21 de dezembro de 2009
ventos do Lago Titicaca
18 de dezembro de 2009
BUS MEMORIES V – La Paz to Copacabana
Dia de relax...
Acordar tarde... corpo moído...
São 10h40 quando apanhamos o autocarro em direcção a Copacabana nas margens do Lago Titicaca. A viagem dura 3h30 e é o entra e sai de pessoas com ramos de flores enormes ao longo do caminho.

O Lago é tão grande que parece um mar... temos que atravessá-lo de balsa no estreito na estrada que sai de Huarina.
Quando chegamos, Copacabana revela-se uma cidade agradável, com pontões e restaurantes improvisados onde comemos peixe de lago.
A Virgem tem uma cara morena e traços andinos. Segura uma vela (referência à Virgem da Candelária muito venerada durante a conquista da américa latina pelos espanhóis) e tem aos seus pés uma lua crescente (símbolo pagão feminino).
As pessoas ajoelham-se e oram em silêncio... outras choram baixinho enquanto pedem as suas graças em línguas indígenas que não compreendemos..
Mas como portugueses temos a sensação que entendemos exactamente o que se passa aqui...
4 de dezembro de 2009
World Most Dangerous Road
O ponto de encontro é sempre o mesmo: Café Alexander, Av.Prado, 7:00.
Aos poucos junta-se um grupo de algo como 30 estrangeiros que se preparam para aquela que é vendida como a aventura mais wild da Bolívia: a descida do alto de La Cumbre a 4800m até Coroico a 1200m, pela antiga estrada do Yungas, mais vulgarmente conhecida como a Estrada Mais Perigosa do Mundo.
Escolhemos a agência Gravity Assisted Mountain Biking sediada em La Paz, simplesmente porque é a melhor.
Os 30 estrangeiros são divididos em 2 grupos. Somos apresentados ao Dave, o nosso guia neozelandês, a fazer uma perninha na Bolívia enquanto não continua a sua viagem pelo mundo.
No alto de La Cumbre dão-nos o equipamento “believe me you’ll need it!” (luvas, viseira, capacete, casaco e calças impermeáveis, colete reflector, protecção para pescoço) enquanto somos apresentados às nossas bicicletas que já vêm “calibradas” de acordo com as nossas necessidades e preferências, enviadas no momento da inscrição online (altura do banco, travão da frente do lado esquerdo).
Os primeiros troços são em alcatrão e sempre a descer, nem precisamos de pedalar.
A paisagem é do outro mundo. Mas estão sempre a alertar-nos para irmos com atenção à estrada e não olharmos para a paisagem... histórias de clavículas e costelas partidas sucedem-se...
Faço batota e fico prá trás... apesar de não ter máquina para fotografar tenho que gravar estas imagens na minha memória.
Fazemos várias paragens nas quais o grupo se junta e onde o Dave aproveita para nos explicar as características dos troços seguintes.
Em Unduavi (+- a 10km de La Cumbre) é o checkpoint da polícia onde são revistados todos os carros em busca de cocaína e/ou ingredientes não autorizados que podem levar à sua produção.
Os 40km que se seguem, de Unduavi a Coroico pela estrada velha são absolutamente estrondosos. Um agigantar dos sentidos em todas as direcções.
Antes de entrarmos no percurso de terra batida e na estrada velha propriamente dita reparamos no cartaz com o bodycount deste ano, como medida de sensibilização dos condutores... até agora 43 mortos.
Lama. Fazemos o percurso com chão lamacento e cascatas a inundar a estrada já de si estreita, atravessamos nevoeiro cerrado nas zonas mais altas... factor que ajudou os que sofrem de vertigens...
Em certas zonas a estrada é pouco mais larga que o próprio autocarro, os precipícios têm perto de 600m de profundidade... cruzes semeadas à beira da estrada sucedem-se... esquecemos as clavículas partidas... aqui contam-se outro tipo de histórias.
As regras de trânsito são diferentes... “keep your left”... ou seja, temos a indicação para percorrer a estrada pelo lado esquerdo, o que para quem desce significa ir junto aos precipícios. Foi o modo que encontraram para que os veículos que descem terem maior visibilidade nas curvas.
Há alguns anos, para tentar reduzir as estatísticas catastróficas anuais, foi introduzido um esquema de tráfego alternado conforme os dias da semana, o que baixou consideravelmente o número de acidentes. No entanto os condutores de camiões rebelaram-se uma vez que isso prejudicava as suas receitas... e assim o tráfego foi reaberto nos dois sentidos.
Em Dez-2006 foi inaugurada uma variante multimilionária a ligar La Paz a Coroico que retirou finalmente a maior parte dos carros da estrada mais perigosa do mundo. No entanto alguns comerciantes continuam a fazer o caminho pela estrada antiga, por ter menos kilómetros e assim pouparem combustível... ainda que continuem a demorar mais tempo...
Para nós pareceu-nos uma autêntica ciclovia de curvas perigosas. Devemos ter-nos cruzado com 2 ou 3 carros a subir...
Em Yolosa acaba a descida. Faz calor e a lama desapareceu. Almoçamos na Senda Verde, uma organização non-profit onde se recolhem animais mal tratados ou retirados do mercado negro. Há duches quentes e piscina, mas eu perco-me no fetuccini à bolonhesa... à descrição...
Adorámos a subida de autocarro.
Adorei o facto do nevoeiro ter levantado ligeiramente e termos podido ver o cenário imponente, fantástico e aterrador em que nos encontrávamos.
3 de dezembro de 2009
BUS MEMORIES IV - Arica to La Paz
O nosso autocarro Arica - La Paz sai às 9h30. Está previsto chegar por volta das 17h00. Mas em autocarros diurnos nunca sabemos exactamente a que horas vão chegar... param em todo o lado para entrar e sair gente.
No terminal de Arica algumas pessoas aproveitam para trocar pesos chilenos por bolivianos.
Reparo que estou secretamente a fervilhar de alegria por voltar à Bolívia.
As primeiras horas de viagem são-nos familiares pois a estrada para La Paz é a única, a CH-11, a mesma que passa no Parque Nacional Lauca. Fico com um brilhozinho nos olhos quando passamos no vulcão Parinacota. Os poucos turistas que viajam connosco encostam as máquinas fotográficas às janelas do autocarro. Ainda bem que o vimos sem ser através da janela.
No posto fronteiriço Tambo Quemado carimbam-nos o passaporte e recomendam-nos a visita ao vulcão Sajama.
Estamos ansiosos por chegar a La Paz mas a viagem é longa e a paisagem deserta. O autocarro pára onde as pessoas pedem indiscriminadamente, há engarrafamentos nas ruas à chegada... mas finalmente chegamos.
Reparo na diferença desde a última vez que estivemos na cidade. Não temos dores de cabeça, respiramos normalmente e até vamos de mochila às costas rua abaixo procurar um hotel.
Ruta Altiplanica

