
“Quero que as culturas de todos os povos andem pela minha casa com o máximo de liberdade”
Mahatma Gandhi

Houve um dia em que tivemos a ideia peregrina de participar numa excursão para famílias indianas com uma guia indiana... éramos as mascotes alienadas que não entendiam uma palavra do que se dizia. Mas sempre deu para conhecer alguns templos hindus perto de Margao e principalmente a Velha Goa com os seus monumentos mandados construir por portugueses onde se incluía a Basílica de S. Francisco Xavier, onde repousa o corpo movedor_de_multidões já desmembrado do santo...
Aqui estamos sempre a tropeçar em vestígios portugueses, nomes de ruas, nomes de lojas, igrejas... tudo misturado com o coloridos dos templos a Ganesh, os colares de flores cor de laranja, os carros todos enfeitados, as vacas à solta na praia, os porquinhos a correr na relva, a chuva tropical e a humidade nas pastagens, as praias com palmeiras e barcos, as conchinhas brilhantes na areia, o sol a escaldar e a água fresca do mar.
Noutro dia andámos de motinha a percorrer as praias a norte de Candolim, onde ficámos hospedados: Calangute, Baga, Anjuna e a nossa preferida Vagator.

Goa é fácil de amar.
A segunda impressão foi a de que se tinha saído da Índia.
Goa só há 50 anos é que é território indiano e quando se fala de Goa a outros indianos eles olham para nós como se estivéssemos a falar de outro país. Goa é diferente. As pessoas parecem mais descontraídas, felizes e risonhas e desejosas de aproveitar as boas coisas da vida. Há quem diga que isso se deve à influência portuguesa no passado ao contrário do resto da Índia que teve influência britânica....
Parece mesmo que a única coisa que nos lembra que são indianos é aquela maneira de abanar a cabeça quando querem dizer que sim!

E reparámos noutra coisa. Reparámos em indianos a falar inglês entre si. É que apesar de viverem no mesmo país as pessoas do Sul não entendem a língua falada no Norte e vice-versa... nem sequer têm o mesmo alfabeto ( ! ) ... então falam em inglês, que toda a gente sabe!
Eu que já achava estranho falar-se inglês entre portugueses e espanhóis. Mas a Índia é muito maior e tem muito mais gente que Portugal e Espanha juntos.



Entrámos na estação... paredes sujas e gordurosas, lixo no chão, filas enormes em que os homens se encostavam uns aos outros para encurtá-las e claro, toda a gente a olhar. Pensámos “já temos bilhete ... estamos safos” ... Íamos só sentar e esperar... Mas até isso não foi muito fácil, porque mesmo numa estação apinhada de gente, 2 estrangeiros sobressaem como se estivessem a gritar “ESTAMOS AQUI!”.
As pessoas rodeavam-nos a pedir rupias e outras pessoas rodeavam essas pessoas para ver a nossa reacção. Assim que nos sentámos e pousámos as mochilas veio uma miúda com um bebé ranhoso ao colo pedir dinheiro e não desgrudava... tive a sensação que se desse alguma coisa o resto da estação me caía em cima. Tentei ignorá-la depois de dizer que não lhe ia dar nada mas ela começou a puxar-me a saia, estava praticamente em cima de mim, não me largava. Acho que os outros indianos que tinham parado para ver tiveram pena de mim porque depois de algum tempo começaram a enxotá-la. E ela foi.
Depois vieram os miúdos engraxadores... Mas eles queriam o quê? Engraxar havaianas?!!




Esta mulher aproximou-se. Era muito porca, tinha o sari roto, mascava tabaco e cuspia pró chão! (toda a gente cospe pró chão!!) Queria champô. Tentei trocá-lo pela pulseira que ela tinha no pé mas as negociações foram infrutíferas. Estava sempre a pedir coisas, era muito chata mas eu achei-lhe graça porque se ria muito. Entretanto lá se fartou de nós e foi lavar os pés num poço ali ao pé.
Mais tarde voltou. Era muito curiosa! Depois de alguns gestos, descobrimos que somos da mesma idade mas ela fez um ar de “os meus pêsames” quando eu disse que não era casada nem tinha filhos. Ela já tinha 4.
E depois posou vaidosa para esta foto.



No caminho para o forte encontrámos um rapaz que nos mostrou a sua - impressionante - colecção de notas de imensos países dos 4 cantos do mundo onde constava também uma nota de 100 escudos! E depois convidou-nos a jantar no restaurante dele que ficava num terraço 4 andares acima do nível da rua.
E nós aceitámos.

E de tecto e paredes estreladas adormeceu-se...
No outro dia, quando acordei de nariz frio e deitada numa cama no meio do deserto senti-me no meio de um daqueles filmes absurdos em que não se distingue a realidade do sonho.
No caminho para a longínqua Jaisalmer o horizonte foi-se amarelecendo e aplanando.
Esta é a última cidade indiana antes da fronteira sul com o Paquistão e está situada numa zona árida e poeirenta. As aldeias escasseiam cada vez mais. Desponta o deserto do THAR.
Jaisalmer é uma cidade dominada pelo seu forte, e apesar do calor é fantástico andar pelas ruas dentro das muralhas e perdermo-nos por lá, onde como em qualquer sítio, os velhotes descansam à sombra das árvores, as mulheres varrem o chão à porta de casa e conversam com as vizinhas.
É uma verdadeira cidadela medieval com os seus templos jainistas magníficos e a peculiar arquitectura dos HAVELIS que me deixou fascinada e de boca aberta.
