi isso que aconteceu. Lá nos permitiu entrar após registo dos nossos passaportes, uma revista exaustiva e absoluta proibição de levar qualquer objecto para o interior (incluindo documentos e dinheiro).

E se valeu a pena? 
Vi algo que nunca tinha visto antes. Uma multidão em transe religioso, um frenesim para avistar e estar perante um dos 12 Jyotirlingas, um dos 12 locais onde Shiva se terá manifestado sob a forma de uma coluna de fogo.
Os devotos de pés descalços, mãos e testa pintadas de vermelho vão entoando cânticos enquanto esperam pacientemente para poder tocar na lingam, a pedra preta arredondada que repousa num recipiente dourado. 

Reparo que não sei como agir, onde hei-de colocar as flores e velas, se hei-de benzer-me, se estarei mal vestida... sou verdadeiramente uma estranha. Decido fazer como eles e encosto-me à mulher da frente enquanto espero pela minha vez. 
Sinto o mármore frio e húmido por baixo dos pés, ouço o tilintar das pulseiras da mulher à minha frente, cheira a suor e a flores esmagadas, os indianos fazem as suas oferendas de flores, arroz, incenso e pó colorido... 
E de repente abre-se um espaço e sou empurrada para tocar na lingam enquanto os sacerdotes derramam um leite gorduroso sobre a pedra preta e nas minhas mãos...

...

27 de janeiro de 2012

obstáculos de *m&rda*

Não há outra maneira de dizer isto: as ruas de Varanasi estão cheias de *m&rda*!

*M&rda* de vaca, *m&rda* de macaco, *m&rda* de cão... e *m&rda* de gente suponho que também...
De tal modo que ao calçar-me de manhã não posso deixar de pensar se não será melhor calçar as botas de montanha em vez dos habituais flip-flops tipo havaianas quando as temperaturas rondam os 30ºC.
Só para estar mais “segura”.

Porque nas ruas estreitas da Old Town é muito, mas mesmo muito difícil para uma pessoa que vai a ver as vistas não pôr o pé onde não deve.
Ou porque as ruas são tão estreitas e tão cheias de gente, animais e lixo, que não conseguimos ver o chão.
Ou porque quem chega aqui pela primeira vez e não conhece, anda naturalmente com aquele ar que totó que não sabe para onde vai, a olhar para as lojas, para os templos e para as pessoas, enfim, para cada detalhe estranho que salta à vista... e são tantos. 
Andar de havaianas nas ruas de Varanasi é abusar da sorte, conscientemente.


O que descobri depois é que estes obstáculos de *m&rda* dão emprego a muita gente, que os colectam, dão forma de bolacha gigante, tomam conta enquanto seca e depois vendem como combustível, pois ao resultarem de animais herbívoros, são riquíssimos em erva seca e palha... óptimos para atear uma fogueira.


Mas estes obstáculos mal cheirosos e estáticos no chão, não são os únicos.
Também é necessário ir com atenção aos obstáculos em movimento, esses ainda mais perigosos: as vacas de chifres afiados que passam às manadas a serem espicaçadas pelos seus “pastores”, as motas e bicicletas que fazem rasantes repentinas e impiedosas, os porcos agressivos, os cães comichosos deitados em cada cruzamento e ainda os macacos gozões que fazem xixi dos telhados...
As ruas de Varanasi são um campo de batalha.

É mesmo assim.
Quando não se conhece anda-se como se não se soubesse para onde se vai. É-se um sitting duck em velocidade de cruzeiro.
Mas estas não são ruas para se andar em velocidade de cruzeiro, por isso anseio pelo dia em que poderei andar por aqui sabendo exactamente para onde vou. 

É só isso que falta. A capacidade de andar de havaianas felizmente dominei.

24 de janeiro de 2012

indianos



“Os indianos são um povo peculiar.
Parecem valorizar toda e qualquer forma de vida,
menos a vida humana.”
- Mark Twain

23 de janeiro de 2012

sítio de passagem

Varanasi mantém as suas práticas religiosas desde há muitos séculos, fora das actividades histórico–políticas do país e é o centro do universo hindu que se estende por todo o subcontinente indiano desde Cashmira no Norte a Kerala no Sul.

Os hindus acreditam que Varanasi foi fundada por Shiva, o deus da transformação.
O desejo mais profundo de cada hindu é visitar Varanasi pelo menos uma vez na vida, mergulhar nas águas sagradas do Ganges como forma de absolvição dos pecados e se possível morrer aqui numa idade avançada, pois quem morrer nesta cidade nas margens do Ganges tem garantida a passagem para o Nirvana sem novo ciclo de reencarnação: o ciclo quebra-se, a alma salva-se, os pecados limpam-se. 

