8 de janeiro de 2010

TRAIN MEMORIES: BACKPACKER SHUTTLE

28-Setembro-2009

Em Ollantaytambo esperamos pelo Backpacker Shuttle.... o 1º comboio da viagem e o que nos levará até ao Machu Picchu, uma das maravilhas do mundo...

... estou em pulgas.



Como qualquer train lunatic que se preze, tenho pena de não termos ainda viajado de comboio durante o nosso tempo na América Latina, mas é de facto um meio de transporte em extinção que não consegue competir com os autocarros.

Mas aqui é diferente. O comboio é o único meio de transporte até Aguas Calientes. O desfiladeiro é de tal modo estreito que não há espaço para estradas.


Chegamos às 21h.

A estação está cheia de gente que espera os turistas. Vêem-se placas de hotéis de 5 estrelas, magotes de japoneses baixinhos carregados de malas caras, europeus nas suas roupas de aventura “à lá” Coronel Tapioca e muitos backpackers... Não temos nada marcado por isso aceito o primeiro lugar que oferecem por 15 soles (3.5€)... barato...

Aliás, muito barato... arrependo-me logo depois de pagar... cortinas de veludo empoeiradas a tapar as janelas que dão para um corredor comum... um fio de água no chuveiro... lençóis sujos... um quarto a fazer lembrar os filmes passados na Rússia sobre imigrantes ilegais.


Mas também não vamos dormir muito...
Quem sobe ao Wayna Picchu normalmente está a pé às 4h30....

7 de janeiro de 2010

Pisac e o Vale Sagrado

28-Setembro-2009
Hoje partimos em direcção ao Vale Sagrado dos Incas.
Mal saímos do taxi na Av. Tullumayo, de onde saem alguns dos BUS para o Vale, alguém pergunta “Pisac?” São pessoas apressadas que nos pegam nas mochilas e as levam rapidamente para o porta bagagem dos combis “compartidos” privados que só partem quando estão cheios.

Pisac é a nossa primeira paragem e fica a 40min de Cuzco. É uma vilazinha muito pitoresca com uma árvore gigante na sua praceta principal e um mercado mundialmente conhecido.



A paisagem é absolutamente fenomenal.

Estamos rodeados de montanhas com campos verdes cultivados em terraços. É uma vila aprazível com cafezinhos com boa comida e alguns hostels.
Depois de um lanchinho apanhamos outro combi até às ruínas de Pisac, na montanha.

Não me canso de dizer... a paisagem é deslumbrante. Vistas estrondosas do vale pontuadas por ruínas incas aqui e ali.







Há um trilho bem marcado que desce até à vila. Um dos passeios mais fantásticos de sempre.




Quando chegamos à vila continuamos a viagem pelo Vale Sagrado para Ollantaytambo, via Urubamba.

Está Sol. O verde vivo das plantações de milho alegra-nos, os glaciares suspensos no topo das montanhas junto a Urubamba, o rio que nos acompanha... tudo elementos que tornavam este um local sagrado.

Percebemos porquê.

23 de dezembro de 2009

CUZCO!

27-Setembro-2009

Cuzco é uma cidade fantástica!

Foi a capital do Império Inca e transformou-se na capital do Império Espanhol na América Latina na altura da Colonização. Assim, nota-se a influência espanhola na arquitectura da cidade. As praças são amplas rodeadas de arcadas e varandins. As casas estão pintadas ou revestidas a pedra e têm telhas... o que foi uma agradável mudança dos telhados de zinco da Bolívia...







Visitamos a Catedral da Plaza de Armas – riquíssima – e depois decidimos subir até à fortaleza de Saqsayhuaman. Já estamos aclimatizados mas é sempre difícil subir.

Lá em cima –tal como em muitos outros locais nesta região- conhecemos a mestria dos incas no corte da pedra: pedras gigantes cortadas milimetricamente para caberem no lugar a elas destinado. Absolutamente fenomenal. Adorei.








Cuzco é uma cidade de pedras sagradas.

BUS MEMORIES VI – Copacabana to Cuzco

26-Setembro-2009

Depois de regressarmos da Isla del Sol, decidimos saltar as ilhas flutuantes Uros e apanhamos o bus nocturno directamente para Cuzco, via Puno.
Temos que passar a fronteira para o Peru em Kasani-Yunguyo. Fácil. Nem revistam a bagagem.
Quando chegamos a Puno já é noite escuro e está a trovejar... vemos os relâmpagos a cair ao longe. Estamos a entrar no mês de Outubro e na época das chuvas no Peru...

