25 de novembro de 2009

Parinacota Love

21-Setembro-2009

De manhã estamos a caminho do Altiplano outra vez.
A estrada é boa, mas assim que começamos a subir, as povoações escasseiam. São 170km sempre a subir do nível do mar até aos 4500m no Lago Chungará. Alertam-nos para o mal das alturas mas nós devemos ter crédito de aclimatização porque não nos parece diferente de uma subida à Serra da Estrela.


Entramos no Parque Nacional Lauca e pelo caminho vamos parando para ver vicuñas a pastar no bofedal (a pastagem típica do altiplano).



A neblina de Arica desapareceu e também a temperatura amena. Sopra algum vento e está frio mas a paisagem é fascinante.

O vulcão Parinacota e o seu gémeo Pomerape surgem de topos nevados muito fotogénicos juntos aos lagos altiplanicos. Quando lá chegamos fico maravilhada. É um sítio mágico.
Há refúgios junto aos lagos e imagino como seria acordar com esta paisagem. Não se vê vivalma, a calma é total.
Estou maravilhada e hipnotizada por um vulcão.





Passamos na vila de Parinacota.
Tem uma praceta central muito simpática e uma igreja muito pitoresca, de adobe pintada a branco. Encontramos uma lama que se apaixona por nós..


e nós por ela..


Em Putre finalmente encontramos alguma movimentação de pessoas e o melhor sítio para se ficar das redondezas, o Terrace Lodge, uma espécie de herdade alentejana gerida por um simpático casal italiano.

Bebemos um capuccino em boa companhia, o Sol entra pelas janelas, o cor de laranja instala-se, depois o azul, foi um dia de coração cheio.

Guerras no Pacífico

21-Setembro-2009

Daqui a 3 dias temos que estar de volta a La Paz para a World Most Dangerous Road.

Podemos seguir em contra relógio para lá da fronteira do Peru em direcção a Arequipa, ou manter o "plano inicial B": ir e voltar ao Parque Nacional Lauca e seguir depois no bus diário Arica-La Paz.

Isto porque o "plano inicial A" é-nos vetado por todas as agências de aluguer de carros que contactamos, ou seja, alugar um carro no Chile (Arica) e devolver na Bolívia (La Paz) é impossível.

"Aqui no es como en Europa" ouço recorrentemente.


Descobrimos que as relações diplomáticas entre Chile, Bolívia e Peru não são as melhores.... e esta é uma zona sensível.
Há pouco mais de 100 anos Arica pertencia ao território peruano e Calama junto com San Pedro de Atacama (no distrito de Antofagasta) pertenciam ao território boliviano, mas com a Guerra do Pacífico (1879-1883), os aliados Bolívia e Peru viram parte do seu território começar a fazer parte do mapa do Chile. incluindo o acesso ao mar da Bolívia.

No entanto, estas complicações latinoamericanas já vêm do tempo do poderio colonial dos espanhóis, sediados em Cuzco, no Peru, versus revolucionários vindos do Sul da Argentina e Chile, apoiados por ingleses.

Hoje em dia, há indícios de melhoras e fala-se de uma “faixa” cedida pelo Chile junto à fronteira com o Peru, para ligar a Bolívia ao mar... Mas também se fala do Peru não estar muito contente com isso... por ter que passar por cima da aliada de sempre, Bolívia, no caso de decidir pensar numa invasão ao Chile, tipo payback...

19 de novembro de 2009

Arica

20-Setembro-2009

Amanhecemos às 06h e pelas janelas do autocarro entra uma Arica nublada e nada compatível com as nossas ideias de praia. Ao que parece, quem nos falou das praias e marisco de Arica não se lembrou de mencionar a sua neblina típica e de assiduidade diária.
Mas há um momento em que isso perde toda a importância... quando depois de tanto tempo voltamos a por os olhos no mar.

Ficamos no Hotel Bahia, na praia do Chinchorro. Daqui até ao centro da cidade é uma caminhada de 10 min que não se pode dizer que seja arquitectonicamente interessante, para além dos 2 edifícios metálicos (a Igreja e a Aduana) desenhados pelo “the one and only” Gustavo Eiffel e trazidos de França em pequenos módulos para serem montados no centro de Arica.

A cidade parece adormecida.... se por ser domingo ou fim de semana das Fiestas Pátrias, não sei. Mas quando chegamos ao mercado de peixe no porto da cidade, tudo muda. Este fervilha de actividade humana..... e animal.
Os botes de pesca chegam com os homens nos remos e têm á sua espera dezenas de pelicanos insistentes, leões marinhos, gaivotas e gatos sorrateiros... desejosos de chegar ao mais ínfimo restinho de peixe...





