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5 de abril de 2012

Jharkot

 




O caminho de Muktinath (3800m) para Jharkot (3500m) é uma tranquila e panorâmica descida que dura perto de 1h30.
Jharkot é uma vila que fica empoleirada numa colina e se à primeira vista parece um local abandonado, quando nos aproximamos apercebemo-nos que vive aqui gente, trabalham os campos, até há hotéis, restaurantes e a tradicional gompa vermelha (mosteiro).


4 de abril de 2012

On top of the world


Os Himalaias são o topo do mundo.
Paro um minuto a olhar a paisagem estupefacta com os “wide open spaces”.
Parece que entrei num mundo paralelo. Já me é difícil acreditar que apenas há 5 dias estive numa cidade indiana, húmida, de céu turvo onde se respirava fuligem saída de piras de cremação.
Aqui o ar é limpo, fino, frio. E o céu é azul e brilhante.

Muktinath

Muktinath é um local sagrado tanto para Hindus como para Budistas, e esta mistura, este melting pot é para mim o epítome da cultura nepalesa. Por isso, Muktinath é um local obrigatório.
O santuário está localizado a 3800m de altitude, no sopé da passagem de Thorung La (5500m), o local mais alto do popular trekking Circuito dos Annapurnas.

O templo principal de Muktinath é um dos locais mais antigos do culto ao deus Vishnu (deus da Preservação/ Salvação, Mukti=“Salvação”, Nath=“Deus”), que a par de Brahama (deus da Criação) e Shiva (deus da Destruição) faz parte da trindade divina mais sagrada do hinduísmo. Mas este não é um templo hindu. Este templo é partilhado por Hindus e Budistas. E os Budistas chamam-lhe Avalokitesvara, a representação máxima da compaixão no mundo.




No pátio do templo existem 108 fontes das quais brota água que os peregrinos acreditam ser sagrada e purificadora. Muitos tomam banhos na água gelada, outros enchem garrafas para levarem aos seus familiares que não puderam deslocar-se ao local.
É sagrado para os budistas pois acredita-se que o fundador do budismo tibetano Guru Rinpoche, terá parado aqui para meditar no seu caminho para o Tibete. 

Existem muitas stupas/chortens em Muktinath. Foram construídas para recordar pessoas desaparecidas.



Também existe neste santuário um templo exclusivamente hindu, dedicado a Shiva e à sua consorte Parvati. O único templo que não pode ser limpo pelas monjas budistas residentes.



Tenho que dizer que chegar a este templo foi uma das tarefas mais difíceis a que me propus nesta viagem. Mais cedo ou mais tarde, começamos a sentir os efeitos da altitude. O cansaço que sentimos é gigante, custa a respirar, o coração bate desenfreadamente, parece que vai explodir, subir meia dúzia de degraus é uma tarefa tão desgastante que é muito fácil pensar “não vou, não dou mais um passo, acabou... fico aqui”...



... mas isso seria um grande desperdício...
 
NOTA: ao longe o Dhaulagiri, a sétima montanha mais alta do mundo (8167m).

2 de abril de 2012

Em Jomsom

Todos os guias de viagens, agências de trekking e panfletos sobre caminhadas no Nepal fazem referência à "altitude sickness" e advertem os caminhantes a fazerem bastantes paragens para aclimatização à altitude.


O aeroporto de Jomsom está a 2736m de altitude.
E nós já conhecíamos a doença da montanha de que a maior parte das pessoas sofre a partir dos 2500m de altitude, principalmente se fizer esforço físico, por isso quando saímos do avião já íamos preparados para a dorzinha de cabeça, mesmo de aspirina tomada...
Mas Jomsom não é La Paz (4100m)... e não voámos do nível do mar. Por isso sentimo-nos bem. 

A partir daqui o plano é apanhar um jipe até Muktinath (3800m), diz que os há, visitar um dos mais importantes locais de peregrinação do mundo hindo-budista, começar o trekking em sentido descendente e pernoitar em Kagbeni (2900m), a última povoação antes da zona restrita de Upper Mustang.

Trekking world

O Nepal é atravessado de uma ponta à outra pela cordilheira dos Himalaias.
Mais de metade das montanhas mais altas do mundo (>8000m) estão localizadas dentro das suas fronteiras, ou precisamente na fronteira com países vizinhos, por isso o Nepal é verdadeiramente o país das montanhas.
E a melhor maneira de apreciar esta indomável natureza é fazendo um trekking. 