Em Puno trocamos de autocarro. Temos que esperar 1:00. Estamos mortos de sono.
Quando vamos entrar no 2º autocarro (Puno-Cuzco) somos abordados por um senhor que pergunta se já temos alojamento em Cuzco... diz que vamos chegar lá às 4h30 (verdade)... diz que é difícil arranjar alojamento àquela hora (verdade)... diz que é mais caro que os outros sítios que conhecemos na Bolívia (verdade)... e diz que por 50 soles (12euros) nos reserva um quarto com água quente num tal Kamilah Lodge, bem no centro da cidade. Melhor é impossível.
O autocarro apita.... Dizemos-lhe o nosso nome, pagamos os 50 soles rapidamente e recebemos um voucher mesmo antes do autocarro arrancar...
...

Mas arrependemo-nos logo no primeiro kilómetro. Tínhamos acabado de dar dinheiro a um estranho em troca de um papel com valor nenhum, ele não ficou com uma cópia, nós não ficámos com nenhum número de telefone nem sequer a morada no suposto hotel, o nosso nome foi apontado no papel que ele nos entregou de seguida... um papel que supostamente valeria uma noite num hotel a 300km dali.....
... achamos que só pode ter sido um esquema para extorquir dinheiro a turistas... até já tínhamos ouvido falar desta parte da reputação dos peruanos... e nós de tanto querer que fosse verdade, acreditamos. Que anjinhos.
Desta vez custa-me a adormecer durante a viagem... até tenho pesadelos..

Damos o caso como perdido... mas quando de facto chegamos a Cuzco, ensonados das 8h de viagem, às 04h30... alguém chama por mim.... "Aleqqssssandraaa?"... Será possível?
Interiormente somos promovidos de anjinhos que nunca puseram o pé na rua a viajantes experientes que se misturam na multidão...

... de uma maneira ou de outra, dali a 20 minutos dormimos como anjinhos no Kamilah Lodge.

21 de dezembro de 2009

ventos do Lago Titicaca

26-Setembro-2009

Visitamos a Isla del Sol, a maior ilha do Lago Titicaca, onde segundo a lenda o deus inca Virakosha terá convocado o Sol e a Lua para que se erguessem do Lago. É um local sagrado.









A caminho de Copacabana avistamos uns "exemplos" de ilhas flutuantes... mesmo a calhar, já que vamos saltar as ilhas Uros, perto de Puno...

18 de dezembro de 2009

BUS MEMORIES V – La Paz to Copacabana

25-Setembro-2009

Dia de relax...
Acordar tarde... corpo moído...
São 10h40 quando apanhamos o autocarro em direcção a Copacabana nas margens do Lago Titicaca. A viagem dura 3h30 e é o entra e sai de pessoas com ramos de flores enormes ao longo do caminho.


O Lago é tão grande que parece um mar... temos que atravessá-lo de balsa no estreito na estrada que sai de Huarina.



Quando chegamos, Copacabana revela-se uma cidade agradável, com pontões e restaurantes improvisados onde comemos peixe de lago.





Copacabana é também um centro de peregrinação por causa da Virgem de Copacabana a quem são atribuídos vários milagres. Visitamos o santuário onde dezenas de pessoas acendem velas e deixam ramos de flores... alguns já meio amassados da viagem de autocarro desde La Paz..

A Virgem tem uma cara morena e traços andinos. Segura uma vela (referência à Virgem da Candelária muito venerada durante a conquista da américa latina pelos espanhóis) e tem aos seus pés uma lua crescente (símbolo pagão feminino).

As pessoas ajoelham-se e oram em silêncio... outras choram baixinho enquanto pedem as suas graças em línguas indígenas que não compreendemos..
Mas como portugueses temos a sensação que entendemos exactamente o que se passa aqui...

4 de dezembro de 2009

World Most Dangerous Road

24-Setembro-2009

O ponto de encontro é sempre o mesmo: Café Alexander, Av.Prado, 7:00.
Aos poucos junta-se um grupo de algo como 30 estrangeiros que se preparam para aquela que é vendida como a aventura mais wild da Bolívia: a descida do alto de La Cumbre a 4800m até Coroico a 1200m, pela antiga estrada do Yungas, mais vulgarmente conhecida como a Estrada Mais Perigosa do Mundo.
Escolhemos a agência Gravity Assisted Mountain Biking sediada em La Paz, simplesmente porque é a melhor.

Os 30 estrangeiros são divididos em 2 grupos. Somos apresentados ao Dave, o nosso guia neozelandês, a fazer uma perninha na Bolívia enquanto não continua a sua viagem pelo mundo.