No Marnitakanika Ghat, vemos cremações ao vivo. Aqui os de casta mais baixa, os "intocáveis", tratam dos mortos e protegem o fogo eterno sagrado (ateado pelo próprio Shiva) usado para acender o fogo das piras de cremação. Também fazem contas aos quilos de madeira necessários para queimar determinado corpo. As cinzas são atiradas ao Ganges.
Ninguém chora junto dos corpos em chamas.

Quem não tem dinheiro para comprar a lenha necessária para queimar o seu familiar, atira simplesmente o corpo ao rio.
Há muitos idosos e viúvas que procuram refúgio na cidade esperando passar aqui os últimos dias da sua vida...




Para um ocidental o mais marcante nesta cidade é a proximidade da morte.
Em Varanasi a morte está presente em todo o lado, tal como a vida, a luz e o sagrado, tal como o podre e os cães a roerem ossos.
Mas para os hindus, a morte não é o fim, é apenas outro começo e Varanasi é um sítio de passagem.

Ghats

A “frente ribeirinha” da grande cidade hindu antigamente conhecida por Benares é dominada pelos intermináveis lanços de escadas dos ghats onde milhares de peregrinos e residentes vêm fazer os seus mergulhos sagrados diários.
São 7 km de degraus ao longo do rio, um total de 84 ghats, cada um com o seu significado. 








Um passeio por aqui, fora das monções, é a melhor maneira de absorver a cidade.
Naturalmente somos constantemente bombardeados com meninas a vender postais, barqueiros, sahdus a pedir “donation”... mas para dizer a verdade nem os "vejo".

Varanasi é um carrossel de cores que nos passa pela frente dos olhos e nos apanha desprevenidos.

19 de janeiro de 2012

Kashi, a Luminosa

É com o Sol a nascer que pomos os olhos no Rio Ganges pela primeira vez.
É o timing perfeito...

Percebemos porque Varanasi também é conhecida por Kashi, a Luminosa.

16 de janeiro de 2012

Poorva Express

Às 16h20 parte o Poorva Express em direcção a Howrah.
Está previsto chegar a Varanasi às 06h00... mesmo a tempo do nascer do Sol.

Há muitas classes nos comboios indianos e as condições variam do ar condicionado com mais ou menos privacidade, com cortina ou sem cortina, com lençol ou sem lençol, com 2 ou 3 beliches, com ventoinha ou sem ventoinha, sentado, deitado, por aí fora.
Comprámos os bilhetes no cleartrip.com, um site indiano tão fácil quanto eficaz, mas o melhor que conseguimos -mesmo com 2 semanas de antecedência- foram 2 bilhetes confirmados em Sleeper, a classe mais baixa das carruagens com beliche.
Diga-se de passagem que 2 semanas não é nada. O sistema de reservas de um comboio de longo curso na Índia abre 90 dias antes do dia da viagem.


 


A espera na estação é sempre um tempo que gosto de gastar.
Não há momento que me sinta mais eu do que aqueles que passo sentada em cima da minha mochila numa plataforma ferroviária, observando as pessoas passarem, enquanto espero que um comboio me leve para outra paragem... se bem que na Índia quaisquer planos voyeristas saem furados pois são as pessoas que ao passar param a olhar para nós.

Quando o Poorva Express chega ao apeadeiro os passageiros vão ocupando os seus lugares.
Ao nosso lado sentam-se 3 estrageiros e 3 indianos. Mas mais indianos continuam a chegar e a sentar nos bancos. Primeiro 3, depois 5... depois as suas malas, sacos, caixas e caixotes... não paravam de chegar indianos para se sentarem nos nossos bancos....
Estranhamos... mas não há que estranhar. Estamos na !ncredible India por isso no lugar de 3 cabem 5 ou 6.

Na realidade o sistema de reservas dos comboios indianos é muito claro: no momento em que se compra o bilhete ele pode ter 3 status: CNF (confirmado), RAC (reservation against cancellation, quando num comboios, mesmo depois de cheio, ainda existem uns quantos beliches vendidos em overbooking onde se viaja partilhando o lugar com outra pessoa) e WL (waiting list).
Não é possível viajar com um bilhete com status WL, mas se alguém desistir da viagem é possível que o bilhete WL sofra um upgrade para RAC ou até CNF. No momento de embarcar é afixado um quadro com os nomes das pessoas, o status do seu bilhete e o seu lugar respectivo.
Também estão afixados os WL que não sofreram upgrade e cujos passageiros não poderão embarcar mas poderão ser reembolsados do valor do bilhete.

