18 de julho de 2006

Na Rota dos Kasbahs

O vento começou a levantar-se... tomámos uma banhoca mas ficámos logo cheios de areia assim que saímos para a rua... areia colada ao corpo que me pareceu bem.
Mas rapidamente nos pusemos a caminho... tínhamos que chegar a Ouarzazate ainda hoje.
As rajadas de vento traziam a areia para a estrada. Pode-se dizer que o deserto nos seguiu tal era a quantidade de areia no ar... para se despedir... ou para nos expulsar... ?


Há algo nesta paisagem lunar que me invade... e sacia, como se procurasse algo que não sei o que é e o encontrasse onde não existe nada.
É a estrada sem fim...

Rissani – Erfoud – Tinerhir. Em Tinerhir, base de exploração das Gargantas do Todra, almoçámos umas brochettes (espetadas) de carne maravilhosas enquanto éramos almoçados por moscas.
De tarde explorámos as formações rochosas mais famosas de Marrocos.


No caminho para Ouarzazate, através do Vale do Dades, a paisagem começa a modificar-se, a ficar mais verde. Os kasbahs castanhos, sucedem-se.... surgem palmeirais imensos...

Em Kela el Mgouna parámos para comprar cremes de rosa. Esta é uma zona magnífica de se visitar durante a primavera, está situada no Vallé des Roses por ser onde existem plantações infindáveis de rosas aqui colocadas propositadamente para produção de cosméticos... Em Maio há um festival colorido na altura da colheita das rosas...

Chegámos a Ouarzazate já tarde...


Esta cidade é a verdadeira cidade encruzilhada. Outra cidade de passagem de caravanas... de quem quer ir de Norte para Sul, do litoral para o interior... Costuma ser a base de partida para muitos sítios e figura invariavelmente nos roteiros de quem se aventura pelo deserto. A sua importância deve-se ao facto de ter uma localização estratégica. É principalmente um sítio de partidas e chegadas... perfeito para pernoitar quando se vem do deserto em direcção a Marrakech.... mas de resto não tem muito que ver...
... por isso, connosco foi harira e cama.


... Marrakech... e aqui se dá o ínício de uma certa efervescência no sangue...

13 de julho de 2006

Acampamento nas Dunas de Merzouga

A chegada ao Kasbah Tombouctou foi entusiasmante... tínhamos finalmente chegado... O albergue era como uma fortaleza. À frente, virado para as dunas havia um acampamento onde os hóspedes podem pernoitar se não quiserem ficar num quarto.... e mais à frente um grande conjunto de camelos relaxava perto de um poço.

Vieram acolher-nos à rua, ofereceram-nos chá e conversaram connosco sobre a possibilidade de acampar nas dunas.
Ficámos encantados com a simpatia deles e com nossa fortaleza... não sabíamos se ir se ficar... queríamos tudo.

Mas dali a 10 minutos já estávamos a postos para partir numa caravana de camelos em direcção a um acampamento berbere no meio de nenhures. Não levei nada... só a roupa do corpo, a máquina fotográfica e o turbante tímido enrolado ao pescoço.


Connosco, a conduzir os camelos, vinha um rapaz de roupagens e turbante azuis. Deixou as sandálias no limiar da areia e fez o caminho todo a pé, descalço.
A viagem durou praticamente 2 horas... e a meio do caminho caiu a noite e levantou-se a Lua no horizonte... cheia.
Perfeito.

Chegámos ao acampamento depois do meu camelo rebolar duna abaixo – comigo em cima - duas vezes... Estavam mais cansados que nós, coitados... Assim, fiz a parte final do percurso a pé porque o bicharoco se recusou a continuar caminho...
Já quase me tinha esquecido de como é difícil caminhar na areia.

Aguardavam-nos homens e rapazes, todos vestidos de azul, os responsáveis pela manutenção do acampamento. Deram-nos as boas vindas e conduziram-nos às tendas negras dispostas em círculo à guarda de uma duna gigante. Havia mesinhas com candeeiros e velas, espreitámos e dentro das tendas vimos camas e cobertores e lençóis... tudo muito acolhedor e confortável para não faltar nada ao turista, claro.

O jantar foi um autêntico pitéu bem temperado e delicioso. Depois os berberes vieram ao nosso encontro e sentaram-se no nosso tapete. Conversámos um pouco – só alguns falavam francês – diziam que gostavam de viver no deserto e os mais novos perguntaram se também tínhamos a Lua e as estrelas em Portugal.
“Como estas não...” respondemos.

Começaram a tocar e a cantar... nós também, mais desajeitados, e no final dançámos todos juntos até estarmos cansados.

Algures, não sei quando, caí no colchão que me estava destinado e adormeci com o “silêncio do deserto” no ouvido e a luz da Lua derramada na pele.