O Nepal também é conhecido por ser um dos países que oferecem as melhores condições para fazer trekking.
E há trekking para todos os gostos:
Trekkings fáceis, como os tea house trekkings em zonas de fácil acesso a partir de Pokhara ou do Kathmandu, que duram 2/3 dias em que as caminhadas se fazem ao ritmo de  passeio, sem grandes desníveis, com pernoita nas estalagens locais que providenciam dormida em camas com lençóis lavados, jantares tradicionais e banhos de água quente;
Trekkings em zonas remotas como a região de Upper Mustang, junto ao Tibete, em que é imperativo obter autorizações especiais, caríssimas, que por isso fazem desta uma experiência muito exclusiva;
Trekkings muito difíceis, como as expedições até ao Acampamento Base do Everest em que a logística é toda transportada para o local de partida de avião, em que se está sujeito a condições atmosféricas adversas, durante vários dias, com desníveis entre os 1000 e os 5500m, e em que o dia de regresso é tudo menos planeado.

Enfim, para aqueles que aqui chegam sem restrições de ordem financeira, física ou temporal o mais difícil é escolher.
Mas para os outros também.


Nós para variar não temos muito tempo, por isso escolhemos o vale do Kali Gandaki, na zona protegida dos Annapurnas. É das zonas de trekking mais desenvolvidas do Nepal, tem aldeias e populações estabelecidas ao longo do caminho o que é vantajoso, tendo em conta que Dezembro já não é época alta para os trekkings (e muitos lodges fecham nesta altura), não precisamos de contratar um “porter” porque existem sítios para comer e dormir a cada 2/3h de distância a pé, o acesso pode fazer-se por terra, a partir de Pokhara... e até já existe uma estrada -ainda que controversa- até Muktinath, o que permite a prática da batotice aos desprovidos de tempo ou condição física...


Dizem que a descer todos os santos ajudam, por isso, decidimos apanhar um voo super panorâmico até Jomsom –onde troquei uns olhares apaixonados com o Machhapuchhre- apanhar um jipe até Muktinath e daí começar a descer...

Devo dizer que isto não é nada recomendável por causa da diferença de altitude entre Pokhara (900m) e Muktinath (3800m)... o que significa uma ascensão de 2900m num dia, mas arriscámos.
Depois o corpinho é que paga.

20 de março de 2012

Cura para todos os males...

... ver o Machhapuchhre de debaixo da asa de um avião.
 


É difícil encontrar uma montanha no Nepal que nunca tenha sido escalada, mas ela existe: o Machhapuchhre, a icónica montanha mais conhecida por “Fish Tail” que domina o skyline na zona de Pokhara, dentro do santuário dos Annapurnnas.

Esta é uma montanha sagrada para os nepaleses pois está ligada a Shiva. Na única tentativa de escalada, nos anos 50, a equipa de alpinistas ficou a 50m do cume para não desrespeitar os costumes locais, mas desde então a sua escalada não é permitida.

Para mim, olhar para o Machhapuchhre “olhos nos olhos” foi um dos momentos para o resto da vida...

... que também poderá estar relacionado com avionetas que só levam 10 pessoas e são atiradas para um lado e para o outro, como se fossem de papel, nas correntes de ar que existem entre as montanhas.......

16 de março de 2012

15 de março de 2012

Aldeias Tharu

Apesar do Parque Nacional de Chitwan, ser o principal motivo para as pessoas se deslocarem a esta região do Nepal, é nesta zona que vive o grupo étnico indígena cujos elementos são considerados directos descendentes de Budha, os Tharu.

O povo Tharu são um povo do campo e da floresta que encontraram o seu meio de subsistência na agricultura. Isso tornou-os um povo único e distinto daqueles que vivem nas montanhas do Nepal.

Alugamos bicicletas e a partir de Sauraha atravessamos campos com plantações de mostarda, milho e arroz até chegar a estas aldeias tradicionais cheias de gente trabalhadora, sorridente e amigável.





9 de março de 2012

Rinocerontes no Chitwan National Park

O Parque Nacional de Chitwan está localizado na região do Terai, no sopé dos Himalaias numa das regiões mais férteis em flora e fauna do Nepal.
O Parque, que é património da Unesco, é conhecido por albergar populações da espécie protegida de rinocerontes de um só chifre. E alguns tigres da bengala também.
São os seus ilustres hóspedes.
Mas depois encontramos inúmeras espécies de aves, como o kingfisher (que dá nome à melhor cerveja indiana) de macacos, crocodilos, gazelas, javalis, e claro, elefantes asiáticos.

