21 de junho de 2005
De volta pelo Atlas
Na viagem de volta a Marrakech atravessámos o VALE DO DRAA... lindíssimo... viam-se mulheres de véus cor de rosa a trabalhar nos campos verdes, autênticos quadros vivos. Passámos por aldeias com as suas casas feitas de terra. Se chover as construções degradam-se e muitas parecem castelos de areia já lavados pelas ondas... No entanto, as torres das mesquitas destacam-se ao longe por estarem todas bem conservadas e pintadas.
Tuaregue
Andámos de camelo durante algum tempo... e aquele “embalamento” dá imenso sono!... Parámos num poço onde estava um grande número de camelos com as suas crias. Ao almoço convidámos a juntar-se a nós, Abdoulah, um pastor de camelos, amigo de Mohamed... vestia de preto da cabeça aos pés, tinha um ar imponente e altivo... TUAREGUE. Sentou-se ao meu lado na tenda para almoçarmos após o qual eu adormeci cansada... acordei com ele a bisbilhotar no meu caderninho de notas... entreguei-o para ele ver mas rapidamente perdeu o interesse...
Na a etapa da tarde fomos novamente convidadas pelo Mohamed a montar um dos camelos... mas também éramos convidadas a desmontar quando o trilho se tornava mais difícil para os animais. Sempre atento, preferia andar mais se isso se traduzisse em menor dificuldade para os camelos.
"La tempete de sable"
Tomámos o belo do petit déjeuner nas dunas, colocámos o turbante AZUL BERBERE pois estava um ventinho e “yalá yalá!” – “Vamos!”
O vento de frente começou a ser mais forte e as rajadas cada vez mais incomodativas... em pouco tempo estávamos no meio de uma TEMPESTADE.... areia por todo o lado... areia nos olhos......... o problema são os olhos pois precisamos de abri-los para ver o caminho!!.... uma irritação colossal... um desespero... ... mas, tivemos sorte.... conseguíamos ver-nos uns aos outros!
O deserto é feroz e implacável quando está vento...
Foi necessário montar a tenda para cozinhar e almoçar... mas mesmo naquela confusão de areia eles não se atrapalharam nada.... entretanto o vento amainou e pudemos vir para fora depois do almoço enquanto o Mohamed foi procurar os camelos...... procurou... procurou... e nunca mais voltou! O estranho é que nós víamos os camelos ao longe... deitadinhos... “Será miragem?” o Abdel já estava preocupado pois assim não chegaríamos a tempo à próxima paragem, então foi procurá-lo.... e encontrou-o a cochilar ao lado dos camelos... bem que mereciam!
Partimos então para a etapa curta em direcção às dunas de BOUGARN. As novas dunas, douradas, quase vieram ao nosso encontro... ao contrário de Chegaga, estávamos sozinhos... o silêncio era absoluto... mas nós parecíamos tolinhos a cantar e a dançar...
Nas dunas
Foi o dia da chegada às DUNAS... e é muito difícil andar sobre areia! As minhas botas que são fantásticas quando se anda em solo firme pois parece que andam sozinhas... transformaram-se em autênticos trambolhos de chumbo a pesar toneladas assim que entrámos na areia. O pé enterra-se, não conseguimos andar tão rápido como queremos... foi árduo!
Mas eventualmente chegámos... fabuloso! Depois de 2 dias a andar no deserto, este grupo de 4 pessoas e 3 camelos chegou às dunas e pareceu estranho ver outras pessoas, jipes e motas, os trilhos no chão, o barulho dos motores...
Acampámos mesmo no meio das dunas de CHEGAGA e adorámos, tirar as botas e descê-las a correr, enterrar a perna na areia até ao joelho. À noite, a luz da lua crescente iluminava a areia, ouviam-se cantares ao longe acompanhados pelo som de tambores... eram os nossos vizinhos... Eles também nos deviam ouvir a nós.
Vida de Deserto
Em pouco tempo tínhamos o acampamento levantado e iniciávamos a nossa caminhada. Andámos e andámos... debaixo de um sol escaldante...
