21 de junho de 2005

Mhamid

De volta pelo Atlas

20 – Maio – 2005: Depois de um percurso curto a pé, chegámos a MHAMID e despedimo-nos do humilde Mohamed que se afastou sempre sorridente e festivo. Nós, calados, iniciámos a nossa viagem de regresso... e voltámos à confusão... tentar regatear parecia uma declaração de guerra... a música soava a algazarra endiabrada e desconexa.

Na viagem de volta a Marrakech atravessámos o VALE DO DRAA... lindíssimo... viam-se mulheres de véus cor de rosa a trabalhar nos campos verdes, autênticos quadros vivos. Passámos por aldeias com as suas casas feitas de terra. Se chover as construções degradam-se e muitas parecem castelos de areia já lavados pelas ondas... No entanto, as torres das mesquitas destacam-se ao longe por estarem todas bem conservadas e pintadas.

Hedge, Ongal, Amouz

Tuaregue

19 – Maio – 2005: Amanhecemos com apostas: o que é que nos reservaria o deserto neste dia? Depois do sol e do vento, faltava a chuva (!!) e de um céu baixo e carregado começou mesmo a pingar! Mas nada de especial, se bem que algumas de nós já ressacavam por uma banhoca!

Andámos de camelo durante algum tempo... e aquele “embalamento” dá imenso sono!... Parámos num poço onde estava um grande número de camelos com as suas crias. Ao almoço convidámos a juntar-se a nós, Abdoulah, um pastor de camelos, amigo de Mohamed... vestia de preto da cabeça aos pés, tinha um ar imponente e altivo... TUAREGUE. Sentou-se ao meu lado na tenda para almoçarmos após o qual eu adormeci cansada... acordei com ele a bisbilhotar no meu caderninho de notas... entreguei-o para ele ver mas rapidamente perdeu o interesse...

Na a etapa da tarde fomos novamente convidadas pelo Mohamed a montar um dos camelos... mas também éramos convidadas a desmontar quando o trilho se tornava mais difícil para os animais. Sempre atento, preferia andar mais se isso se traduzisse em menor dificuldade para os camelos.

No poço

"La tempete de sable"

18 – Maio – 2005: A etapa de ontem na areia foi bastante dura... então o Mohamed decidiu aparelhar os 3 camelos de modo que pudéssemos montar um deles se necessário! Que sorte!
Tomámos o belo do petit déjeuner nas dunas, colocámos o turbante AZUL BERBERE pois estava um ventinho e “yalá yalá!” – “Vamos!”

O vento de frente começou a ser mais forte e as rajadas cada vez mais incomodativas... em pouco tempo estávamos no meio de uma TEMPESTADE.... areia por todo o lado... areia nos olhos......... o problema são os olhos pois precisamos de abri-los para ver o caminho!!.... uma irritação colossal... um desespero... ... mas, tivemos sorte.... conseguíamos ver-nos uns aos outros!

O deserto é feroz e implacável quando está vento...

Foi necessário montar a tenda para cozinhar e almoçar... mas mesmo naquela confusão de areia eles não se atrapalharam nada.... entretanto o vento amainou e pudemos vir para fora depois do almoço enquanto o Mohamed foi procurar os camelos...... procurou... procurou... e nunca mais voltou! O estranho é que nós víamos os camelos ao longe... deitadinhos... “Será miragem?” o Abdel já estava preocupado pois assim não chegaríamos a tempo à próxima paragem, então foi procurá-lo.... e encontrou-o a cochilar ao lado dos camelos... bem que mereciam!

Partimos então para a etapa curta em direcção às dunas de BOUGARN. As novas dunas, douradas, quase vieram ao nosso encontro... ao contrário de Chegaga, estávamos sozinhos... o silêncio era absoluto... mas nós parecíamos tolinhos a cantar e a dançar...

Bougarn

Nas dunas

17 – Maio – 2005: Hoje andámos imenso... imenso... num calor imenso em cima de um planalto interminável e pedregulhoso. Tivemos outro encontro com uma família de nómadas. Uma menina de 12-13 anos veio acolher-nos com os seus irmãos mais novos. Vendiam artesanato. Ela, morena, lindíssima, vestia roupas coloridas sobrepostas, tinha as unhas pintadas com henna. Havia uma senhora com um olhar muito sorridente que tratava dos tecidos.

Foi o dia da chegada às DUNAS... e é muito difícil andar sobre areia! As minhas botas que são fantásticas quando se anda em solo firme pois parece que andam sozinhas... transformaram-se em autênticos trambolhos de chumbo a pesar toneladas assim que entrámos na areia. O pé enterra-se, não conseguimos andar tão rápido como queremos... foi árduo!


