13 de novembro de 2005

TASTE OF INDIA: TAMARIND

E heis que agora, um mês depois de retornados da terra da seda e das especiarias, numa altura em que a lembrança de tais lugares ainda se faz com nostalgia qb... descobriu-se, por acaso, um restaurante em pleno centro de Lisboa que oferece a possibilidade de experimentar “Excepcional Cozinha Indiana” em ambiente fashion e moderno.

E que descoberta deliciosa.
Num local onde a decoração é simultaneamente quente e fresca, em que nos fazem as melhores sugestões nas alturas certas e onde na culinária nada é deixado ao acaso, conversou-se com o Cozinheiro-Chefe, nascido na Tanzânia com pais indianos mas cidadão inglês, que agora é o responsável pelo novo conceito de comida indiana adaptada ao palato dos portugueses.

Mas “porquê em Portugal?”
“Porque depois de percorrer quase toda a Europa me apaixonei pelo povo Português, porque é um povo humilde e aventureiro ao mesmo tempo e porque se não fosse a sua força e vontade de descobrir o caminho marítimo para a Índia em busca de novas especiarias, o mundo não seria como o conhecemos.”

É na Rua da Glória 43-45 tel: 213466080, entre a Praça da Alegria e os Restauradores.

Grande Alma



“Quero que as culturas de todos os povos andem pela minha casa com o máximo de liberdade”

Mahatma Gandhi

As CORES de Goa


Houve um dia em que tivemos a ideia peregrina de participar numa excursão para famílias indianas com uma guia indiana... éramos as mascotes alienadas que não entendiam uma palavra do que se dizia. Mas sempre deu para conhecer alguns templos hindus perto de Margao e principalmente a Velha Goa com os seus monumentos mandados construir por portugueses onde se incluía a Basílica de S. Francisco Xavier, onde repousa o corpo movedor_de_multidões já desmembrado do santo...




Aqui estamos sempre a tropeçar em vestígios portugueses, nomes de ruas, nomes de lojas, igrejas... tudo misturado com o coloridos dos templos a Ganesh, os colares de flores cor de laranja, os carros todos enfeitados, as vacas à solta na praia, os porquinhos a correr na relva, a chuva tropical e a humidade nas pastagens, as praias com palmeiras e barcos, as conchinhas brilhantes na areia, o sol a escaldar e a água fresca do mar.




Noutro dia andámos de motinha a percorrer as praias a norte de Candolim, onde ficámos hospedados: Calangute, Baga, Anjuna e a nossa preferida Vagator.




Goa é fácil de amar.

“Diários de Motocicleta”

Para nos mexermos em Goa, alugámos uma scooter por 200rupias (4euros). Não se vêm muitas bombas de gasolina pelo que o combustível que se vai gastar tem que ser calculado antes de partir e é vendido ao litro, dentro de garrafas de água ou whisky, por senhoras à beira da estrada.
E sem capacete, arrancámos...“Se aparecer a polícia digam que são meus amigos!” era o conselho recorrente. Era 4ª feira, dia do Flea Market em Anjuna, que é um belo chamariz para turistas desprevenidos como nós. E na estrada para Anjuna lá estavam eles de uniforme castanho.... à espera. Depois de interpretarem a nossa carta de condução dispararam “não têm carta de mota?!” “não têm carta internacional?!”... “mas ok, paguem só esta pequena multa de 450 rupias –9 euros, uma fortuna- e depois podem continuar!” ... mas depois de debatermos um pouco a questão, mais uma vez na pele de pobres estudantes portugueses, partimos impunes...
Estas intercepções devem ser lendárias pois até vinham descritas no Rough Guide.



Prosseguimos para Anjuna mas o tempo estava meio chuvoso e o mercado pareceu a meio gás. É aqui que se fazem as célebres raves que deram origem ao festival de trance Goa Gil que durante o ano percorre o mundo inteiro.
A época alta de Goa, que atinge o seu auge nas festas de Natal e Fim de Ano, estava agora a começar (meados de Outubro) pelo que não nos apercebemos de movimentos anormais de hippies que devem povoar esta zona nas alturas das grandes festas, cujo auge foi nos anos 90.

11 de novembro de 2005

Finalmente... GOA

Eu achei a zona de Udaipur muito verde mas a primeira impressão de Goa foi a de chegar a uma selva tropical.



A segunda impressão foi a de que se tinha saído da Índia.
Goa só há 50 anos é que é território indiano e quando se fala de Goa a outros indianos eles olham para nós como se estivéssemos a falar de outro país. Goa é diferente. As pessoas parecem mais descontraídas, felizes e risonhas e desejosas de aproveitar as boas coisas da vida. Há quem diga que isso se deve à influência portuguesa no passado ao contrário do resto da Índia que teve influência britânica....
Parece mesmo que a única coisa que nos lembra que são indianos é aquela maneira de abanar a cabeça quando querem dizer que sim!



