30 de agosto de 2011

TRAIN MEMORIES: Beograd to Mokra Gora (I)

Manhã cedo. Estação de comboios de Belgrado.
Ao tentar comprar bilhetes percebo logo que é difícil comunicar.
Como não percebem inglês nem nós sérvio e não querem perder tempo a tentar decifrar-nos fazem-nos saltitar de guichet em guichet. 
Não é nada com eles. Não estão para se chatear.

O tempo a passar... e nós – à portuguesa  chegámos à estação mesmo em cima da hora do comboio. 
E não o podemos perder. Só há 2 por dia e o outro é à noite!
O mais fácil é pensar: “Como é possível, Na estação de uma capital europeia e ninguém sabe dar informações em inglês?!”... mas depois penso na estação de Santa Apolónia... será que um sérvio conseguiria entender-se por lá?

E o tempo a passar.
Quando por fim, depois de gramar com 3 filas de mochila às costas, me mandam para o 4º guichet e eu percebo que afinal é igual ao 1º, não posso senão – mesmo à portuguesa  passar à frente de toda gente, que fica a resmungar nas minhas costas.

Mas eu não percebo sérvio. 

26 de agosto de 2011

MOVIE @ Belgrado: UNDERGROUND


Sou das apaixonadas pelos filmes do Kusturica. Se há humor non sense de que gosto, é o dele.
E a perfeita banda sonora/visual de acompanhamento a uma visita a Belgrado é o filme UNDERGROUND, uma comédia negra e surreal passada durante a 2ª Guerra Mundial até aos anos da guerra nas Balcãs.
 

"Once upon a time there was a country... and it’s capital was Belgrade"


24 de agosto de 2011

uma noite em Belgrado

Ao deambularmos pelas ruas perguntamo-nos se alguém trabalhará nesta cidade.... As ruas estão cheias de gente tal como os cafés e esplanadas.
Em Belgrado parece que todos os dias são fim de semana.
E como lemos algures, se todos os dias são fim de semana, todas as noites são véspera de fim de semana...

Dizem que se nos abstrairmos do cliché que é Las Vegas, ou dos muitos locais na Europa durante a silly season...  Belgrado é “a” cidade da diversão nocturna por excelência. Cartazes nas ruas anunciam todo o tipo de espectáculos e eventos artístico-culturais: 3 dias antes tinha acontecido o que viria a ser o último concerto da Amy Winehouse, 15 dias depois seria o internacionalíssimo EXIT festival em Novi Sad... Esta é época alta de festivais também na Sérvia!
Não há falta de sítios para ir conviver e dançar...  e beber. Há bares para todos os gostos, em casas particulares, ao ar livre, em barcos ou em caves debaixo do chão...

Ao pôr do sol apanhamos um autocarro para o outro lado do Sava até Zemun nas margens do Danúbio. Esta zona, fora do pulsar do centro da cidade é perfeita para jantar num dos muitos restaurantes sobre o rio. 

Escolhemos o Saran um must de Belgrado... principalmente porque nos permitiu comer um belo peixe de rio sérvio regado com um belo fio de azeite português, isto ao som de música das balcãs tocada ao vivo como é costume por aqui.

Depois caminhamos até à zona de bares flutuantes, junto ao hotel Jugoslavija, a grande landmark da zona, bombardeado em 1999 pela NATO.
Esta é uma zona muito movimentada. Vamos por um passeio/ciclovia que se desenvolve ao longo dos 10km de Zemun a Belgrado. 
Reparamos que à meia noite as ruas estão cheias. De gente a andar de patins ou de bicicleta ou a passear, jovens, velhos, casais a namorar, crianças.
E é 3ª feira.

Alguém nos recomenda o bar flutuante Acapulco por ser popular entre os amantes de turbo-folk, um estilo de música originária nas Balcãs conhecida por misturar música popular folk sérvia com elementos de pop e dance music.
O Acapulco está vazio às 00h30, mas por aqui não faltam outros bares flutuantes para beber um drink.

Outro club da moda é o urbano Andergraund, junto à fortaleza de Kalamegdan. 
Por isso, depois do drink, em 2 minutos de taxi trocamos o ambiente ligeiramente decadente dos clubes flutuantes por um terraço moderno e fluorescente, com música vibrante e cheio de gente bonita... É uma daquelas noites quentes em que dançamos sem parar...
 
Belgrado e eu começámos com o pé esquerdo, mas depois percebi. 
É uma cidade muito boémia, moderna e apesar de não ter o factor “wow” de outras cidades europeias há todo um outro feel que torna esta numa cidade onde nos sentimos bem.