No Parque e na zona protegida junto a Sauraha organizam-se passeios de canoagem, safaris de elefante, e caminhadas guiadas na selva.
Foi o que fizemos.
Andámos numa canoa feita de um tronco de árvore escavado... que não foi uma experiência muito confortável... com a visão das margens do rio ocupadas por crocs a apanhar Sol...
Caminhámos na selva e andámos em busca de rinocerontes. Para isto, os elefantes são nossos melhores amigos, pois ao transportarem-nos, como cheiram “muito melhor” do que nós, também nos protegem das hipotéticas investidas dos rinocerontes.










Para mim, ver este animal ao vivo e à solta, foi um momento marcante. Um misto de adrenalina, respeito e medo. E não fui com certeza a única portuguesa a sentir-me assim.
Para além de todos os outros que já os viram por aqui, conta a história que em 1515 chegou à Europa o primeiro rinoceronte desde o tempo dos Romanos. E desembarcou em Lisboa, vindo da Índia, trazido por portugueses.
A notícia da chegada daquele animal mítico tão improvável e diferente correu toda a Europa que os mais variados artistas se apressaram a desenhá-lo, incluindo Albrecht Durer. E em Lisboa foi uma circunstância de tal modo extraordinária que os artesãos portugueses o utilizaram para decorar a Torre de Belém, na altura ainda em construção. 

Alguém 'o' consegue ver neste pormenor?


2 de março de 2012

Interregno religioso

A viagem de Varanasi para Sauraha é muito longa. Muitas pessoas quebram a viagem em Lumbini, no Nepal, a pouca distância da fronteira com a Índia. O que, diga-se de passagem, não nos teria ficado nada mal já que esta é uma “Shiva meets Budha” trip e já que Lumbini é um local de peregrinação por ser o sítio onde Budha nasceu.

Mas às vezes é preciso atalhar. E outras vezes é preciso pôr o frenesim religioso em pause.
Porque na realidade, apesar da relação com o divino ser uma das coisas que mais me fascinam nesta cultura e apesar de chegar a esta parte do Mundo vinda de Portugal, país do Sul da Europa maioritariamente católico, país de Fátima, e isso fazer com que entenda perfeitamente os meandros da devoção, o certo é que não estamos habituados a estes rituais diários, comoventes e praticamente medievais de adoração a um panteão tão alargado de deuses. O hinduísmo simplesmente não é contido, esterilizado ou sofrido. É uma religião com restos de comida a apodrecer nos altares, orgânica, decadente e visceral. E é assim todos os dias da semana. 
Tudo aquilo a que não estamos habituados.

Então ao sairmos da alçada de Shiva fazemos o nosso interregno religioso.
Mas nesta zona é impossível não continuarmos em contacto com algo superior... Pois ao nos aproximarmos do Chitwan National Park entramos nos domínios da Mãe Natureza, onde reinam os animais, a selva e o rio.

Chegamos a Sauraha ainda cedo mas já é noite cerrada pois a latitude não perdoa a quem viaja no  hemisfério Norte durante o mês de Dezembro.
Mas por outro lado, nesta altura do ano este é um local muito tranquilo, sempre com uma neblina enigmática a levantar-se do rio Rapti e os sons misteriosos e longínquos dos animais a pairar no ar.

27 de fevereiro de 2012

Welcome to Nepal

Há muitos viajantes que fazem o percurso Varanasi – Gorakhpur – Sonauli (Índia/Nepal) – Sauraha. A maioria aproveita para quebrar a viagem em Lumbini, no Nepal, a poucos quilómetros da fronteira, mas não foi o nosso caso. Com apenas 2 semanas para ir ali num instantinho ver o que se passa entre o Ganges e os Himalaias, atravessamos a fronteira de rajada em direcção ao Parque Nacional de Chitwan.


E eu adoro atravessar fronteiras.
Não só pela histeria do novo carimbo (sinceramente, ainda não viajei o suficiente para deixar de me alegrar com isto), mas também por causa daquela sensação que me dão as fronteiras: de ultrapassagem de obstáculo, de se ser aceite e muitas vezes bem-vindo, e principalmente – quando se trata de países nunca visitados – por ser aquele ponto a partir do qual tudo é ganho, por haver uma nova cultura e um mundo de estradas e caminhos nunca antes percorridos prontos para descobrir. 