BUS MEMORIES III – San Pedro de Atacama to Arica

19-Setembro-2009


Queríamos alugar um carro para subir a costa do Chile nas calmas, ao nosso ritmo, mas a taxa de “one way” é praticamente da mesma ordem de grandeza que valor do aluguer do carro por isso rendemo-nos às evidências e tratamos de comprar o bilhete de autocarro.

A verdade é que ainda estamos um pouco atordoados por causa da diferença do nível de vida e dos preços que existe entre Bolívia e Chile e que é tão marcada quando atravessamos a fronteira no vulcão Licancabur em direcção a San Pedro de Atacama, uma das cidades mais caras e turísticas do país.

Por isso é oficial: estamos a tentar fugir do Chile.

Decidimos então ir directos a Arica, uma cidade fronteiriça no norte do Chile, junto ao Peru e ex-porto da Bolívia.
Ouvimos falar das suas praias e marisco..... *schlep*

Os autocarros, por seu lado, também demonstram bem a diferença no nível de vida a que me referia... climatizados, mantinhas, pequeno almoço incluído... um verdadeiro "luxo asiático".

17 de novembro de 2009

Diários de Bicicleta

19-Setembro-2009

Na agência de aluguer de bikes, um rapaz indica-nos um sítio engraçado onde podemos ir a 8km de San Pedro, as Gargantas do Diabo....
Está um calor imenso logo de manhã e custa-me a pedalar por causa das pedrinhas pequenas e areia que fazem a bike resvalar.
Mas é divertido, pelo caminho atravessamos um rio, descalços.

As Gargantas do Diabo são um desfiladeiro em zigzag de paredes vermelhas espectaculares, provavelmente um antigo leito de rio. O Sol reflecte nas paredes vermelhas e as sombras dançam à medida que passamos por elas, percorrendo os trilhos, passando pelos túneis naturais. Espectacular.



À tarde partimos à direcção do Valle de la Muerte, a 4km de San Pedro.
Vamos experimentar sandboard.
Nunca fiz nada parecido por isso é um pesadelo saber que pé pôr à frente na prancha. Mas é super divertido. São 10 min a subir a duna gigante para 10 ou 20 segundos de descida... em que uns se saem melhor que outros.


Depois do Valle de la Muerte e com areia literalmente dentro de todas as nossas peças de roupa seguimos para o Valle de la Luna para ver o pôr do Sol, um ex-libris do Deserto de Atacama que normalmente se partilha com centenas de pessoas.
A paisagem vermelha surpreende à medida que o Sol se põe e os encarnados vão ficando mais vivos.
Ao longe o Vulcão Licancabur despede-se.... e nós dele.





Foi fácil adormecer, mais tarde no autocarro para Arica, depois de um dia assim.

13 de novembro de 2009

Chillout en San Pedro de Atacama

18-Setembro-2009

San Pedro de Atacama era uma cidade de encruzilhada de caravanas de lamas que se dirigiam do Altiplano até ao Pacífico para trocar com as comunidades piscatórias. E de facto a cidade gira à volta de meia dúzia de ruas que se entrecruzam em terra batida.

Chegamos no dia em que se festeja a independência do Chile (Fiestas Pátrias) por isso encontramos a cidade toda enfeitada com bandeiras.

As casas são de adobe, castanhas da cor da terra do chão, pontuadas com anúncios de agências de viagens de tours para o dia, ou menus gigantes escritos em quadros de giz, promocionando bebidas em happy hour ou a quantidade interminável de pastas ou pizzas servidas nesse restaurantes.
A decoração dos sítios é étnica, mesas de madeira, pinturas tribais.



Nos cruzamentos encontramos jovens que tentam angariar clientes fazendo publicidade dos restaurantes onde podemos comer, dos sítios que podemos conhecer, actividades para fazer, bares com as melhores bebidas.
Há muita gente nova a trabalhar em San Pedro. Muitos vêm temporariamente, outros imigraram de outras cidades do Sul do país, por causa do bom clima, da descontracção da vila e das oportunidades de trabalho relacionadas com o turismo, virtualmente infinitas.

Estamos num local muito turístico e não faltam os requisitos necessários à satisfação de qualquer turista.

Ao longe o vulcão Licancabur perscruta a cidade. E nós, de cabelo lavado e tshirt de manga curta, misturamo-nos facilmente com o turista despreocupado, desfrutamos do calor de San Pedro e deixamos de vez o pó e o frio de outras terras mais altas.




San Pedro é verdadeiramente um oásis no meio do deserto.

