10 de janeiro de 2011

feluccas @ Aswan

20-Outubro-2010

Se excluirmos os oásis no Sahara, esta é a cidade mais quente do Egipto, mas para nós foi uma autêntica lufada de ar fresco depois do bulício do Cairo. Mesmo com os 48ºC “feels like” 48ºC, o suor permanentemente a escorrer pelo corpo abaixo e a sensação de ter o cérebro a dilatar dentro da cabeça...

Isto porque aqui onde o deserto se fecha em dunas gigantes sobre o Nilo, Aswan oferece-nos um cenário delicioso e arrebatador.








E nada melhor que um passeio de felucca ao final da tarde para aproveitar os últimos raios de Sol, preguiçar e desfrutar de uma atmosfera tranquila...

5 de janeiro de 2011

Aswan timing

20-Outubro-2010

Aswan fica 950km a Sul do Cairo, mas a viagem nocturna foi um instante e sem nenhum incidente daqueles que, quem visse o 1º vagão do comboio cheio de militares fardados e armados, pudesse imaginar.

Mas antes de lá chegarmos já sabíamos que tínhamos o tempo contado. Uma das consequências do dia extra no Cairo.
E outra das consequências é a possibilidade fortíssima e quase garantida de não podermos visitar os templos de Abu Simbel.
Vicissitudes de quem tenta viajar durante 2 semanas como se tivesse 1 mês.

Mas durante o tempo em que temos de esperar na recepção do hostel, enquanto limpam o nosso quarto, decidimos seguir a estratégia de outros tempos e perguntamos onde podemos falar com um agente de viagens.

“Aqui mesmo!” Respondem.
Tal como nos outros tempos.

Perfeito.
O agente chega em 5 minutos e noutros tantos regateamos um cruzeiro no Nilo de 3 dias e 2 noites (Aswan - Kom Ombo – Edfu - Luxor por 40€ a noite, pensão completa).
Não que sejamos -como se sabe- grandes craques do regateanço.... e já nem a conversa do “somos estudantes” resulta tão bem como nos outros tempos.
Mas ele precisava mesmo de vender.

Depois na recepção do hostel garantem-nos que é o timing perfeito para ir e voltar a Abu Simbel.

Só que Abu Simbel fica ainda a 245km a Sul de Aswan, quase na fronteira com o Sudão. E tal como para viajar de comboio entre o Cairo e Aswan, também para visitar o templo do Sol de Ramsés II não é permitido aos estrangeiros ir como e quando lhes apetecer... é necessária uma escolta militar.

Como fomos percebendo não é fácil viajar independentemente no Egipto.
Simplesmente desaparece todo o conceito. Por isso temos que nos adaptar.

E adaptar a timings muito restritos. Estar a pé às 2h45, sair do hostel às 3h30, sair em convoy às 4h00, chegar a Abu Simbel às 7h00, sair de Abu Simbel às 9h30, chegar a Aswan às 12h30, zarpar em direcção a Luxor às 13h00.

Pegar ou largar.

Avizinhava-se um dia stressante por isso achamos que por enquanto este é o timing perfeito para preguiçar numa felucca com um karkady geladinho na mão.

4 de janeiro de 2011

train to Aswan

19-Outubro-2010

O comboio Cairo-Aswan, aquele onde os turistas podem viajar, sai às 20h30. Mas nós já estamos na estação às 19h30.

Para já, não gosto de chegar em cima da hora.
Histórias de overbooking e comboios que aparecem mais cedo é que não nos faltam... e depois, como boa train lunatic que sou, simplesmente adoro estar ali na estação a absorver o ambiente.

Só assim, a ver as pessoas a ir e a vir, a tentar imaginar de onde vêm e para onde vão e porque vão tão carregados, a tentar interpretar os placares dos horários em árabe, a meter conversa com a pessoa do lado...




... e também porque não há sítio nenhum onde me sinta mais viajante, como numa estação de comboios com a mochila às costas.

3 de janeiro de 2011

luz do Cairo


Coptic Cairo

19-Outubro-2010

A zona mais antiga do Cairo – Old Cairo – é aquela zona onde foi fundada a cidade de Fustat que floresceu antes da chegada do Islão ao Norte de África e muito antes do tempo de Salah ad-Din.

Este é o centro copta do Cairo. É aqui que se concentram muitos dos locais de culto da igreja cristã egípcia.

Mas encontrámos tudo em mau estado de conservação... e notei alguma falta de tolerância e falta de orgulho na preservação de algo que não é muçulmano.

Pesquisei e percebi que com a chegada do Islão, a população maioritariamente copta que existia na altura começou a converter-se gradualmente para não ter que pagar a jizya (a taxa per capita exigida pelos estados islâmicos a todos os seus cidadãos não muçulmanos) e hoje em dia, aparentemente para escapar ao estatuto social inferior, ou para poder desposar uma mulher muçulmana, já que o Corão proíbe matrimónios de muçulmanas com judeus ou cristãos....