E reparámos noutra coisa. Reparámos em indianos a falar inglês entre si. É que apesar de viverem no mesmo país as pessoas do Sul não entendem a língua falada no Norte e vice-versa... nem sequer têm o mesmo alfabeto ( ! ) ... então falam em inglês, que toda a gente sabe!
Eu que já achava estranho falar-se inglês entre portugueses e espanhóis. Mas a Índia é muito maior e tem muito mais gente que Portugal e Espanha juntos.

9 de novembro de 2005

As RELIGIÕES da Índia

A Índia será provavelmente um dos países com maior diversidade religiosa do mundo.

HINDUÍSMO

É a religião predominante (85% dos indianos são hindus) e é conhecida como a religião mais antiga do mundo, o produto de milhares de anos de evolução de várias práticas e tradições indianas, em que não existem profetas nem fundadores e em que cada pessoa acredita num espírito supremo cósmico, que pode ser adorado de várias formas e representado por várias divindades. O hinduísmo assenta em várias práticas vistas como meios para ajudar cada um atingir o seu próprio estado divino.
O conceito de deus é algo vasto pois depende das filosofias individuais de cada um e o panteão hindu é do mais complexo que existe.

Existe a trindade principal: Brahma (o Criador), Vishnu (o Preservador) e Shiva (o Destruidor), cada um deles tem a sua consorte ou lado feminino (Saraswati, Lakshmi e Parvati, respectivamente) e todos podem assumir várias formas, ser conhecidos por vários nomes e, claro, ter várias encarnações ou avatares.

Depois existem Hanuman, o deus macaco e figura central do Ramayana, o poema épico hindu e o meu preferido, Ganesh, o deus-elefante, filho de Shiva e Parvati e um dos deuses hindus mais adorados: é o deus da boa sorte, conhecido como o Destruidor de Obstáculos... o que dá sempre jeito.



ISLÃO

Também está muito presente na Índia.
No entanto, a existência de um só deus, Allah, e os costumes religiosos dos muçulmanos separam-nos brutalmente dos hindus de modo que existem, como se sabe, conflitos graves entre uns e outros.
A chegada do Islão ao subcontinente indiano teve grande impacto na civilização de tal modo que levou à divisão do território e à criação de 2 estados muçulmanos separados da Índia, o Bangladesh a Este e o Paquistão a Oeste.
Mas é impossível viajar na Índia e não reparar nas influências que esta religião teve na arquitectura, por exemplo.


SIKISMO

É uma religião relativamente recente, tem apenas algumas centenas de anos e nasceu na zona onde hoje é fronteira entre o Paquistão e a Índia. O seu fundador, o Guru Nanak, filho de mãe muçulmana e pai hindu, estava igualmente ligado ao hinduísmo e ao islão e então chegou à conclusão que Deus não era hindu nem muçulmano e que todos os deuses eram várias faces de um só Deus.
O sikismo convida à meditação e tende a não se cingir ao sistema de castas hindus. Os seus seguidores são facilmente reconhecíveis pois usam um turbante onde acomodam o cabelo que não deve ser cortado, tal como a barba.




7 de novembro de 2005

KONKAN RAILWAY

O comboio é o meio de transporte mais utilizado pelos indianos e a rede ferroviária da Índia pode gabar-se de ser a maior do mundo.
Só na CST - diminutivo para Chatapatri Shivaji Terminus, uma das estações de Mumbai – movimentam-se por dia cerca de 2milhões de pessoas. Quer sejam 6h ou 23h30 a estação está sempre apinhada de gente e não deve haver salas de espera para toda a gente – e muito menos bancos - porque as pessoas se amontoam no atrium principal sentadas e deitadas no chão o que faz com que atravessar aquele atrium se torne numa verdadeira prova de obstáculos.

É que os vôos internos são tão caros que é normalíssimo gastar 3 dias num comboio para chegar ao destino em vez de apanhar um avião e chegar lá em 3 horas.
O Konkan Railway, que liga Mumbai a Goa, é relativamente recente e veio reduzir drasticamente o tempo que se levava a ir de uma cidade à outra de carro ou autocarro. A distância de 400km passou a ser feita em 12h de comboio, o que se tornou uma alternativa muito mais apetitosa à viagem de autocarro de 16-18h, dependendo das condições da estrada e do tempo...

Isto tudo para dizer que é uma viagem de comboio muito concorrida e que os bilhetes estão sempre esgotados! Claro que nós já tínhamos sido alertados para isso e por isso é que comprámos os bilhetes 10 dias antes!
Mas com esta viagem descobrimos que há uma maneira de se fazer as coisas... e depois, há a maneira indiana.

Pois para o que não fomos alertados foi para a necessidade de confirmar alguns bilhetes mesmo depois de comprá-los. E assim, quando chegámos à plataforma de embarque verificámos que nos tinha sido atribuído o mesmo lugar, aos dois!