Ficou marcado o ano de 2000 para o início das obras mas neste momento diz-se à boca pequena que ainda nem foram calculados os milhões de dollars necessários para a sua construção, quando mais a angariação dos fundos.
Independentemente de políticas, esta é uma estrada que se for construída abrirá ao mundo uma região remota e de difícil acesso mas de paisagens avassaladoras...
2 de dezembro de 2009
Caminhos alternativos
De manhã despedimo-nos de Putre e seguimos para Arica, por um caminho alternativo.
Mas não há estações de serviço em Putre e as indicações de “FUEL HERE” levam-nos a uma porta fechada.
É na mercearia que nos aviamos de 10L super inflacionados mas ainda assim mais baratos que em Portugal.
Para nós o mais importante é não ter que repetir o caminho, pois só há uma estrada, a CH-11, que liga o Parque Nacional Lauca e Putre a Arica, por isso o nosso caminho alternativo começa em Zapahuira onde saímos da estrada principal alcatroada e viramos para o caminho de terra batida em direcção ao pueblo de Belén, para talvez algo como os 160km mais longos da nossa vida.

O capítulo do Norte Grande do Lonely Planet do Chile (cedido gentilmente pela Mochila às Costas) fala numa aventura “off the beaten track”. O Rough Guide nem tem esta estrada do mapa.
A estrada de curva e contra curva de gravilha que sobe e desce e contorna colinas e precipícios não permite grandes aventuras. Velocidade máxima: 30km/h. Quaisquer 40km entre pueblos transformam-se numa eternidade. E para culminar, quando chegamos aos pueblos... estes parecem desertos.
Em Belén apreciamos uma igreja muito engraçada em adobe pintada de branco, mas nenhuma pessoa na rua, nenhuma taberna aberta, riso de criança, nada...
De vez enquando passamos por um camponês a trabalhar no campo que nos acena... uma tranquilidade completa..... e uma sensação de estar verdadeiramente atrás dos montes e longe de tudo.
A meio do caminho a paisagem muda e com isso também a estrada que começa a ter troços rectos. Velocidade máxima: 50km/h. Deixamos a montanha de vegetação rasteira e passamos para um planalto desértico de canyons amarelos.
O rádio sintonizado vai e vem, indicações kilométricas só as dos marcos nas estradas que felizmente existem e nos servem para saber se seguimos na mesma estrada depois de um cruzamento.
As horas vão passando e nós, mortos de fome, vamos percorrendo os kilómetros quais lone rangers no deserto com um rasto de poeira atrás... o Pico do Parinacota ao longe indica-nos que vamos no sentido certo.
Quando finalmente chegamos à Panamericana, passaram 4h...
Voltaram as pessoas, os carros, o rádio, a rede de telemóvel e o abençoado alcatrão. Velocidade máxima: 120km/h.
25 de novembro de 2009
Parinacota Love
De manhã estamos a caminho do Altiplano outra vez.
A estrada é boa, mas assim que começamos a subir, as povoações escasseiam. São 170km sempre a subir do nível do mar até aos 4500m no Lago Chungará. Alertam-nos para o mal das alturas mas nós devemos ter crédito de aclimatização porque não nos parece diferente de uma subida à Serra da Estrela.
A neblina de Arica desapareceu e também a temperatura amena. Sopra algum vento e está frio mas a paisagem é fascinante.
Há refúgios junto aos lagos e imagino como seria acordar com esta paisagem. Não se vê vivalma, a calma é total.
Passamos na vila de Parinacota.
Tem uma praceta central muito simpática e uma igreja muito pitoresca, de adobe pintada a branco. Encontramos uma lama que se apaixona por nós..
Bebemos um capuccino em boa companhia, o Sol entra pelas janelas, o cor de laranja instala-se, depois o azul, foi um dia de coração cheio.