9 de novembro de 2009

Chegada a San Pedro de Atacama

18-Setembro-2009

A poucos km’s da Lagoa Verde fica um posto fronteiriço da Bolívia.
Despedimo-nos dos nossos companheiros e carimbamos o passaporte. Estamos no Chile.


Assim que entramos no Chile, tudo muda... A paisagem é a mesma (consta que o próprio vulcão Licancabur é metade chileno e metade boliviano, ainda que para mim isso seja difícil de imaginar..) mas de resto tudo é diferente. Do lado chileno as estradas são alcatroadas até ao posto fronteiriço e há placas com indicações quilométricas. Sabemos que faltam exactamente 45km para San Pedro de Atacama.

São 45km sempre a descer. Baixamos dos 4300m da Lagoa Verde até aos 2400m de San Pedro em 30min. Os ouvidos estalam. Á medida que descemos, sobe a temperatura até uns 30ºC com os quais estamos mais familiarizados, mas em termos de altitude continuamos mais altos que outras cidades como por exemplo o Katmandu.

No posto fronteiriço chileno à entrada da cidade somos todos revistados pois não podemos trazer nenhum tipo de comida ou vegetal... mas de algum modo as folhas de coca lá arranjam maneira de passar unnoticed.

Para além de hiper-vestidos estamos hiper-empoeirados do altiplano. Termos acordado às 04h30 com -10ºC perto da Laguna Colorada na Bolívia já parece ter sido noutra vida.

6 de novembro de 2009

Rota de Jóias II

18-Setembro-2009

São 04h30. Estão -5ºC na rua. O ar é muito seco por isso não há nem um pico nevado.
Vamos ver os geysers “Sol de Mañana”, que são mais extraordinários antes do nascer do sol. Vemos impressionantes lagoas de lama em bolhas gigantes.
Alertam-nos para a altitude, aqui 5000m “é melhor mascar umas folhas de coca” mas a única coisa que me incomoda neste momento é o frio, entranhado nos ossos. Estou gelada.




O Sol nasce.
Descemos em direcção à Lagoa Polques onde encontramos spots de águas termais. Como estão abrigados do vento lá perco a cabeça e a vergonha e começo a despir-me com aquele frio para entrar na água a 35ºC.
Excelente. O antídoto perfeito para os meus pés gelados a noite toda.



Ao pequeno almoço, muitíssimo bem dispostos, comemos panquecas com doce e iogurte com frutos enquanto tagarelamos com os nossos companheiros argentinos.
Delicioso.

Quando partimos o meu coração começa a bater mais depressa.
Estamos a poucos km da Lagoa Verde. E ainda passamos por cenários inacreditáveis. Não acredito que estou aqui. Estou completamente feliz.



A Lagoa Verde aninhada no Vulcão Licancabur aparece em 1 segundo depois de subirmos uma colina, é como uma descarga de adrenalina. Ficamos de boca aberta de espanto.


Só penso que na primeira vez em que imaginei viajar na Bolívia achei que este sítio escondido num cantinho do país seria algo de remoto e inalcansável. Mas ainda bem que aqui estamos. É o tipo de local que nos faz vir lágrimas aos olhos. Uma verdadeira rota de jóias no deserto.

3 de novembro de 2009

Rota de Jóias I

17-Setembro-2009

Deixamos o Salar e à medida que nos vamos aproximando da fronteira com o Chile, vai aumentando a altitude, mas está tudo bem, já estamos aclimatizados.
Apreciamos o vulcão Ollagüe, atravessamos a linha de comboio Uyuni-Calama, passamos por um controlo policial... a viagem é longa e desconfortável.
Não há estradas, só trilhos... penso que seria impossível distinguir qual deles seguir.
Por outro lado a paisagem é esmagadoramente estrondosa....






Passamos por várias lagoas: Cañapa, Hedionda, Ramaditas e Chiar Khota, povoadas de flamingos cor de rosa e rodeadas de montanhas.
Vemos vicuñas a pastar e uma raposa ao longe... somos só nós e a natureza.







O deserto de Siloli e as suas estranhas formações rochosas aparecem depois de um promontório. É um deserto de areia que junto com o vento faz surgir verdadeiras esculturas.



Na Laguna Colorada, uma nuvem tapa o Sol brincando com a cor vermelha da água.
Esta cor deve-se aos pigmentos naturais das algas que existem nas suas águas pouco profundas.





À noite no refúgio jogamos às cartas e ao jantar oferecem-nos uma garrafa de vinho de Tarija.
Há muitos cobertores nas camas, ainda bem.. pois estamos a 4500m e na rua a temperatura desce a baixo de zero.