Quando saímos do frenesim do Anderground, de madrugada, caminhamos até ao hotel e pelo caminho continuam a chegar-nos sons de outras paragens, outras festas, outros concertos...

A noite ainda era uma criança.

O bom de Belgrado é que não se faz o que os turistas fazem e depois se restar tempo sai-se para viver a cidade. Não.
Em Belgrado vive-se logo a cidade, tal e qual como o corpo pede.

23 de agosto de 2011

um dia em Belgrado

Belgrado não é uma cidade bonita, lemos isso nos guias e nota-se... principalmente depois de chegar de Sarajevo. 
Arquitectonicamente, é um mix de edifícios imperiais e “bunkers” de cimento da era comunista. 
Isso e o cirílico fazem-me lembrar Moscovo.


Belgrado também é conhecida por ser a cidade das Balcãs onde a relação qualidade preço da acomodação é pior. 
Pois no hotel Royal, por 60€ (!!) tive que roubar as toalhas e o papel higiénico do quarto ao lado e só havia um lençol individual dobrado em cima da cama.
Soube mais tarde que este é um daqueles hotéis... onde certas senhoras de má fama ainda tentam regatear o preço por não ficarem a noite inteira... mas sim apenas umas horas..

Ultrapassada a questão hoteleira, fazemos o sightseeing na Knez Mihailova às 06h00, mas ainda demorou até conseguir um café, o primeiro bem essencial após uma noite mal dormida num autocarro.
Ou seja, pode dizer-se que para além das expectativas não serem altas, eu e Belgrado começamos com o pé esquerdo -como convirá nestas zonas.

Mas isso resolveu-se rapidamente.
Em oposição às cafetarias, as pékaras (pastelarias) abrem bastante cedo, para gáudio de viajantes madrugadores acidentais como nós... e para mim, o segundo bem essencial após uma noite mal dormida num autocarro é um croissant quentinho recheado do mais decadente chocolate ainda a derreter... porque eu mereço!

Começamos pela cidadela-fortaleza de Kalamegdan de onde avistamos a encruzilhada dos rios Sava e Danúbio. 
E onde mais tarde durmo uma sesta debaixo das árvores. 
O corpo pede, Belgrado dá.



Vamos de tram para todo o lado, herança austro-hungara. O que eu adoro.
O almoço é no obrigatório quarteirão boémio de Skadarska onde experimento o imenso hamburguer recheado, típico do país. 

Aqui vemos paredes grafitadas com arte, há flores nas janelas, a rua é empedrada e há bancos para sentar e ficar a ouvir o ocasional músico roma (cigano) e sua orquestra.


O café é no Supermarket. Fiquei fã.

Belgrado até pode ser uma cidade feia, se a compararmos às outras capitais europeias, mas o bom de Belgrado não está em monumentos apocalípticos ou numa arquitectura arrebatadora. 

O bom de Belgrado está nas ruas, na vibração que se sente, num certo sentimento de hedonismo, de parar para aproveitar a vida, de cultivar o que nos dá prazer.

E como em tudo na Sérvia isto faz-se acompanhados ou “orgulhosamente sós”.

9 de agosto de 2011

BUS MEMORIES: Sarajevo to Beograd

O nosso autocarro partia às 22h do terminal de Lucavica (lê-se Lucávitsa).
Às 21h apanhamos um taxi para lá…. Ainda é longe do centro de Sarajevo, muito mais longe do que podíamos imaginar. Está na Republica Srpska.
O nosso taxista avisa-nos para isso e diz que vamos encontrar diferenças. Percebe logo que vamos para Belgrado. É fácil. Da estação de Lucavica só saem autocarros para Leste.

Na estação de Lucavica está tudo escrito em cirílico e não entendemos uma palavra. É preciso puxar pela imaginação ao tentar imaginar as letras do alfabeto grego que conhecemos da matemática...
Uma senhora velha vestida como se fosse nova, de sapatos de verniz, cabelo despenteado e cigarro na mão vende-me os bilhetes sem olhar para mim.
Ninguém fala inglês.

Continuávamos dentro de Sarajevo?... Sim. Mas ao mesmo tempo já tínhamos deixado aquela Sarajevo que nos faz querer ficar mais tempo.
Percebemos o quanto Sarajevo e a BiH estão tão divididas, o quanto a guerra separa as pessoas e por motivos que para nós são tão difíceis de entender.

