21 de junho de 2005
Vida de Deserto
Em pouco tempo tínhamos o acampamento levantado e iniciávamos a nossa caminhada. Andámos e andámos... debaixo de um sol escaldante...
No caminho passámos por um rebanho de cabras apascentadas por uma menina... Almoçámos num oásis - seco - e quando lá chegámos já o Mohamed tinha preparado para nós uma sombra onde descansámos o corpo.....
O ALMOÇO era uma salada enorme e incrivelmente fresca com massa, tomate, pepino, cebola, atum, sardinha, queijo... e depois melão, adorámos. A menina pastora juntou-se a nós, ofereceu-nos a sua companhia e nós oferecemos-lhe o almoço.
Depois de descansarmos mais um pouco partimos novamente, com o Mohamed a cantar para nós e para os camelos, descendo o rio seco que passava no oásis. Bem fácil ter miragens da água a correr... Estamos numa zona de montanha, pedregosa, por vezes encontram-se rebanhos de cabras e construções circulares de pedra aparelhada que indicam a presença de nómadas.
Passámos por uma família que nos acenou ao longe. De lá saiu um miúdo pequeno a correr de pés descalços e sujos nos pedregulhos... primeiro pensámos que vinha pedir esmola... mas o Abdel traduziu “Ele está a convidar-vos para beber chá com a família”... .... .. Estamos bem longe daquilo que conhecemos... somos constantemente “humilhados” pela simpatia e vontade de acolher desta gente inexplicável.

Montámos acampamento num vale e rodeados de planaltos descansámos, contemplámos, rimos, conversámos, escrevemos, bebemos o chá. Falámos sobre a vida dos nómadas que é tão agreste e difícil. Sem residência fixa, vivem em tendas rodeadas por pedras, cuidam das suas cabras que são o seu sustento. Existem. Abdel falou-nos sobre a sua religião e a concepção de paraíso/inferno dos muçulmanos. De como têm 2 anjos sobre os seus ombros que vão anotando as boas e más acções a serem pesadas numa balança no dia do juízo final. Explicou que o cumprimento “Salamalekoum” – “Que a paz esteja convosco” está no plural porque para além da pessoa também se cumprimentam os anjos. Falámos dos vários dialectos berberes que se falam em Marrocos e da relação entre homem e as suas (possíveis) 4 mulheres. Aqui entrámos num intransigente desacordo.... ehehe.
Mohamed, o guia de camelos, é uma pessoa muito interessante, simpatizámos logo com ele apesar de termos trocado apenas algumas palavras soltas em francês. É um antigo pastor de camelos, sempre de sorriso rasgado quer no sol abrasador, quer na tempestade de areia, quer à hora do jantar. Está sempre a cantar, responde a tudo com um “merci madame”, faz questão de soltar os camelos sempre que fazemos uma paragem mais prolongada para andarem à vontade e procurarem alimento. Depois tem que ir à procura deles para os trazer de volta. Dorme na rua com os camelos em vez de se abrigar dentro da tenda grande, coabita com todos os bichinhos e baratinhas do deserto não faz como os restantes que as afastamos assim que chegam a 10 cm. Quando jantamos é incrível a maneira como se dobra todo sobre si próprio ocupando menos espaço que nós, os mais pequenos que ele. “Tix! Tix!” – “Mange bien, Marche bien!” Insiste ele, para comermos mais, mesmo depois de termos repetido 2 vezes!
(Agora aqui um parêntesis para sublinhar a derrota estrondosa daquele que era o nosso maior receio ao iniciar esta viagem. Sermos 2 mulheres sozinhas no deserto. Isso não seria nunca um motivo de desistência mas foi-o de alguma apreensão. TRETAS. O pessoal que nos acompanhou foi sempre 5 estrelas e a sua preocupação era no sentido de nos sentirmos bem e principalmente tivéssemos umas boas férias. Não sei o que tinha na cabeça.)
Para o JANTAR cozinha-se Cous-cous ou Tajine com legumes. Entramos todos para a tenda grande e sentamo-nos à volta das velas no tapete, descalços. As mulheres têm que servir os homens, tradição. Há sempre a Harira, a sopa espessa marroquina de sabor muito apurado e super deliciosa... repetimos sempre 2 ou 3x por gulodice...
Viagem
Tratámos de esclarecer – sempre em francês - a história das “gazelles!” com o Mohamed (o nosso fantástico condutor) e a dos banhos nos riachos de água límpida que segundo o nosso guia, Abdel, só existem nos desertos do Ali Babá...
Depois de uma viagem longa e atribulada mas muito divertida, chegámos ao local do nosso acampamento... montámos as tendas e adormecemos estafadíssimas a olhar para um firmamento extraordinariamente estrelado. A aquecer a nossa memória estava a imagem do céu vermelho da viagem pelas montanhas.... acordámos 1h depois com barulhos estranhos... passadas largas... balidos desconcertantes... chegavam os camelos.
Os Souks
O objectivo era ambientarmo-nos e vermos possíveis itens a serem adquiridos noutro dia...
Falidas mas felizes, abandonamos o labirinto para nos depararmos com o arraial que é montado todas as noites na praça. Um caos organizado e numerado (!) de mesas e bancas a servir as melhores iguarias e pitéus marroquinos. Uma mistura de fumos e luzes e gente a convidar-nos para o banquete...Tudo o que tínhamos lido sobre este local é verdade.
Marrakech
Chegadas à Praça JEMMA EL FNA compreendemos que tínhamos entrado noutra dimensão, noutra escala... é tudo enorme, é tudo longe. Entrámos na praça e só depois de quase termos sido atropeladas nos apercebemos que continuávamos no meio da estrada e de que não estávamos em zona pedonal.... Motas, motoretas, burros, bicicletas, caleches, homens empurrando toscos carrinhos de mão atravessam a praça indiscriminadamente e só nos apercebemos deles quando já estão mesmo em cima de nós.
Para além disso somos interpelados por uma pessoa diferente a cada segundo em que desviamos o olhar para qualquer outro local.... São os aguadeiros, senhores vestidos de vermelho e chapéu folclórico que perguntam se queremos água entregue em tijelinhas de latão, são meninas que querem à força fazer-nos tatuagens de henna de várias cores, são os vendedores de sumo de laranja nas suas bancas, são miúdos que se aproximam com cobras articuladas de madeira... são os piropos... “ah, les belles gazelles!” Nós entreolhamo-nos… GAZELAS?
E tudo isto é acompanhado pelo som de batucadas, tambores e pela música distante e hipnotizante dos pífaros... são os encantadores de serpentes. É uma praça enorme e inóspita sob o calor que faz. O que se passa nela é que é verdadeiramente interessante, não a sua beleza em si.





