
« o senhor Aliou convida-me para irmos tomar uma bebida. Está radiante. "Um português. Nem acredito", exclama. "Sabe que o meu filho ganhou o concurso nacional de língua portuguesa?" Não sei; nem sei do que está a falar. Ele explica: "A vossa embaixada organiza todos os anos uma competição entre os onze mil alunos de português dos liceus do Senegal. Este ano, o meu filho ganhou." E conclui: "Se tudo correr bem, para o ano poderá concorrer a uma bolsa e ir estudar português para a universidade."
Fico a pensar no interesse destes senegaleses por uma língua que nem é sua; é minha. Imagino o nível de entusiasmo, o estímulo para prosseguir estudos destes onze mil miúdos, o orgulho de vinte e dois mil pais. E penso: mais do que oferecer uma bolsa, o meu país devia era promover intercâmbios estudantis: mandem-nos esses onze mil entusiastas interessados na nossa língua, que nós mandamo-vos umas centenas de milhares de apáticos desinteressados de tudo. Mandamo-vos uma geração de privilegiados do destino, para que eles compreendam a sorte que tiveram em nascer portugueses. Intercambiemos: nós ensinamos os nossos miúdos a falar a língua, vocês ensinem os nossos a viver a vida. »
Gonçalo Cadilhe in "África Acima"