Mas de volta ao Cairo cristão, encontrámos a igreja de San Sergius, que marca o sítio onde, alegadamente, a sagrada família se escondeu, após a sua fuga para o Egipto.

Segundo os livros sagrados, quando Jesus nasceu, em Belém, perto de Jerusalém, surgiu imediatamente o rumor de que tinha nascido o “novo rei dos judeus”, pelo que o rei que estava no poder, Herodes, com medo de perder o lugar no trono começou uma perseguição sangrenta a todas as crianças até aos 3 anos de idade, com o intuito de matar o “novo rei dos judeus” recém nascido.

Mas José, o pai adoptivo de Jesus, é avisado em sonhos por um anjo para se apressarem a fugir para o Egipto...


E quem andou na catequese, sabe que este foi um momento importante...

30 de dezembro de 2010

Museu de Antiguidades, a antiguidade

19-Outubro-2010

Ao 3º dia ainda não estou habituada à temperatura a rondar os 40ºC, por isso é com muita alegria que me aproximo do Museu de Antiguidades do Cairo.
Para além da expectativa que tenho, museus são sempre sinal de ar condicionado.
Ou... quase sempre.

O Museu de Antiguidades Egípcias do Cairo, fundado em 1858, é um dos museus mais formidáveis do mundo e desde sempre tive imensa curiosidade em visitá-lo.
Mas na realidade o Museu já é em si uma espécie de antiguidade.
Está muito desactualizado em termos de infra-estruturas, os artefactos para além de mal iluminados, amontoam-se uns em cima dos outros (consta que para além dos milhares de items que estão expostos, existem outros tantos escondidos na cave por não haver espaço para eles), não há praticamente legendas nos items em display sem ser em árabe... e para mal dos meus pecados, nem sombra de ar condicionado. Isso e os milhares de pessoas à nossa volta.

Mas apesar de tudo, sentimos claramente que qualquer uma das peças aqui expostas poderia perfeitamente ser a "highlight" de qualquer exposição de Egiptologia em qualquer museu do mundo.

E depois ainda há o Tutankamon...
A grande descoberta de Howard Carter em 1922, o túmulo do rapaz faraó, encheu as páginas dos jornais da época assim como as salas deste museu. Foi uma das maiores descobertas de sempre por se terem encontrado todos os tesouros do seu recheio ainda completamente intactos.
O ouro encontrado no túmulo, os vários sarcófagos, a estatuária, etc... estão dispostos ao longo dos corredores junto à movimentada galeria principal, onde se encontra a famosa e absolutamente espectacular máscara de ouro, lápis-lazuli, quartzo e obsidiana.

(não podemos fotografar dentro do museu, mas não resisto a colocar aqui esta foto fabulosa que encontrei no site da National Geographic.)

Tutankamon foi faraó durante apenas 9 anos e o seu túmulo encerrava riquezas incalculáveis... Isto faz com que seja fácil perdermo-nos a imaginar o que deveria existir, por exemplo, no túmulo do maior, mais poderoso e mais celebrado faraó do Egipto, Ramsés II, que reinou durante 67 anos.
Infelizmente o túmulo de Ramsés II foi assaltado várias vezes, encontra-se muito deteriorado e do seu espólio funerário restam poucos objectos, espalhados por vários museus do mundo....

No Museu de Antiguidades do Cairo há ainda a sala das múmias onde estão expostos os restos mortais de faraós como Seti I, o grande Ramsés II, Tuthmosis etc, todos com mais de 3000 anos...
Não visitámos por ser necessário pagar (bem) extra, mas achei engraçado descobrir que há uns anos, a múmia de Ramsés II foi enviada para Paris para ser examinada e “reabilitada”... e na altura para além de ter sido necessário emitir um passaporte onde constava “Ramsés II, Rei-falecido”, foi feita uma recepção com honras militares à chegada ao aeroporto em Paris.

29 de dezembro de 2010

Koshary experience

18-Outubro-2010

A hora de jantar é a hora perfeita para apanhar um taxi para o restaurante “Abou Tarek” sugerido no Rough Guide como o melhor sítio para comer koshary do Cairo... O que quer que isso seja.

E foi um verdadeiro achado!
Assim que entramos no estabelecimento reluzente do Abou Tarek, somos recebidos por um empregado sorridente que nos indica uma mesa.
Estamos ainda a olhar em redor quando o mesmo empregado nos põe um prato cheio de comida à frente...
“E o Menu?” perguntamos.
O empregado –simpatiquíssimo- responde: “Koshary! Aqui só se come Koshary!”