Era necessário fazer esta introdução antes de dizer que havia 600 pessoas em WL na classe Sleeper deste comboio. Claro que na !ncredible India estar em WL não interessa nada. E assim,  a nossa viagem de Delhi para Varanasi começou com uma percentagem de ocupação de lugares de 200%.

Deixamos Delhi. Os subúrbios são intermináveis.
O tempo vai passando... o comboio vai-nos embalando... mas acordamos sempre repentinamente quando passa o rapaz do chai gritando “TCHAI! TCHAI! TCHAI!”.
Das primeiras vezes recusamos timidamente, respondendo ao rapaz “no thank you”... 
Só penso “será que a água foi fervida?”... “será que os copos de plástico são reutilizados?”...  “qual será o tempo de incubação do virus da hepatite A?”... etc... 
Mas à quarta vez aceitamos alegremente o chai açucarado e ligeiramente leitoso..."que se lixe"
Nas horas de jantar, são os rapazes do biryani que passam nas carruagens. O biryani é o prato de arroz nacional: frito com vegetais, com um copinho de iogurte curdo para misturar... delicioso! São 50 cent. Comemos vários biryanis ao longo da noite. 
Não se passa fome nos comboios indianos.

Os indianos “a mais” (em WL) iam sorrindo comprometidos ao mesmo tempo que continuavam a tentar arrumar os seus pertences no espaço vago que ia surgindo. Trocavam risinhos e iam fazendo perguntas sobre nós para criar proximidade... Ia ser uma noite longa.
Quando o revisor chegou notamos o tom de discussão, mas ninguém foi expulso do comboio... e lá continuaram trocando risinhos...

... risinhos que eventualmente desapareceram com o avançar da noite quando as pessoas que efectivamente tinha lugar marcado decidiram uma após outra que estava na hora de dormir e começaram a montar os beliches.



Os indianos “a mais” acabaram por se ajeitar dormindo sentados à vez, nos bancos aos pés dos passageiros dos beliches inferiores, mas por fim acabaram todos por deitar-se no chão... uma visão nada compatível com aquilo que estamos habituados. Principalmente se no mesmo chão estiverem também espalhadas cascas de amendoíns, cascas de laranja, invólucros da prata dos byrianis, os copinhos do chai... e também, dois ratinhos a perseguirem-se um ao outro.
Também sabem que não se passa fome nos comboios indianos.

Costuma dizer-se que quem não andou num comboio indiano não viajou realmente na Índia.
Concordo. Esta é uma das verdadeiras experiências indianas.
Mas para uma “extreme indian railway experience” eu acrescentar-lhe-ia 2 palavras: “em Sleeper”.

Chegamos a Varanasi às 06h30...
Verifico várias vezes o interior das minhas botas antes de calçá-las... Ponho a mochila às costas e dirijo-me para a porta de saída porque na Índia é costume entrar primeiro e deixar sair depois...
Estamos a viajar e a dormir mal desde que saímos de Lisboa há 2 dias e meio, por isso não consegui ainda realizar que, finalmente, 6 anos depois, cheguei à cidade sagrada de Varanasi... (!!)

Tenho tanta sede que só penso numa coisa: onde raio anda o rapaz do chai??

saída de emergência

Qutb Minar

O Sultão Qutubuddin Aibak começou a construção da torre de Qutb Minar em 1199.
Era uma torre para celebrar vitórias inspirada no Minarete de Jam que existe no Afeganistão.
Com os seus 72.5m de altura, mesmo depois de ter sido destruída por relâmpagos por 2 vezes, é ainda hoje uma das maiores, senão a maior torre de pedra do mundo, um dos mais antigos e mais proeminentes exemplos de arquitectura indo-islâmica, património da UNESCO e um dos ex-libris mais importantes de Delhi.



Foi construída com arenito vermelho e está profusamente decorada com versos do Corão, sagrado para os muçulmanos, que governavam esta zona da Índia nessa altura. 



Outro dos records que este complexo arqueológico também deve bater é o de maior número de visitas de estudo por dia...
Quando chegamos ao Qutb Minar verificamos que está pejado de estudantes dos colégios de Delhi com os seus uniformes condizentes.




Adoram meter-se connosco e estão sempre prontos para tirar fotografias, principalmente elas!!

11 de janeiro de 2012

Paharganj

Chegamos a Delhi sem mapa. Sem nada.
Eu devia achar que por já lá ter estado saberia orientar-me… Mas a verdade é que da outra vez vimos pouco mais que a porta de saída do hotel. Aliás, da outra vez tivemos medo de sair por essa porta, tal a confusão e estranheza que a cidade nos provocou, os olhares fixos intimidadores e o grande risco de atropelamento!