A viagem em si foi uma espécie de pesadelo, apesar de não ser assim tão longa (apenas 7h30).
Apesar de eu não ir a dormir.
Mas de noite, com as luzes apagadas, sem conseguir pregar olho, sem ninguém com quem conversar... e ainda, com alguns passageiros a festejarem a entrada na Sérvia fumando cigarros dentro do autocarro... esta viagem preencheu muitos dos requisitos para poder engrossar a minha lista das piores de sempre.

... mas nada que não se tenha curado com um café forte à chegada!

8 de agosto de 2011

Sarajevo – TUNNEL


Durante o cerco de Sarajevo pelas forças Sérvias, entre 1992-1995, nada entrava nem saía da cidade. A água, o gás, a luz e as telecomunicações foram cortadas, as armas e munições para se defenderem escasseavam. Era uma questão de tempo até a cidade cair.

Sarajevo está rodeada por montanhas, por isso é fácil imaginar onde se posicionaram os militares sérvios.


Mas os cidadãos de Sarajevo tiveram a ideia de escavar um túnel por baixo da pista do aeroporto, sob a zona supostamente neutra controlada pelas Nações Unidas, até ao território Bósnio.

O túnel de 800m foi escavado em 1993, por voluntários que trabalhavam em turnos de 8h, durante 4 meses. Consta que começaram nas pontas e encontraram-se no meio...

Por ele entraram 20 milhões de toneladas de comida e ajuda humanitária, electricidade, gásoleo, armas e notícias. 
O túnel foi a verdadeira linha de vida da cidade. 


Hoje apenas 20m de túnel restam e fazem parte de um museu bastante gráfico, com um video, imagens e artefactos como uniformes, sacos de ajuda humanitária vazios, vestígios de bombas... 


Bosnia-Herzegovina – it’s complicated...

A Bósnia-Herzegovina (BiH) é um país complicado!
Confluem no seu território 3 etnias cuja característica mais diferenciada é a religião. Ou seja, a BiH é composta por 3 povos constituintes: 45% Bosniaks (muçulmanos da BiH), 30% Sérvios (ortodoxos cristãos), 15% Croatas (católicos cristãos) e 10% de outros, em números redondos.

Na era pós-Tito (pós 1980), depois de colapsado o comunismo presente na região desde a 2ª Guerra Mundial, os líderes ultranacionalistas Milosevic (Sérvia) e Tudman (Croácia) planeavam dividir o território da BiH entre eles – metade para a Croácia e metade para a, na altura ainda, Jugoslávia/Sérvia. Mas estes planos não incluíam as opiniões do maior grupo étnico da BiH, os Bosniaks.
Assim, após um referendo em que 99% da população bosniak votou a favor, e sob a orientação do presidente Izetbegovic, a BiH declarou independência em 1991.
Isto trouxe grande instabilidade social uma vez que cerca de 30% da população (de etnia sérvia) não era a favor da separação da Jugoslávia.
A instabilidade social transformou-se rapidamente numa guerra civil.

Durante os anos de 1992-1995, as forças sérvio-bósnias apoiadas por Milosevic e pelo seu Exército Popular Jugoslavo atacaram a BiH de modo a tentarem assegurar o território com maior percentagem de habitantes sérvio-bósnios.
Isto levou aos episódios de “limpeza étnica” da população Bosniak, por todo o território leste da BiH, atingindo o seu expoente máximo no massacre de Srebrenica, em 1995.


Também a Croácia, com a divisão do território da BiH em mente tentou invadi-la junto à sua fronteira, onde existe a maior percentagem de população de etnia croata (católicos). Estes confrontos foram responsáveis pelo terror espalhado em Mostar e pela destruição da sua ponte histórica em 1993.

A BiH estava a ser atacada por todos os lados.
Foi várias vezes denunciado pelo presidente Izetbegovic, o “lavar de mãos” dos países ocidentais e o falhanço total em tentar conter a agressão sérvia.
Esta é, no geral, a consciência comum presente no país. Que os países ocidentais viraram a cara e as forças da NATO, vieram tarde e a más horas.
Assim, recorreram ao mundo árabe, nomeadamente ao Irão, para apoio.. Estes enviaram armas e os seus guerreiros sagrados mujahedin
Esta decisão não foi nada bem vista pela Europa pois começaram a surgir manchetes alarmantes: “Bósnia: pólo europeu de extremistas islâmicos!”
Uma bola de neve.

O que é certo é que Sarajevo esteve cercada 4 anos, antes das forças internacionais da NATO intervirem.
A formação da Federação Bósnia-Herzegovina (bosniaks e bósnio-croatas finalmente aliados) e os bombardeamentos da NATO fizeram com que a Republica Srpska recuasse.