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Foi de todas a noite mais bem dormida


13-Junho-2006, Terça-Feira
Levantámos às 5h00 para ver o nascer do sol nas dunas, já era bem de dia.
Foi duro subir aquela duna gigante com os pés e as pernas a enterrarem-se constantemente... a areia a escorregar.. e nós a escorregarmos com ela... e quanto mais se subia... mais se escorregava, mais vento estava.... e quanto mais vento estava menos podíamos abrir os olhos para olharmos toda a imensidão que nos rodeava...
... ... (sem palavras) ... ... ...


O afamado “silêncio do deserto” mostrou ser não mais que uma quimera perdida em versos de poesia... pois basta uma aragem para o deserto ser profundamente ruidoso.
Enquanto descia a duna sozinha experimentei o meu primeiro momento de solidão desta viagem. Uma solidão de pessoas. Uma sensação alegre e sorridente de se estar acompanhado de sítios e não de gente. Como se os sítios falassem e as pessoas desaparecessem... ou então como se os sítios fossemos nós.


Depois da descida, despedimo-nos dos nossos anfitriões e rapidamente nos fizemos ao caminho de volta ao albergue.



A viagem correu bem e desta vez ninguém resvalou duna abaixo... 2h depois, ao longe começou a avistar-se o Kasbah...

... o nosso pastor de camelos calçou as sandálias e nós regressámos à nossa tímida Lua e às nossas insuficientes estrelas.

12 de julho de 2006

Ao Longe, o Sahara

Faltam 300 km para o Sahara.
Tomámos a estrada Fes – Azrou – Midelt – Er Rachidia que costumava ser conhecida por Royal Road, uma antiga rota de caravanas de sal e escravos vindas da África Ocidental.
A paisagem muda radicalmente de árvores frondosas nas montanhas em Azrou para planícies amarelas de perder de vista em Er Rachidia.
E agora as caravanas são outras...

Foi uma viagem longa e monótona que nos fez passar por muitas terreolas poeirentas, parques eólicos, postos de venda de Coca-Cola e Téléboutiques...
Entretanto houve algo que me fez perceber que vinha desanimada... estávamos quase a chegar mas nunca mais chegávamos... começou a chover entre Er Rachidia e Erfoud... nem uma réstia de sol, céu encoberto... estava aquele tempo húmido e quente e super abafado... aquele tempo que dá dor de cabeça.

Os 25 km entre Erfoud e Rissani fizeram-se com alguma preocupação por causa do céu que continuava baixo e das rajadas de vento que se levantavam de vez em quando. Já tínhamos sido avisados das tempestades de areia que tinham acontecido nas últimas semanas... aiai...


... mas entretanto começámos a avistar as dunas do Erg Chebbi ao longe... ... e algures houve um desassossego interior que principiou.

As mulheres vestem-se de negro... e estão todas tapadas da ponta do pé à ponta do cabelo... Crianças sujas e despenteadas sorriem-nos. Vêem-se jipes e veículos 4x4.
Em Rissani virámos na estrada para Merzouga. Foi recentemente alcatroada. Ainda bem, pois num carro normal como o nosso nunca conseguiríamos fazer 40km numa “piste” (estrada não alcatroada que pode ter pedras ou pior, areia).
O panorama é quase lunar... somos nós e a estrada... e as dunas ao longe... e elas crescem à medida que avançamos.
Nesta estradinha estreita existem muitas indicações de mudança de direcção que nos levam a albergues à beira das dunas... parecem saídas para lado nenhum pois a estrada acaba e restam-nos as “pistes”.
Assim, antes de chegar a Merzouga virámos à esquerda em direcção ao Kasbah Tombouctou.

O sol espreita... será?
Faltam 2 km para o Sahara.


( Fotos de L.Romão)

11 de julho de 2006

Petit Dejeuner

12-Jun-2006, Segunda-Feira


Pequeno Almoço:
sumo de laranja
chá ou café
crepes com doce, mel e manteiga
pão
bolos

10 de julho de 2006

Fes-el-Bali


Fes é uma cidade imensa e está dividida em 2 partes, a parte nova e a parte velha... Mas Ville Nouvelle à parte, resta a medina que por sua vez também está dividida na Fes-el-Djedid e na Fes-el-Bali, o nosso destino.
A chegada a Fes foi algo atribulada por causa de um senhor motociclista algo assustador que se lançou no nosso encalço, se colou ao nosso carro e não desgrudou... queria levar-nos para um hotel que só ele sabia, foi muito insistente. E isto é algo que se deve esperar ao entrar em Fes de carro... perseguições.

O céu de Fes estava baixo e carregado, mesmo cinzento escuro, mas isso não impediu a temperatura de rondar os 40ºC.
Por todo o lado há homens e crianças que se oferecem para ser os nossos guias dentro da medina... “É muito difícil, não vão conseguir voltar ao ponto de partida”, garantiam...
... mas não fizemos caso...Percorremos a rua Tala el Kbira até ao final... mais de 1km de lojinhas e bancas em ruas estreitas ora cobertas ora descobertas... Quando passam os burros com as suas cargas não existe espaço para mais ninguém naquelas ruas... as pessoas espremem-se umas contra as outras e contra as paredes, fica difícil de respirar para alguns... assim é Fes, apertada, comprida, inclinada, amarela, sagrada.