Claro que metade destas sensações não conseguimos obtê-las na fronteira Índia-Nepal, pois na realidade, o Nepal é todo ele uma zona de fronteira entre o subcontinente Indiano e o planalto Tibetano para lá dos Himalaias.
Por isso, as diferenças imediatas são muito ténues.

Mas quando se sai da Índia para o Nepal, uma coisa é certa: Acabaram-se as tranquilas viagens de comboio. No Nepal, todas as viagens se fazem - no melhor dos casos - de autocarro. E isso acabou por tornar-se uma das mais marcantes experiências nepalesas.

16 de fevereiro de 2012

Chaurichaura Express


O Chaurichaura Express, para Gorakhpur, está previsto para as 00h30.
Mas como de costume chegamos à estação algum tempo antes.
A estação de Varanasi em dimensão é equivalente à nossa estação de Sta Apolónia.
O seu átrio está completamente cheio de gente deitada no chão em cima de folhas de papel plastificado, que vi a venderem à porta da estação. Outros deitam-se em cima de folhas de jornal. Essas são grátis. 
De vez em quando aparece um polícia com uma vara na mão e um apito que vai “espantando” as pessoas deitadas. Aparentemente não se pode dormir ali.
Mas quando ele sai, deitam-se todos novamente.

Assim que se aproxima a hora vamos até ao apeadeiro.
Começamos a ouvir anúncios em hindi e em inglês. O Chaurichaura Express vem atrasado. Primeiro 15 minutos, depois mais 15, depois ainda outros 15... e outros....

Tal como no átrio da estação e no pátio exterior, há centenas de pessoas a dormir no chão em cima de folhas de jornal. Não têm malas como nós e como os outros passageiros. Não estão atentos aos anúncios dos atrasos. Não estão de passagem. Esta estação é a casa deles e enquanto esperamos sentados em cima da mochila, eles dormem ao nosso lado sob a luz omnipresente que inunda o apeadeiro.



Quando a locomotiva do Chaurichaura Express entra na estação já passa da 1h30.
Como a hora já vai avançada e como mais uma vez só conseguimos bilhetes em Sleeper, eu vou preparada para o estendal de gente deitada no chão... Mas na nossa carruagem não se vê nada disso e até há lugares vazios.
Há uma pessoa a dormir no meu lugar. Mas ao contrário do que se passa noutros sítios, nomeadamente em Portugal, isso não quer dizer “tivesses chegado mais cedo”...
Nunca vos aconteceu? Quando encontramos alguém sentado no nosso lugar e é um “vê se te avias” para conseguirmos provar que aquele é mesmo o nosso lugar? Quando é sempre necessário acenar com o bilhete de comboio com o lugar marcado, mas em resposta obtemos vários comentários do tipo "esta juventude está perdida, já nem cedem o lugar aos mais velhos" ou "como já me sentei não me volto a levantar"? E acabamos por nos sentar no lugar vago que pertence a outra pessoa que entra na estação seguinte... e por aí em diante? E ai de quem contrarie, pois o “respeitinho pelos mais velhos é bom e eu gosto”?
Pois na Índia se alguém está sentado num lugar que não é o seu, quando chega o respectivo passageiro, levanta-se automaticamente. Sim, é verdade. Independentemente de já ser tarde e já estar a dormir, de ser um idoso ou uma mulher a dar de mamar. O lugar não é deles, por isso vão procurar outro. Sem chantagens emocionais.

A noite no comboio é tranquila e curta.
Acordamos de madrugada com os campos junto de Gorakhpur invadidos por uma neblina matinal espessa.
O rapaz do beliche do lado mete conversa. É programador de software. Quer ir viver para Londres. Pergunta o que sabemos sobre a Primavera Árabe e sobre os conflitos no Egipto. Diz que o maior problema da Índia é o excesso de população e sabe tudo sobre a crise económica Europeia. 
Está bem informado. 
Viaja com o pai, regressam a casa depois de um fim de semana em que foram conhecer a família de um pretendente para a sua irmã. Aqui é normal as famílias arranjarem os casamentos, mesmo as famílias de programadores de software bem informados. 
O pai observa à distância a nossa conversa e depois pede ao filho que nos faça uma pergunta. Quer saber se Portugal já aboliu a pena de morte. Respondemos.
"- Oh, que país moderno o vosso!" Comenta depois.