27 de abril de 2016

torres del paine #1: trekking world



As histórias sobre a Patagónia evocam invariavelmente paisagens de tirar o fôlego e para isso contribui, em larga escala, o Parque Nacional das Torres del Paine, no Sul da Patagónia Chilena, uma zona do mundo de terreno desafiador onde a estepe encontra os Andes imediatamente antes de estes mergulharem abruptamente no Pacífico.

Depois de uma longa viagem desde El Calafate, que inclui a travessia da fronteira da Argentina para o Chile, chegamos finalmente à Laguna Amarga onde somos recebidos por uma simpática manada de guanacos a petiscar arbustos à beira da lagoa.

É impossível não vibrar de emoção à medida que nos vamos aproximando do Parque Nacional, que culmina no momento em que avistamos ao longe as Torres gigantescas erguendo-se verticalmente do maciço montanhoso.




A Laguna Amarga é a zona de entrada no Parque onde compramos o bilhete e aguardamos por um transfer que nos leve para o sector Las Torres onde vamos iniciar a nossa caminhada. Enquanto esperamos, vemos muitas pessoas de pés descalços, a relaxar na relva verde, recostadas sobre as próprias mochilas. Provavelmenre acabaram de chegar das suas caminhadas e aguardam pelo próximo autocarro de volta a Puerto Natales. Mal podemos esperar para saber o que estarão a sentir, para além de cansaço. Para já, ainda só sabemos que estamos a chegar a uma daquelas zonas que aparecem sempre no top 10 de qualquer ranking de trekkings do mundo.

A caminhada mais procurada das redondezas é o “Circuito W” que se faz em 4-5 dias e nos leva às melhores vistas do Parque. Estas vistas incluem lagoas azul-turquesa, glaciares colossais e montanhas recortadas, formidáveis. Quem tem mais tempo aproveita para fazer o “Circuito Completo” que para além dessas vistas circunda todo o maciço Paine e demora 8-10 dias.


As noites podem ser passadas em refúgios ou parques de campismo, que são geridos por 2 entidades: Fantastico Sur (ex: Chileno, Cuernos) e Vértice Patagónia (ex: Grey, Paine Grande). Os acampamentos into the wild, que são as zonas onde é permitido o acampamento dito “selvagem”, grátis e por isso básico, são geridos pela CONAF a entidade responsável pela conservação do Parque (ex: camp Torres e camp Italiano).

É preciso considerar que as caminhadas nas Torres del Paine são muito mais movimentadas do que as caminhadas em El Chalten, ou seja, os refúgios mais solicitados esgotam com semanas de antecedência e até para acampar em alguns parques de campismo (seja nos que existem junto aos refúgios, ou nos acampamentos into the wild) poderá ser necessário reservar.

Tal como em El Chalten, optamos por acampar, em nome da aventura, do back to basics, da flexibilidade do itinerário e da boa saúde do porquinho mealheiro. Os refúgios, para além de concorridos, são muito caros.

Para caminhar nas Torres del Paine não é necessário guia, os trilhos são fáceis de seguir e estão todos muito bem sinalizados.
No entanto, é preciso dizer, algumas caminhadas não são extremamente acessíveis. Algumas partes do trekking são literalmente longe de tudo, no meio da Natureza, com recursos limitados, onde a comida, água, etc, chega em caravanas de cavalos, ou às costas de porters e onde a estrada mais próxima poderá estar a mais do que um dia a pé de distância. 

A dificuldade das caminhadas é um assunto muito relativo que para além do estado de “fitness” do caminhante, dependerá, naturalmente, do clima e do peso da mochila.
No meu caso, não sendo uma pessoa especialmente “fit”, e tendo que carregar uma mochila de 12kg, confesso que no início talvez não estivesse muito optimista, mas no final dos 4 dias concluí, orgulhosamente, que tudo é possível.