No caminho passámos por um rebanho de cabras apascentadas por uma menina... Almoçámos num oásis - seco - e quando lá chegámos já o Mohamed tinha preparado para nós uma sombra onde descansámos o corpo.....
O ALMOÇO era uma salada enorme e incrivelmente fresca com massa, tomate, pepino, cebola, atum, sardinha, queijo... e depois melão, adorámos. A menina pastora juntou-se a nós, ofereceu-nos a sua companhia e nós oferecemos-lhe o almoço.
Depois de descansarmos mais um pouco partimos novamente, com o Mohamed a cantar para nós e para os camelos, descendo o rio seco que passava no oásis. Bem fácil ter miragens da água a correr... Estamos numa zona de montanha, pedregosa, por vezes encontram-se rebanhos de cabras e construções circulares de pedra aparelhada que indicam a presença de nómadas.
Passámos por uma família que nos acenou ao longe. De lá saiu um miúdo pequeno a correr de pés descalços e sujos nos pedregulhos... primeiro pensámos que vinha pedir esmola... mas o Abdel traduziu “Ele está a convidar-vos para beber chá com a família”... .... .. Estamos bem longe daquilo que conhecemos... somos constantemente “humilhados” pela simpatia e vontade de acolher desta gente inexplicável.

Montámos acampamento num vale e rodeados de planaltos descansámos, contemplámos, rimos, conversámos, escrevemos, bebemos o chá. Falámos sobre a vida dos nómadas que é tão agreste e difícil. Sem residência fixa, vivem em tendas rodeadas por pedras, cuidam das suas cabras que são o seu sustento. Existem. Abdel falou-nos sobre a sua religião e a concepção de paraíso/inferno dos muçulmanos. De como têm 2 anjos sobre os seus ombros que vão anotando as boas e más acções a serem pesadas numa balança no dia do juízo final. Explicou que o cumprimento “Salamalekoum” – “Que a paz esteja convosco” está no plural porque para além da pessoa também se cumprimentam os anjos. Falámos dos vários dialectos berberes que se falam em Marrocos e da relação entre homem e as suas (possíveis) 4 mulheres. Aqui entrámos num intransigente desacordo.... ehehe.
Mohamed, o guia de camelos, é uma pessoa muito interessante, simpatizámos logo com ele apesar de termos trocado apenas algumas palavras soltas em francês. É um antigo pastor de camelos, sempre de sorriso rasgado quer no sol abrasador, quer na tempestade de areia, quer à hora do jantar. Está sempre a cantar, responde a tudo com um “merci madame”, faz questão de soltar os camelos sempre que fazemos uma paragem mais prolongada para andarem à vontade e procurarem alimento. Depois tem que ir à procura deles para os trazer de volta. Dorme na rua com os camelos em vez de se abrigar dentro da tenda grande, coabita com todos os bichinhos e baratinhas do deserto não faz como os restantes que as afastamos assim que chegam a 10 cm. Quando jantamos é incrível a maneira como se dobra todo sobre si próprio ocupando menos espaço que nós, os mais pequenos que ele. “Tix! Tix!” – “Mange bien, Marche bien!” Insiste ele, para comermos mais, mesmo depois de termos repetido 2 vezes!
(Agora aqui um parêntesis para sublinhar a derrota estrondosa daquele que era o nosso maior receio ao iniciar esta viagem. Sermos 2 mulheres sozinhas no deserto. Isso não seria nunca um motivo de desistência mas foi-o de alguma apreensão. TRETAS. O pessoal que nos acompanhou foi sempre 5 estrelas e a sua preocupação era no sentido de nos sentirmos bem e principalmente tivéssemos umas boas férias. Não sei o que tinha na cabeça.)
Para o JANTAR cozinha-se Cous-cous ou Tajine com legumes. Entramos todos para a tenda grande e sentamo-nos à volta das velas no tapete, descalços. As mulheres têm que servir os homens, tradição. Há sempre a Harira, a sopa espessa marroquina de sabor muito apurado e super deliciosa... repetimos sempre 2 ou 3x por gulodice...