A paz foi assinada no final de 1995, no acordo de Daytona, moderado pelos EUA.
Surgiram 2 entidades autónomas dentro do mesmo país: a Federação da Bósnia e Herzegovina e a Republica Srpska. Cada entidade tem a sua capital e as fronteiras estão perfeitamente definidas.
O país é uma républica com a presidência tripartida e cada etnia tem o seu representante: 1 bosniak, 1 croata, 1 sérvio. O cargo de presidente vai rodando pelos 3 ao longo dos anos de cada mandato...

Vive-se uma paz condicionada.
Porque quem vive aqui, sabe muito bem o que custa a guerra. 

4 de agosto de 2011

Sarajevo – Cicatrizes de Guerra

Sarajevo surpreendeu-me.

Pelas ruas cheias de gente a toda a hora e em todos os dias... muito embora isso seja o reflexo de um país com um índice de desemprego bem mais elevado que o nosso.
Surpreendeu-me pelo casario do subúrbio tipo “casa de campo” de telhado vermelho, ao contrário da “concrete favela” que eu imaginava numa cidade que saiu de uma guerra há apenas 15 anos.

E mesmo que ainda visíveis, os buracos das balas nas fachadas são pormenores que podem ir sendo reabilitados.


Mas ninguém fala da guerra. Como é óbvio não é algo que se queira recordar, por oposição ao ano de 1984 em que a cidade foi palco das competições olímpicas de inverno, sempre motivo de orgulho e sempre recordado e abordado nas conversas..

Ninguém precisa falar.

Apesar de tudo é algo que estará para sempre encastrado na paisagem de Sarajevo.
Através dos inúmeros cemitérios que surgiram nas colinas abruptamente durante os anos de 92-95.


E que são, provavelmente das visões mais impressionantes que já tive.






3 de agosto de 2011

Dveri - 'o' restaurante

Jantamos pimentos recheados no restaurante DVERI, que foi um autêntico achado!
Mas o melhor foi petiscar azeitonas com o pão “home made”, especialidade do restaurante.
Este é ‘O’ restaurante em Sarajevo!


 

as fotos foram retiradas no site http://www.dveri.co.ba/

Sarajevo - East meets West

Tinha muita expectativa para conhecer Sarajevo, a cidade que esteve cercada 4 anos durante a guerra declarada pela Sérvia, após proclamação da independência da Bosnia-Herzegovina (1992-1995), a cidade olímpica (inverno 1984), a cidade onde o Este se junta ao Oeste....

Quando chegamos está um tempo triste de céu carregado e cinzento.
Condiz com os prédios maltratados com as suas cicatrizes de guerra, as rajadas de tiros nas fachadas, os cantos esmurrados dos edifícios, os vidros explodidos etc...

Vemos ao longe as twin towers que foram incendiadas durante a guerra e depois assim permaneceram como a cicatriz mais marcante e visível até há poucos anos... vemos o holiday inn, o hotel dos jornalistas internacionais, o último hotel seguro da cidade... 

Mas rapidamente a cidade começa a palpitar à nossa frente.
E gosto logo da vibração.

Mesmo no centro da Old Town de Sarajevo fica a Pigeon Square, assim chamada por causa do grande número de pombos que se acumulam junto à antiga fonte otomana.
Chegamos lá depois de apanhar um tram da estação de bus.
Ficamos pertinho, na Pansion Lion.



 


Notam-se as influências à medida que percorremos a cidade.
Passeamos na Old Town ouvindo a chamada para a oração vinda das mesquitas. As ruelas são autênticos bazaares que não nos deixam esquecer da influência turca/otomana. Mas ao continuarmos pela rua Ferhadija, o domínio austro-hungaro é visível na arquitectura imperial e nas avenidas largas.

 


As colinas que cercam Sarajevo estão polvilhadas de casinhas de telhado vermelho que lhe dão um ar rural e pouco normal numa cidade capital. Adorei.



É uma cidade com diversidade cultural! Há raparigas de véu junto a meninas com look plastic model de mini-saia. Cafés que não servem álcool junto a cafés que só servem álcool. Bureks e  esparguetes à bolonhesa. 
O verdadeiro East meets West.

Há quem diga que quem vem a Sarajevo acaba sempre por ficar mais tempo do que pensa inicialmente.. 
Não fugimos à regra... Mal chegamos... começamos logo a pensar em como prolongar a estadia...