“If you really want to do something, you’ll find a way. 
If you don’t, you’ll find an excuse”.
Jim Rohn

14 de abril de 2016

vida na estância



Numa zona do mundo com clima tão hostil, muito frio, seco e com um vento arrasador, é fácil imaginar que a agricultura sempre esteve muito limitada.
Por isso a economia da Patagónia desenvolveu-se e prosperou fundamentalmente devido a actividades relacionadas com a pecuária.

O povoamento desta região baseou-se na distribuição de terras para estabelecimento de estâncias destinadas a criação de ovelhas. As terras eram concedidas e após um período de arrendamento, caso cumpridas as exigências de permanência, tornavam-se propriedade do ocupante.
Ou seja, uma “estância” era o lugar para se "estar".

As ovelhas foram trazidas pelos ingleses para Patagónia no fim do sec XVII, e os primeiros negócios dedicavam-se apenas à produção de lã devido à inexistência de instalações frigoríficas.

Por toda a Patagónia encontramos muitas estâncias que hoje em dia também acolhem turistas e lhes possibilitam contactar e aprender sobre as diferentes tarefas diárias dos gaúchos da Patagónia.

Ver os gaúchos trabalhar como o gado, tosquiar ovelhas ou percorrer o campo a cavalo são algumas das actividades possíveis de rechear uma experiência de vida na estância, que o mais certo é terminar à mesa, a saborear um belo asado argentino acompanhado por um tinto malbec.








Estas fotos foram tiradas na Estância Nibepo Aike, perto de El Calafate. 


11 de abril de 2016

perito moreno

Perito Moreno, o homem, era um explorador argentino, especialista na Patagónia, que nessa região ajudou a definir a linha de fronteira entre a Argentina e o Chile, com base na linha de cumeada das montanhas dos Andes, no entanto nunca chegou a ver o glaciar que hoje leva o seu nome e que é, provavelmente, o glaciar mais conhecido do mundo.

Desde El Calafate é muito fácil visitar o glaciar Perito Moreno. Existe uma estrada que liga a cidade à península de Magalhães, onde o glaciar desemboca, literalmente, e nesse ponto de encontro foi colocado um conjunto de passadiços que permitem ao visitante observar os vários ângulos do glaciar.  

Mesmo de perto.


Essa proximidade, que possibilita uma experiência espectacular, também faz com que este seja o glaciar mais famoso do mundo, mas existe uma “multidão” de outros glaciares ligados ao Campo de Gelo Patagónico Sul, igualmente espectaculares, apenas não tão acessíveis para o comum dos visitantes.

O glaciar Perito Moreno tem outra importante característica que é a de ser um dos únicos glaciares do mundo que, para além de não estar em regressão, até está a crescer. Ou seja, o seu ritmo de formação na base é superior ao ritmo de desprendimento de blocos na frente, de modo que o seu avanço é constante.


Ficar à espera de ver o desprendimento de blocos na frente do glaciar é uma experiência tão sedentária quanto emocionante. São blocos do tamanho de contentores que sem prévio aviso se desprendem e caem nas águas do Canal de los Tempanos (canal dos icebergues), num splash gigante, acompanhado por um som de trovão que ecoa no vale e pelas respectivas ondas que agitam a água até à península de Magalhães.



Como está em crescimento, de tempos a tempos, o glaciar alcança a península, bloqueia a passagem de água entre os braços do Lago Argentino e forma-se uma pequena barragem que faz aumentar o nível da água do braço Sul do Lago.
A pressão causada pelo aumento do nível de água vai desgastando o gelo até se formar um túnel que permite a passagem da água. Com o passar do tempo e da água, o túnel vai aumentando e transforma-se numa ponte que acabará por colapsar num fenómeno chamado "ruptura do glaciar".