Mas eventualmente chegámos... fabuloso! Depois de 2 dias a andar no deserto, este grupo de 4 pessoas e 3 camelos chegou às dunas e pareceu estranho ver outras pessoas, jipes e motas, os trilhos no chão, o barulho dos motores...
Acampámos mesmo no meio das dunas de CHEGAGA e adorámos, tirar as botas e descê-las a correr, enterrar a perna na areia até ao joelho. À noite, a luz da lua crescente iluminava a areia, ouviam-se cantares ao longe acompanhados pelo som de tambores... eram os nossos vizinhos... Eles também nos deviam ouvir a nós.



Azul Berbere

Vida de Deserto

16 – Mai – 2005: Acordámos de manhã bem cedo ao som da chaleira e do despertador... quando saímos da tenda encontrámos a mesa posta num tapete no chão, com pão, doce, manteiga, queijo, café e o chá fumegante. Conhecemos então um novo Mohamed – o berbere sorridente – condutor/tratador/encontrador de camelos.
Em pouco tempo tínhamos o acampamento levantado e iniciávamos a nossa caminhada. Andámos e andámos... debaixo de um sol escaldante...
No caminho passámos por um rebanho de cabras apascentadas por uma menina... Almoçámos num oásis - seco - e quando lá chegámos já o Mohamed tinha preparado para nós uma sombra onde descansámos o corpo.....

O ALMOÇO era uma salada enorme e incrivelmente fresca com massa, tomate, pepino, cebola, atum, sardinha, queijo... e depois melão, adorámos. A menina pastora juntou-se a nós, ofereceu-nos a sua companhia e nós oferecemos-lhe o almoço.
Depois de descansarmos mais um pouco partimos novamente, com o Mohamed a cantar para nós e para os camelos, descendo o rio seco que passava no oásis. Bem fácil ter miragens da água a correr... Estamos numa zona de montanha, pedregosa, por vezes encontram-se rebanhos de cabras e construções circulares de pedra aparelhada que indicam a presença de nómadas.
Passámos por uma família que nos acenou ao longe. De lá saiu um miúdo pequeno a correr de pés descalços e sujos nos pedregulhos... primeiro pensámos que vinha pedir esmola... mas o Abdel traduziu “Ele está a convidar-vos para beber chá com a família”... .... .. Estamos bem longe daquilo que conhecemos... somos constantemente “humilhados” pela simpatia e vontade de acolher desta gente inexplicável.


Montámos acampamento num vale e rodeados de planaltos descansámos, contemplámos, rimos, conversámos, escrevemos, bebemos o chá. Falámos sobre a vida dos nómadas que é tão agreste e difícil. Sem residência fixa, vivem em tendas rodeadas por pedras, cuidam das suas cabras que são o seu sustento. Existem. Abdel falou-nos sobre a sua religião e a concepção de paraíso/inferno dos muçulmanos. De como têm 2 anjos sobre os seus ombros que vão anotando as boas e más acções a serem pesadas numa balança no dia do juízo final. Explicou que o cumprimento “Salamalekoum” – “Que a paz esteja convosco” está no plural porque para além da pessoa também se cumprimentam os anjos. Falámos dos vários dialectos berberes que se falam em Marrocos e da relação entre homem e as suas (possíveis) 4 mulheres. Aqui entrámos num intransigente desacordo.... ehehe.

Mohamed, o guia de camelos, é uma pessoa muito interessante, simpatizámos logo com ele apesar de termos trocado apenas algumas palavras soltas em francês. É um antigo pastor de camelos, sempre de sorriso rasgado quer no sol abrasador, quer na tempestade de areia, quer à hora do jantar. Está sempre a cantar, responde a tudo com um “merci madame”, faz questão de soltar os camelos sempre que fazemos uma paragem mais prolongada para andarem à vontade e procurarem alimento. Depois tem que ir à procura deles para os trazer de volta. Dorme na rua com os camelos em vez de se abrigar dentro da tenda grande, coabita com todos os bichinhos e baratinhas do deserto não faz como os restantes que as afastamos assim que chegam a 10 cm. Quando jantamos é incrível a maneira como se dobra todo sobre si próprio ocupando menos espaço que nós, os mais pequenos que ele. “Tix! Tix!” – “Mange bien, Marche bien!” Insiste ele, para comermos mais, mesmo depois de termos repetido 2 vezes!

(Agora aqui um parêntesis para sublinhar a derrota estrondosa daquele que era o nosso maior receio ao iniciar esta viagem. Sermos 2 mulheres sozinhas no deserto. Isso não seria nunca um motivo de desistência mas foi-o de alguma apreensão. TRETAS. O pessoal que nos acompanhou foi sempre 5 estrelas e a sua preocupação era no sentido de nos sentirmos bem e principalmente tivéssemos umas boas férias. Não sei o que tinha na cabeça.)

Para o JANTAR cozinha-se Cous-cous ou Tajine com legumes. Entramos todos para a tenda grande e sentamo-nos à volta das velas no tapete, descalços. As mulheres têm que servir os homens, tradição. Há sempre a Harira, a sopa espessa marroquina de sabor muito apurado e super deliciosa... repetimos sempre 2 ou 3x por gulodice...