Felizmente está tudo igual, mas desta vez saimos pela porta sem medos. É verdade que a Índia choca e não desilude quem chega procurando um pouco de caos.
Encontramo-lo logo ao primeiro pestanejar: os vários montes de lixo para onde temos que deitar os nossos boarding passes usados pois não há caixotes do lixo em lado nenhum, a quantidade absurda de gente prostrada na rua, a fumar, a pedir esmola, a comer e a dormir com moscas, o cheiro de comida a ser feita ali perto nuns degraus, as paredes duvidosamente escurecidas que servem de urinol público e só nos apercebemos delas quando as cheiramos e depois já é tarde demais para nos afastarmos.

Paharganj não é um sítio bonito mas é o bairro perfeito para nos sedearmos em Delhi porque é “perto” de tudo: da estação de comboios, do metro, da parte velha da cidade, de Conaught Place. Perto como em “distância possível de percorrer a pé”, pois não há nada nesta cidade verdadeiramente perto de nada.

Tínhamos até às 16h20 para aproveitar Delhi… mas eu não me dignei nem a refrescar a memória com umas fotocópias rápidas do Rough Guide de 2005, nem a uma ida rápida à Internet procurar nomes para ter na ponta da língua na hora de apanhar o rickshaw para algum lado. Não fizemos nada disso.

Decidimos deambular, pelo que depois percebemos ser Chawry Bazaar, até entrarmos no metro e estudar o mapa da rede.
Aqui, heis que finalmente reconheço o nome de uma estação: Qutab Minar. 
É para lá que vamos.

O metro vem apinhado de homens suados colados uns aos outros. 
Por isso agradeço os autocolantes cor de rosa no chão que indicam a zona de paragem para carruagens “Only Woman”. 

Arakashan Road


No bairro de Paharganj, é impossível não encontrar um hotel.
Principalmente daqueles com os seus halls bonitos e retro, cujos quartos encardidos não tem janelas...

9 de janeiro de 2012

Espicaçar ‘o bicho’

Quando penso em ‘viagens’ penso, entre outras coisas, em itinerário, em ponto de partida e ponto de chegada, em movimento, em liberdade e especialmente em desorganização.
Não penso em trocar o conforto da minha casinha por um hotel do outro lado do mundo e simplesmente... ficar lá a apanhar Sol e beber margaritas.
Não me interpretem mal. Isso é óptimo. Mas não é ‘viajar’.

O objectivo não é chegar rapidamente do ponto A ao ponto B e ficar lá. O objectivo é 'a viagem', o percurso. Quando chego ao ponto B, infelizmente quer dizer que está na hora de voltar para casa.

Porque ‘a viagem’ -para os que de nós não têm a coragem de viver o extreme lifestyle dos nómadas- é a benção da experiência de desorganização de vida momentânea, em que por alguns momentos tudo deixa de ser previsível: os horários, os transportes, as comidas, as pessoas.
A vida organizada dá-nos a sensação de estabilidade necessária para construir algo.  Isso é bom. Mas óptimo é poder sair, experimentar o caos, espicaçar o bicho e depois voltar. Dar o valor.
Numa ‘viagem’, nunca sei se vou dormir num sítio confortável, se vou encontrar pessoas simpáticas, se o meu corpo considerará a comida saudável, se vou apanhar o transporte certo à hora certa... Provavelmente sim... mas talvez não.
Na verdade a maior parte da ‘viagem’ é confusão, banhos frios, muito tempo à espera, pessoas chatas, inconvenientes idas à casa de banho e sítios que ficaram para depois... É num desses sítios que começa esta viagem...

Quando mais caótico o destino melhor. Por isso é que adoro a Índia.
As suas cores, comida deliciosa, monumentos fenomenais e interessante cultura ancestral, são um extra.
O que mais adoro na Índia é o caos.

8 de janeiro de 2012

outra Delhi... e organizada?

Um dia volto à Índia, o país onde quero voltar desde que de lá regressei.
01-12-2011 foi o dia.

Depois da correria normal de aeroporto em aeroporto, chegamos finalmente ao de Delhi.
E a minha teoria do "nunca nada será igual" levanta vôo... 
Mas automaticamente! 
Não reconheço nada
É tudo moderno e aparentemente asséptico e faz-me crer que cheguei a um sítio diferente de há 6 anos. Onde estão as centenas de rostos suados que se amontoavam no corredor, com tabuletas na mão exibindo nomes estrangeiros mal escritos? Onde estão os taxistas a guerrear pela corrida até ao centro que não nos deixam dar 2 passos seguidos depois de sairmos dos portões do aeroporto? Não vemos nada disto. Agora é tudo organizado com setas coloridas a indicar zonas de espera e zonas de pick up de passageiros, zona de taxis, zona de autocarros e até interface com uma express line de metro até ao centro... quê? 
Qual aeroporto internacional europeu.