(Foto de L. Romão)
(Foto de L. Romão)

Mais tarde fez-se noite e foi hora de futebol. E numa esplanada absolutamente masculina torcemos por Portugal. Éramos 5 em 50.
Depois do jantar encontrámos outros futebolistas que deliraram ao serem fotografados...

7 de julho de 2006

A caminho do SUL

11-Jun-2006, Domingo


Deixámos o Rif e o azul enfeitiçante de Xaoen e rumámos ao Sul em direcção a Fes.
Os 200km fizeram-se bem. Não se vêem muitos carros pelo caminho. Só alguns camiões facilmente ultrapassáveis e outros tantos grand-taxis, que são carros grandes partilhados por +5 pessoas para além do condutor com destinos diferentes numa determinada rota. São a alternativa competitiva aos autocarros ou comboios para o transporte inter-cidades.
O problema é que consta que os motoristas costumam adormecer ao volante...
Senhores de chapéus coloridos montados em burrinhos acenam-nos e seguem caminho.

A paisagem amarela não engana... estamos a caminho do SUL.

5 de julho de 2006

Azul de CHEFCHAOEN

Xaoen não nos comoveu à chegada... cá de fora a cidadezinha aninhada na montanha parecia uma cidade igual às outras... e a verdade é que nós, depois de tudo o que tínhamos andado para chegar até ali, exigíamos algo não menos que “bombástico”.
Os mais cépticos sugeriram então que não perdêssemos tempo e seguíssemos caminho, mas o cansaço já era algum e por isso ficámos.
AINDA BEM!

Pois em Chefchaoen encontrou-se a tal bomba... uma explosão de bem estar.
Assim que se começa a percorrer a medina, surgem étereas visões azuis glacé que nos refrescam por dentro. É algo que não consigo descrever. Sei de uma moura que ia delirar aqui...


Toda a gente nos pergunta se queremos ajuda e oferecem os seus serviços sem serem requisitados. Somos convidados para o típico chá de hortelã açucarado, falam-nos em todas as línguas e tentam vender-nos de tudo... tapetes, roupas, especiarias, hash...
... porque Xaoen e as montanhas do Rif são conhecidas pelas suas plantações de marijuana... assim que entramos numa loja para ver um artesanato qualquer, enquanto o diabo esfrega um olho e sem dizermos nada, aparecem cachimbos compridos de madeira com Kif para se experimentar e os derivados de marijuana saem de dentro das tajines em exposição e voam para as nossas mãos.



Mas a mim impressionou-me o azul... azul de Chefchaoen... um azul que pinta paredes, portas, chão e céu. Um azul mágico e fresco. Impressionaram-me os recantos deliciosos aqui e ali e as flores cor de rosa nas árvores.


Ao jantar, dá-se a iniciação à gastronomia marroquina: tajine de borrego, couzcouz de legumes, kefta (almôndegas), cenoura com canela... doce com salgado. A sobremesa é simples, laranja.

4 de julho de 2006

O carro

Ainda não tínhamos saído do Porto mas já tínhamos sido interceptados por um motorista de taxi que não nos largou até saber onde queríamos ir. Digamos que 5 pessoas com mochilas enormes às costas, completamente desorientadas a olhar para mapas não são propriamente presas difíceis.
Aceitámos a “ajuda” e por 5 euros ele levou-nos a uma agência de aluguer de automóveis. Conseguimos então um Fiat Siena, sem rádio nem ar condicionado, por 300 euros, para toda a semana.
E pusemo-nos ao caminho pois a nossa 1ª paragem ficava ainda a 100km.

Mas... não existem setas em Tanger!
Devem existir, nós é que não as vimos e então andámos ao “deus dará” por estradas secundárias e terciárias (!) até encontrarmos o caminho mais rápido... mas foi divertido pedir indicações às pessoas por quem passámos.

(foto do L. Romão)

... entretanto, as montanhas do Rif aproximavam-se.

Chegada a Tanger

10-Jun-2006, Sábado

Amanheceu-se em Algeciras às 10h, com um terrível torcicolo depois das 13h de viagem de autocarro desde Lisboa (incluindo a paragem em Sevilha).
Mas era um torcicolo feliz.


Pausa para trocar euros por dirhams e perceber qual o barco que nos lançaria mais rapidamente em Tanger. A resposta foi um barco rápido com partida de Tarifa, a 20km de Algeciras, dali a uma hora.
Chegámos a Tarifa em cima da hora e não contámos com a demora do check in + carimbagem de passaportes + verificação de bagagem à passagem da fronteira espanhola.
Estamos numa fronteira entre continentes e culturas que não se passa em 5minutos.
Mas, também estamos na fronteira entre Espanha e Marrocos, por isso o barco atrasou-se e nós conseguimos apanhá-lo....
Fizemos uma pequena parte da viagem na rua ao sol e ao sal, e uma grande parte da viagem dentro do barco na fila pró senhor marroquino que recebia os formulários da imigração, carimbava e conferia os nossos passaportes.

... mas dali a 45 minutos, enfim Tanger.