No alto de La Cumbre dão-nos o equipamento “believe me you’ll need it!” (luvas, viseira, capacete, casaco e calças impermeáveis, colete reflector, protecção para pescoço) enquanto somos apresentados às nossas bicicletas que já vêm “calibradas” de acordo com as nossas necessidades e preferências, enviadas no momento da inscrição online (altura do banco, travão da frente do lado esquerdo).

Dave explica-nos as regras da descida, que basicamente se resumem a uma: nunca ultrapassar o guia que vai na frente do grupo. Ponto.
E depois de breves noções de mountain biking e do necessário sacrifício de álcool à Pachamama (a deusa da terra) começamos a pedalar.

(foto: wikipédia)


Estou ansiosa. Não sou grande master da bicicleta e só me lembro das imagens dos powerpoints que circulam nos emails, de camiões a cruzarem-se nesta estrada... e alguns com as rodas a resvalar no precipício. Aqui não há margem para erros..

Os primeiros troços são em alcatrão e sempre a descer, nem precisamos de pedalar.
A paisagem é do outro mundo. Mas estão sempre a alertar-nos para irmos com atenção à estrada e não olharmos para a paisagem... histórias de clavículas e costelas partidas sucedem-se...
Faço batota e fico prá trás... apesar de não ter máquina para fotografar tenho que gravar estas imagens na minha memória.




Fazemos várias paragens nas quais o grupo se junta e onde o Dave aproveita para nos explicar as características dos troços seguintes.
Atrás de nós, segue-nos de perto o mini-autocarro que nos levou a La Cumbre com bikes suplentes.


Em Unduavi (+- a 10km de La Cumbre) é o checkpoint da polícia onde são revistados todos os carros em busca de cocaína e/ou ingredientes não autorizados que podem levar à sua produção.

Os 40km que se seguem, de Unduavi a Coroico pela estrada velha são absolutamente estrondosos. Um agigantar dos sentidos em todas as direcções.

Antes de entrarmos no percurso de terra batida e na estrada velha propriamente dita reparamos no cartaz com o bodycount deste ano, como medida de sensibilização dos condutores... até agora 43 mortos.




Lama. Fazemos o percurso com chão lamacento e cascatas a inundar a estrada já de si estreita, atravessamos nevoeiro cerrado nas zonas mais altas... factor que ajudou os que sofrem de vertigens...
Em certas zonas a estrada é pouco mais larga que o próprio autocarro, os precipícios têm perto de 600m de profundidade... cruzes semeadas à beira da estrada sucedem-se... esquecemos as clavículas partidas... aqui contam-se outro tipo de histórias.

As regras de trânsito são diferentes... “keep your left”... ou seja, temos a indicação para percorrer a estrada pelo lado esquerdo, o que para quem desce significa ir junto aos precipícios. Foi o modo que encontraram para que os veículos que descem terem maior visibilidade nas curvas.

Fico pasmada com o estado da principal via de comunicação entre o Altiplano e a Amazónia, entre o Brasil e o Pacífico. Não admira o elevado número de mortos estimado em 300 por ano. Imagino em que condições terá sido construída pelos prisioneiros da Chaco War nos 1930’s.

Há alguns anos, para tentar reduzir as estatísticas catastróficas anuais, foi introduzido um esquema de tráfego alternado conforme os dias da semana, o que baixou consideravelmente o número de acidentes. No entanto os condutores de camiões rebelaram-se uma vez que isso prejudicava as suas receitas... e assim o tráfego foi reaberto nos dois sentidos.

Em Dez-2006 foi inaugurada uma variante multimilionária a ligar La Paz a Coroico que retirou finalmente a maior parte dos carros da estrada mais perigosa do mundo. No entanto alguns comerciantes continuam a fazer o caminho pela estrada antiga, por ter menos kilómetros e assim pouparem combustível... ainda que continuem a demorar mais tempo...




Para nós pareceu-nos uma autêntica ciclovia de curvas perigosas. Devemos ter-nos cruzado com 2 ou 3 carros a subir...

Em Yolosa acaba a descida. Faz calor e a lama desapareceu. Almoçamos na Senda Verde, uma organização non-profit onde se recolhem animais mal tratados ou retirados do mercado negro. Há duches quentes e piscina, mas eu perco-me no fetuccini à bolonhesa... à descrição...




Adorámos a subida de autocarro.
Adorei o facto do nevoeiro ter levantado ligeiramente e termos podido ver o cenário imponente, fantástico e aterrador em que nos encontrávamos.





À chegada a La Paz fazemos o bodycount: 0 feridos e 0 mortos. Sobrevivemos...
Nenhuma "história" para contar...

(2009-09-24 Ride photos by Gravity Bolivia)