Depois não reconheço o clima. Chegamos noutra altura do ano e o mês de Dezembro transformou a Índia que nos recebe numa Índia fria. É verdade, o mês de Dezembro costuma fazer destas coisas neste hemisfério, até na Índia... pelo menos às 02h00...
Saio para a rua e sinto o smog. Sinto e cheiro. E por incrível que pareça esta também é uma diferença que noto da outra Índia que conheci com o seu céu limpo e descarregado típico do tempo que se segue às monções. Bem sei que nessa altura tive sorte. Pois este é o céu de Delhi, carregado de poluição, num misto de pó e fumo que se vê mesmo de noite e não nos deixa respirar de pulmão cheio.

Não vejo os vultos das vacas à procura de comida no lixo. Onde estão as vacas de Delhi? Percebo mais tarde que conseguiram finalmente retirá-las das ruas da cidade por causa dos problemas que causavam no trânsito.
Pergunto-me: será que Delhi se transformou numa cidade organizada? Estará tudo assim tão diferente... do tipo tão diferente que não vou gostar??

Disparate. É bem verdade que as miúdas pensam demais...
Basta entrar no taxi... e é o caos.
Trânsito compacto às 02h00, apitos contínuos, ultrapassagens surreais, semáforos vermelhos ignorados, traços contínuos ignorados....

Delhi! É bom saber que também há coisas que nunca mudam.  

6 de janeiro de 2012

SHIVA meets BUDHA itinerary

1 - 1/DEZ qui
Vôo. Lisboa (07h30) - Londres (10h10)
Vôo. Londres (11h45) – Delhi (01h25)
Hotel. Chanchal Continental

2 - 2/DEZ sex
Delhi. breakfast + Nuchita
Old Delhi.
Train. Delhi (16h20) - Varanasi (05h15)
Noite no comboio

3 - 3/DEZ sab
Varanasi. Ganga Ghat walk
Vishwanath temple.
Hotel. Palace On Steps

4 - 4/DEZ dom
Varanasi. Sunrise boat ghat.
Sanskrit University. Durga temple,
Train. Varanasi (00h40) – Gorakpur (06h50)
Noite no comboio

5 - 5/DEZ seg
Bus. Gorakpur – Sonauli (3h)
Border. India – Nepal
Bus. Sonauli – Sauraha (5h)
Hotel. Travellers Jungle Camp

6 - 6/DEZ ter
Sauraha. Elephant bathtime.
Chitwan Park. Elephant ride + Canoe
Elephant breeding center.
Hotel. Travellers Jungle Camp
  
7 - 7/DEZ qua 
Bike. Tharu Villages
Hotel. Travellers Jungle Camp
 
8 - 8/DEZ qui
Bus. Sauraha – Pokhara (6h)
Pokhara.
Hotel. Little Tibetan Guest House
 
9 - 9/DEZ sex
Vôo. Pokhara – Jomsom
Jeep. Jomsom – Muktinah
Trek. Muktinah – Jharkot - Kagbeni
Hotel. Nilgiri View

10 - 10/DEZ sab
Kali Gandaki
Trek. Kagbeni – Jomsom – Marpha
Jeep. Marpha – Ghasa
Hotel. Eagle’s Nest.

11 - 11/DEZ dom
Kali Gandaki
Trek. Ghasa – Dana - Tatopani
Jeep. Tatopani - Beni
Noite em Beni

12 - 12/DEZ seg
Bus. Beni – Pokhara
Pokhara Lake. Relax.
Hotel. Little Tibetan Guest House

13 - 13/DEZ ter
Bus. Pokhara – Kathmandu (6h)
Kathmandu. Durbar Square.
Thamel.
Hotel. Ganesh Himal

14 - 14/DEZ qua
Kathmandu.
Boudha. Pashupatinath.
Thamel.
Hotel. Ganesh Himal

15 - 15/DEZ qui
Patan.
Hotel. Ganesh Himal

16 - 16/DEZ sex
Vôo. Kathmandu (11h40) - Delhi (13h15)
Old Delhi Fort + Bazaar
Hotel. Chanchal Continental

17 - 17/DEZ sab
Vôo. Delhi (12h30) - Londres (16h30)
Vôo. Londres (19h40) – Lisboa (22h20)