Fantástico! Olhamos e fazemos como as pessoas da mesa ao lado.
O Koshary é –a par do falafel- uma espécie de fast food típico egípcio, uma mistura de esparguete e arroz, com grão, lentilhas pretas, molho de tomate e cebola frita. E como percebemos mais tarde, o que não faltam são casas de Koshary em cada esquina das cidades egípcias.


O empregado sorridente de vez em quando vinha ter connosco e explicava como se faz: junta-se sumo de limão com alho e um pouco de picante. Pegava na nossa colher e misturava tudo.
Sorria e ao mesmo tempo exclamava “Koshary”!

Posso garantir que é fabuloso.

whirling dervishes

18-Outubro-2010

Mais tarde seguimos a recomendação do nosso mais recente companheiro de duty free e assistimos a um espectáculo grátis (!!) que acontece em alguns dias da semana: Whirling Dervishes no Wikalat Al-Ghuri, um antigo caravenserai para mercadores, no coração do Islamic Cairo.

Neste culto sufi os sacerdotes/bailarinos, pretendem ser “um” com Deus através de cerimónias de transe em que rodopiam sem parar durante horas.
O gesto de estender o braço direito para o céu e o esquerdo para o chão significa que as dádivas recebida por deus são distribuídas pela humanidade sem nenhuma parte ser retida pelo dervishe.

A percussão é fantástica, a música, as luzes, as cores... fiquei fascinada e tirei imensas fotografias que me coloriram o álbum até agora ainda tão amarelado.









16 de dezembro de 2010

Pyramid's time

18-Outubro-2010

As Pirâmides de Giza são provavelmente as construções mais instantaneamente reconhecidas de todo o mundo e para além desse, arrecadam muitos outros recordes: o local turístico mais antigo do mundo, um dos locais mais misteriosos de sempre por causa do seu processo construtivo e recursos humanos usados, a mais antiga e única Maravilha do Mundo Antigo que resistiu à passagem do tempo, etc... Basicamente um dos maiores feitos da Humanidade.
E nós, cheios de vontade de as ver.

Claro que, uma vez no Cairo, não é assim tão difícil ver as Pirâmides, dado o volume massivo que ocupam numa zona tão plana e sem construção em altura como é o planalto de Giza.
Depois, como se sabe não estão propriamente no meio do deserto como aparentam em algumas fotografias cuidadosamente enquadradas e em dias de boa visibilidade vêem-se desde a Cidadela.
Estão ali mesmo à beira da cidade do Cairo e por isso é muito fácil lá chegar.

Mas para além de todos os recordes magníficos e mirabolantes já referidos, as Pirâmides de Giza acumulam ainda outro recorde: são a maior “tourist trap” do mundo.
Não há nenhum estrangeiro que lá se dirija que esteja, digamos, de passagem.
E toda a gente sabe isso.
Por isso a primeira coisa a empacotar quando se sai para ver as Pirâmides, são grandes doses de sentido de humor, muita paciência e para os mais talentosos, dotes artísticos de regateanço.

Alugamos um taxista para nos levar lá, a Saqara e Memphis.
O Sol escalda logo às 9h30, não há 1 única sombra, o recinto das pirâmides tem quilómetros, e pior, os autocarros de turistas vão-se acumulando à entrada. Para além disso, o bilhete de entrada (60 EGP, 7.5€), só serve mesmo para entrar, porque dentro do recinto os turistas só não pagam para respirar...

Assim, decidimos regatear uma volta a cavalo para ver as Pirâmides por fora, e acabamos por entrar não pela entrada triunfal junto à esfinge, mas sim pela mais apropriada “porta do cavalo”.






Como percebemos quando lá chegámos, quanto mais longe das pirâmides estivermos, melhor a perspectiva... e que perspectiva...



Para os mais distraídos, as Pirâmides de Giza eram os túmulos dos faraós que reinavam na altura e têm algo como 5000 anos.
Segundo Herodoto, a grande Pirâmide de Queops levou 20 anos a construir, depois de 10 anos dispendidos na construção do acesso desde o Nilo necessário para a passagem das pedras, com pelo menos 2.5 toneladas cada. Estas pedras vieram de pedreiras de calcário na zona de Aswan e foram transportadas em barcos até Giza. Os carregamentos coincidiam com a inundação sazonal do Nilo (Julho-Novembro) e quando a mão de obra de camponeses era liberta do trabalho agrícola.
Alguns estudo mais recentes indicam que os 100 mil trabalhadores, em vez de escravos, eram pagos em comida pela sua prestação de 3 meses que era rotativa.

De uma maneira ou de outra, foi um trabalho megalómano em todos os sentidos, recompensado com uma espécide de imortalidade e indiferença à passagem do tempo.

All things dread Time, but Time dreads the Pyramids.

E andar a cavalo é praticamente como andar de bicicleta, não se esquece, por isso para mim (e para a minha imaginação fértil) cumpriu-se o desígnio de me sentir uma indiana jones no deserto...