Os indianos com quem falámos não entenderam o nosso pasmo... quando perguntámos se aquilo era possível limitavam-se a abanar a cabeça de um lado para o outro como quem diz “não tenho a certeza”, reacção que depois descobrimos querer dizer “sim!”
Só mais tarde é que as pessoas que viajaram connosco nos explicaram que vender-se o mesmo lugar a pessoas diferentes era algo que acontecia frequentemente.
Ok... ....

Acabou por correr tudo bem... uma das camas do compartimento miraculosamente permaneceu vazia e ninguém teve que dormir no chão.
Entretanto, quando nos apercebemos de como viajava a larga maioria dos ocupantes daquele comboio, compreendemos que estávamos de facto a viajar numa carruagem de semi-luxo. Não sei, mas aquelas carruagens pareciam-me as que levavam os judeus para os campos de concentração. Em vez de janelas têm grades e no mesmo espaço que eu partilhei com mais 2 pessoas, sentavam-se 4 ou 5... em bancos de madeira.

Nós viajámos com a classe média-alta indiana, estudantes universitários mais ou menos da nossa idade e famílias que iam de férias para Goa. Uma família de hindus muito simpática que ia visitar os templos de Panjim e uma família cristã de Kolkata, ex-Calcutá, que ia para a praia.

6 de novembro de 2005

BOLLYWOOD





É em Bombaím que está a mega-indústria cinematográfica indiana apelidada de Bollywood! Estava um calor abrasador e abafado de modo que a perspectiva de estar dentro de uma sala durante 3h a ver um filme falado em hindi pareceu bem melhor que andar a deambular pelas ruas.

Foi muito cómico! Era um filme sobre triângulos e rectângulos amorosos e a língua acabou por não ser um grande entrave pois estes filmes não primam especialmente pela complexidade do enredo. Apesar de ser um filme romântico e cheio de mulheres sensuais e provocantes, os indianos são muito conservadores neste aspecto e os actores nunca se beijam no ecrã. Para colmatar... enchem o espectador de coreografias espampanantes e sequências de sonho em que mudam de roupa consoante o cenário e é tudo uma grande galhofa.

Estas fotos foram tiradas do filme que vimos, NO ENTRY.

MUMBAI

É uma cidade imensa.
Perguntámos se ainda faltava muito para Mumbai uns 30 minutos antes de chegarmos ao terminal... Responderam que já tínhamos entrado em Mumbai há 1h atrás.....

A aproximação foi outro choque imenso – como o de Delhi – ao ter consciência da pobreza extrema em que milhares... ou milhões (?) de pessoas vivem, ali nos arredores da grande cidade, da locomotiva económica da Índia inteira.
Passámos por bairros de lata em que pessoas vivem no meio de esgotos a céu aberto, em casas com a largura de um passeio, com 2 andares, feitas de tábuas de madeira ou chapas. O lixo é imenso... e o calorrrr.....

Incrivelmente quando voltámos, algumas pessoas perguntaram-me por fotos desses locais... que deviam ser espectaculares...

... não fotografei nada...

de volta aos CARRIS



O nosso motorista deixou-nos na estação de comboio de Falna (perto da Ranakpur) onde íamos iniciar a nossa viagem de 2 dias para Goa.
A sensação de estarmos novamente sozinhos e por nossa conta foi muito boa e até o peso da mochila teve um je ne sais quoi de saboroso... pelo menos no início! Nem se vacilou com a perspectiva de uma viagem de 17h até Mumbai, ex-Bombaím! Estávamos de volta aos carris e delirantes com o cliché que diz que “não se conhece realmente a Índia se nunca se andou nos seus comboios”.


Entrámos na estação... paredes sujas e gordurosas, lixo no chão, filas enormes em que os homens se encostavam uns aos outros para encurtá-las e claro, toda a gente a olhar. Pensámos “já temos bilhete ... estamos safos” ... Íamos só sentar e esperar... Mas até isso não foi muito fácil, porque mesmo numa estação apinhada de gente, 2 estrangeiros sobressaem como se estivessem a gritar “ESTAMOS AQUI!”.

As pessoas rodeavam-nos a pedir rupias e outras pessoas rodeavam essas pessoas para ver a nossa reacção. Assim que nos sentámos e pousámos as mochilas veio uma miúda com um bebé ranhoso ao colo pedir dinheiro e não desgrudava... tive a sensação que se desse alguma coisa o resto da estação me caía em cima. Tentei ignorá-la depois de dizer que não lhe ia dar nada mas ela começou a puxar-me a saia, estava praticamente em cima de mim, não me largava. Acho que os outros indianos que tinham parado para ver tiveram pena de mim porque depois de algum tempo começaram a enxotá-la. E ela foi.


Depois vieram os miúdos engraxadores... Mas eles queriam o quê? Engraxar havaianas?!!