O ciclo de ruptura do glaciar é irregular e pode ocorrer a cada 2-4 anos, ou 10. 
A última ruptura aconteceu no dia 10-Março-2016. (Estas fotografias foram tiradas no dia 25-Fev-2016)


Para além de observar o glaciar Perito Moreno percorrendo os vários quilómetros de passarelas, também existem outras opções para o apreciar em todo o seu esplendor. 
Por exemplo, de barco, numa navegação no Lago Argentino que nos aproxima também de outros glaciares (Upsala, Spegazzini), ou a pé, no mini-trekking que nos leva a caminhar sobre o seu azul infinito.







De uma maneira ou de outra, visitar o Glaciar Perito Moreno (património da Unesco) é uma experiência inesquecível que uma vez mais nos recorda de como a Natureza é poderosa, sublime e genial.

6 de abril de 2016

el chalten #6: mirador de los condores

El Chalten oferece muitos tipos de caminhadas. 
Desde estiradas de várias horas entre acampamentos à beira das montanhas, até expedições de vários dias no Campo de Gelo Continental Patagónico. 
Mas também caminhadas curtas e perfeitas, por exemplo, para quem tem uma horinha para gastar antes do autocarro de volta a El Calafate.

Uma das caminhadas mais curtas desde El Chalten é a que nos leva ao Mirador de los Condores de onde podemos apreciar panorâmicas dos maciços Adela, Torre e Fitz Roy, e do vale do Rio de las Vueltas.

O trilho começa no Centro de Visitantes do Parque Nacional e como sempre está muito bem assinalado ao longo de toda a subida.



Como o nome indica, é um ponto estratégico para a observação de condores que passam frequentemente no seu vôo deslizante e é ainda outra alternativa para apreciar as vistas que nos fizeram apaixonar por estas montanhas.

Chalten, vamos ter saudades.


Dados (aproximados): distância: 2.5km | duração: 1h30 | desnível total: 100m(up) 100m(down) 


4 de abril de 2016

el chalten #5: glaciar piedras blancas

Posso dizer que ver o Fitz Roy ao amanhecer actua como uma injecção de felicidade.
Senti-me como se tivesse presenciado um daqueles eventos místicos e raros que precisam de vários planetas alinhados para acontecer. 

Mas ainda havia tanto, e tão bonito, por ver.


De volta ao Camp Poincenot seguimos o trilho para a Hosteria del Pilar, uma longa descida acompanhando o Rio Blanco, com fantásticas vistas para o Glaciar Piedras Blancas de onde, de vez em quando, se iam desprendendo blocos de gelo que ficavam a flutuar na lagoa.

A cor azul turquesa esbranquiçada da água que vemos nos rios, lagos e lagoas deve-se às partículas em suspensão que resultam da abrasão do gelo dos glaciares na base rochosa. 



O azul do glaciar é um azul vivo e saturado, ganhando tonalidades impressionantes ao mínimo raio de Sol.

É impossível não ir pensando na sorte que é andar a passear por aqui, quase que até já nem sentia o peso da mochila. 
Vou cantarolando caminho abaixo mas sou interrompida pelo "toc-toc-toc" dos pica-paus Magalhães. Tão atarefados!


À medida que vamos descendo também nos vamos afastando das montanhas e ganhamos outra perspectiva dos vários glaciares que derivam do Campo de Gelo Continental Patagónico Sul, um dos pontos de fronteira entre a Argentina e o Chile.



E quando, por fim, chegamos cá a baixo, onde o Rio Blanco desagua no Rio de las Vueltas, podemos finalmente descansar e fazer o balanço dos primeiros 3 dias de caminhadas na Patagónia Argentina.




Dados (aproximados): distância: 7km | duração: 3h00 | desnível total: 50m(up) 300m(down) 

1 de abril de 2016

el chalten #4: sunrise na laguna de los tres

A caminhada mais popular de El Chalten é a subida à Laguna de los Tres, o miradouro natural com as vistas mais espectaculares para o pico Fitz Roy e suas agulhas graníticas periféricas, com o bónus de ser à beira de uma lagoa.

É uma caminhada popular mas ganha todo um especial significado se for feita de madrugada, permitindo ao caminhante estar o mais perto possível da montanha quando ela explode em tons de vermelho, durante aqueles mágicos dez minutos que acontecem ao nascer do Sol.

Por esse motivo, o despertar no Camp Poincenot costuma ser bem cedo.
Deixamos as coisas na tenda e aproximadamente 1h30 antes do nascer do Sol saímos do acampamento em direcção à Laguna de los Tres.

Atravessamos o Rio Blanco e passamos pelo respectivo acampamento, para alpinistas. A partir daí entramos num trilho de pendente muito elevada de aproximadamente 450m de desnível, que nos levará um pouco mais de 1h00 a vencer.

A subida é dura. Por vários motivos: porque é de noite e as lanternas têm as suas limitações; porque estamos a subir um curso de água congelada e então vou escorregando passo sim passo não; porque à medida que vou subindo vou ficando suada, com a roupa encharcada, mas continuo sempre de nariz e bochechas gelados; porque estava tanto frio quando saí da tenda, de tal modo que achei que não ia precisar de água mas agora tenho tanta sede que quero lamber o gelo do chão; porque vou ouvindo o barulho metálico de dezenas de trekking poles atrás de mim que me fazem sentir numa competição que não vou vencer, dezenas de pessoas atrás de mim a ofegar, a aproximarem-se e a morderem-me os calcanhares; porque estou cansada mas tenho medo de não chegar a tempo, e tenho mesmo que chegar a tempo.

“Que raio de urgência é esta? Andar aqui montanha acima à caça de raios de Sol?”  - vou-me perguntando. "Valerá a pena?"

...

Mas depois passa-me rápido. Sim sim. Passa sempre.
Chegamos à Laguna, surge o primeiro raio de Sol, desaparecem-me todas as questões. 
Simples.

A vista das montanhas aguçadas na Laguna de los Tres já é lindíssima, mas quando os raios de Sol atingem o Fitz Roy, sou inundada por poesia visual. 
Rendo-me, completamente, à montanha de fogo que parece mentira mas não é.

À minha montanha de fogo.





Dados (aproximados): distância: 2.5km | duração: 2h00 | desnível total: 500m(up) 500m(down) 

30 de março de 2016

el chalten #3: madre e hija

Para chegar ao Camp Poincenot (junto ao Fitz Roy) saindo do Camp DeAgostini (junto à Laguna Torre), é necessário fazer o mesmo trajecto que fizemos para chegar à Laguna Torre no sentido inverso durante aproximadamente 4km, e depois virar/subir à esquerda, pelo trilho das Lagunas Madre e Hija.

A subida em direcção às lagoas é bem longa, as mochilas pesam e pelo caminho vamos pensando que não admira que só passem pessoas em sentido contrário.

De pernas pesadas mas espírito alegre continuamos e congratulamo-nos por notar que o clima vai melhorando assim que saímos da alçada do glaciar que está sob o Cerro Torre.
O Sol brilha e até faz algum calor, mas é calor como em “conseguimos despir o casaco quando está Sol”, porque na prática continua bastante frio e o vento é gelado.


Junto às Lagunas Madre e Hija esse vento levanta-se impetuoso e irrita a água que nos respinga, mas o caminho torna-se mais plano, menos cansativo e assim começo a prestar mais atenção aos detalhes da vegetação, cores e texturas que me rodeiam.
É um passeio delicioso beijado pelo Sol.





Montamos a tenda no Camp Poincenot, que tal como o Camp DeAgostini é grátis e por isso básico. Mas ao contrário do Camp DeAgostini, que estava vazio e nós praticamente sozinhos, o Camp Poincenot está bastante composto quando chegamos, passando a apinhado tipo festival de verão, com o passar das horas.

Para além do ocasional viajante solitário, e dos vários casais, chegam também vários grupos numerosos com guias, ultra equipados e preparados, e vários bandos coloridos de gap year kids, barulhentos e especialistas em tropeçar nas tendas alheias.

No Camp Poincenot, estamos claramente muito perto da zona de maior interesse e convergência do Parque.

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Mental Note 3: Não pensar, em momento algum, que no fim de Fevereiro se viaja "sozinho" na Patagónia.

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Ao pôr do sol, noto um reboliço anormal fora das tendas, ouvem-se várias línguas ao mesmo tempo, mais entusiasmadas, espreito e vejo pessoas a pegarem nas máquinas fotográficas, iPads, telemóveis e a apressarem o passo.

Saio da tenda, curiosa, e é como se levasse uma chapada visual da montanha. 
Um momento que nunca esquecerei.
Avisto pela primeira vez o pico Fitz Roy, em contra-luz, envolto na bruma, qual aparição. 


“É gigante e está mesmo aqui…” 
Ainda não me tinha apercebido de como estava tão perto.

Passamos o resto da tarde sem conseguir desviar os olhos da montanha, a apreciar cada movimento da neblina, mudança de sombra ou luz. Estamos hipnotizados.

Os índios Tehuelche, que viviam na Patagónia há centenas de anos, chamavam a esta montanha Chalten, que quer dizer montanha de fogo ou montanha fumegante.

Não conseguiria pensar num nome melhor.


Dados (aproximados): distância: 11km | duração: 5h | desnível total: 480m(up) 250m(down) 

28 de março de 2016

el chalten #2: senda a laguna torre

De El Chaltén, saem dois caminhos que se juntam após 10 minutos e que levam ao início da Senda a Laguna Torre.

A primeira parte do percurso é sempre a subir, mas a chuva amaina quando chegamos ao miradouro da Cascata Margarita.



Ao longo do trilho somos acompanhados pelo Rio Fitz Roy que corre em sentido contrário, pelo imponente Cerro Solo e pelo omnipresente vento que desce do glaciar e nos gela cada centímetro de pele exposta.

Também nos cruzamos com algumas pessoas, outros caminhantes, que nos cumprimentam: - “hola!”. Muitos vão mais leves que nós, já estão a voltar da sua caminhada diária até à Laguna Torre.

De vez em quando o Sol ameaça rasgar as nuvens, mas relembramos os comentários dos guardaparques: hoje será muito pouco provável que alguém consiga ver a agulha do Cerro Torre, é uma montanha teimosa que está muito perto do glaciar e muitas vezes nem em dias de Sol e céu azul se deixa ver. 



E assim foi até chegarmos ao Camp DeAgostini.

O acampamento é no meio de um bosque junto à lagoa, mais abrigado das rajadas de vento. É um acampamento grátis e por isso básico, sem nenhum tipo de apoio ou abrigo, apenas um WC e espaço designado para montar tendas.

Depois de montarmos a tenda vamos até à Laguna, a 10 minutos de distância. 
A visibilidade é muito baixa mas conseguimos ver o glaciar ao longe de onde se vão desprendendo blocos de gelo que depois ficam a flutuar na lagoa.


Com o aproximar da noite levanta-se mais vento e a chuva chega em pancadas fortes espaçadas no tempo.

Felizmente a impermeabilização da tenda vai aguentando e lentamente a noite gelada vai dando lugar à manhã seguinte.

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Ocorre-me agora acrescentar aqui umas dicas no verdadeiro estilo “não faças como eu fiz” que poderão eventualmente ser úteis a quem ler estas linhas.
São uma ou outra mental note que deixei a mim mesma, decorrentes dos erros próprios de uma beginner nestas andanças:

Mental Note 1: Não pensar que o saco-cama super light e minúsculo que levas para a Costa Vicentina no Verão é suficiente. Não é. Nem dormindo com toda a roupa que trouxeste vestida.

Mental Note 2: Não acampar em terreno demasiado plano. Se chover durante a noite no outro dia acordas dentro de uma banheira.

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O dia amanhece cinzento no Camp DeAgostini, tal e qual como o dia anterior. 
Por isso, enterramos a réstia de esperança que subsistia de talvez ainda podermos ver o Cerro Torre, mas numa de despedida voltamos à Laguna.

Quando chegamos percebemos que afinal nem tudo estava assim tão tal e qual.
A chuva que não nos deixou dormir a noite toda, tinha sido neve uns metros mais acima. 

Ora, descubra as diferenças:

 dia 1 à tarde

dia 2 de manhã



Dados (aproximados): distância: 10km | duração: 4h | desnível total: 350m(up) 115m(down) 

24 de março de 2016

el chalten #1: capital do trekking


A pequena povoação de El Chalten está localizada na zona Norte do Parque Nacional dos Glaciares. Apesar de ter sido fundada nos anos 80 para assegurar território à Argentina (durante um período conturbado de disputa de fronteiras com o Chile), nos dias que correm é muito mais conhecida por servir de base de exploração e apoio logístico ao crescente número de entusiastas da montanha que sazonalmente visitam a região, com o objectivo de caminhar nos percursos próximos aos picos mais famosos das redondezas: o maravilhoso Cerro Fitz Roy e o caprichoso Cerro Torre.

Assim que chegamos à vila somos recebidos pelos guardaparques do Parque que nos fazem uma pequena apresentação dos trilhos recomendados e disponíveis, dos tempos aproximados que levam a percorrer, da fauna que podemos encontrar e de algumas regras de coexistência e preservação do ecossistema.

Uma das coisas mais fantásticas de El Chalten, é que os percursos são muito acessíveis, ou seja, a vila está situada tão perto das montanhas que é possível fazer caminhadas diárias ultra-panorâmicas de ida e volta e ficar a dormir num hostel na vila, sem ser necessário preocupar com dormir em tenda, WC into the wild, a logística das comidas e a inquietação de carregar uma mochila pesada.

Mas no nosso caso optamos por acampar. Em nome da aventura e do back to basics, mas também em nome da flexibilidade do itinerário e da boa saúde do porquinho mealheiro. Os alojamentos, quer em Chalten, quer nas Torres del Paine, para além de serem muito caros, podem facilmente esgotar na época alta. 
Ter de reservar (e pagar) com muito tempo de antecedência retira a flexibilidade aconselhável a uma experiência que pode muito bem necessitar de ajustes devido à meteorologia.

Para além do alojamento, outra das questões mais frequentes é se é necessário recorrer ao serviço de um guia ou se os trilhos são fáceis de seguir indo sozinho: em El Chalten, os percursos mais conhecidos estão todos bem sinalizados e são muito fáceis de seguir. Não é necessário contratar guia, nem levar GPS, nem sequer mapa.


“Naquela direcção encontram o Fitz Roy, naquela fica o Cerro Torre, mais além o Glaciar Piedras Blancas”, continuava o guardaparque, apontando para o horizonte.

A expectativa era muita mas a verdade é que, por muito que abríssemos os olhos, não conseguíamos ver nenhum dos pontos de interesse referidos. A visibilidade estava próxima de zero. 
Não fazíamos ideia de onde se localizavam, se estariam perto ou longe.

E, para culminar, dali a pouco começava a chover.

Ou seja, a nossa caminhada estava perto de se tornar tudo excepto ultra-panorâmica. Senti a necessidade de aventura fraquejar. Dúvidas e pensamentos do tipo “Vim para tão longe e para além de não ver as montanhas, agora ainda vou acampar à chuva?”, surgiram-me automaticamente.

Mas não havia grande coisa a fazer. 
O nosso parque de campismo estava a 10km e 4h de distância. 
Compramos mantimentos para os 3 dias seguintes e pomo-nos a caminho debaixo do céu cinzento, procurando ajustar o mindset:

“Patagonia, give me everything you’ve got.”