4 de janeiro de 2017

pula [istria romana]


Acho que podemos dizer que foram os Romanos a colocar Pula no mapa. Percebemos isso mal chegamos à cidade ao darmos de caras com o impressionante anfiteatro romano, construído no séc. I.

É uma estrutura enorme e verdadeiramente magnífica construída com o intuito de albergar as tradicionais competições de gladiadores e uma assistência de até 20000 espectadores. É conhecido localmente por Arena e é a principal atracção da cidade, mas é acompanhada por arcos triunfais, templos, mosaicos e outros adereços característicos do status de importante centro comercial imperial.





Pula surge virada para o mar mais como uma cidade portuária com os típicos “vai e vem” de barcos comerciais e as respectivas movimentações de gruas e contentores. Mas tem um centro histórico cheio de recantos e detalhes que me fez lembrar porque gosto tanto de visitar a Croácia.








3 de janeiro de 2017

istria [by the sea]

Uma das coisas mais espectaculares de viajar na Europa é o sem número de possibilidades que existem praticamente ao virar de cada esquina. Como portuguesa, por viver neste cantinho à beira do Atlântico, ainda me consigo surpreender com isto.

Então, depois de enfiarmos as vias ferratas no saco, saímos da alçada das montanhas e descemos até ao mar Adriático e à península da Ístria, na Croácia, uma península em forma de coração mesmo a sul de Trieste. Para lá chegar atravessamos 2 fronteiras (Eslovénia e Croácia), algo ainda perfeitamente indolor numa Europa global.

Eu já tinha estado na Croácia de outras vezes, mas noutras zonas, então na verdade, não fazia ideia do que nos esperava na Ístria, só sabia que existia um anfiteatro romano em Pula, e como tenho um fraquinho por ruínas romanas, pareceu o sítio certo para começar. 
Assim, sem mapa, sem internet e sem saber o nome das cidades, fomos seguindo as direcções “Pula/Pola” e ao final da tarde já tínhamos trocado os apfelstrudels do Sudtirol pelos bureks da Croácia.



Como viemos a perceber, a península da Ístria é outra zona marcada por avanços e recuos fronteiriços, com um legado cultural vasto e complexo. Desde os Romanos, que transformaram Pula num importante centro urbano, à enorme influência Veneziana na Idade Média, Austríaca que passou a Italiana depois da 1ª Guerra Mundial, e por fim Jugoslava.

A costa oeste da Ístria é a zona mais desenvolvida da península e está repleta de resorts que tornam o acesso ao mar por vezes desafiador, mas também encontrámos locais históricos maravilhosos como a Basílica Eufrasiana de Porec, um antigo porto veneziano muito romântico em Rovinjrecantos deliciosos e peixe fresquíssimo, tudo borrifado por uma maresia salgada que nos relembrou que ainda estávamos no Verão e nos fez matar as ubíquas saudades do mar.







Stay tunned.

30 de dezembro de 2016

lagazuoi

Algumas das caminhadas mais emocionantes e exigentes da Alta Via 1, situam-se perto do Passo Falzarego, outra zona de enorme interesse histórico devido à presença de importantes vestígios de batalhas da Primeira Guerra Mundial.

Aqui se fixaram as primeiras vias ferratas de Itália que ajudaram os soldados a movimentar-se com segurança e mais rapidamente pelas montanhas quase verticais do Monte Lagazuoi (2750 m).
Este é o ponto mais alto do percurso da Alta Via 1, de onde é possível aproveitar panorâmicas maravilhosas de perder de vista.

Estava muito entusiasmada com a hipótese de explorar este local e o que sonhei com as vistas do terraço do Refúgio Lagazuoi, reservado para essa noite.
Mas, como sempre, a montanha é que manda e quando chegamos ao Refúgio, depois de apanhar o teleférico desde o Passo Falzarego, as vistas até se iam revezando com os nevoeiros, mas todos os trilhos estavam debaixo de neve.

Excepto um: a famosa Galleria Lagazuoi, um túnel de guerra escavado na rocha, que atravessa a montanha de alto a baixo pelo seu interior.




A caminhada até à entrada da galeria é uma experiência excepcional, pela paisagem em que se insere (que fomos apreciando nuvem sim, nuvem não) e pelas suas características que nos permitem ter uma ideia das dificuldades extremas em que operavam os soldados de ambos os exércitos.

As cicatrizes das batalhas que aqui aconteceram há 100 anos (entre 1915 e 1917) ainda são reconhecíveis, tais como trincheiras, esconderijos, arame farpado e outras relíquias da Primeira Guerra Mundial que podem ser encontradas junto aos troços originais da via ferrata.




Entramos na galeria atravessando uma porta de madeira no topo de uma escarpa que aparentemente não leva a lado nenhum e lentamente vamos descendo os 650m de desnível até ao Passo Falzarego. 
Ao longo da descida encontramos as habituais janelas de snipers, divisões para armazenamento de mantimentos, abrigos e várias ramificações do túnel principal. 






Com o adensar do nevoeiro na via ferrata de Cengia Martini, a paisagem desaparece, e nós damos a mão à palmatória: decidimos cancelar os refúgios marcados, descer à cota zero e apontar agulhas para o Adriático. 

Mas deixamos as Dolomites, já a pensar em agendar um regresso.



28 de dezembro de 2016

badia

A Alta Via 1 desenvolve-se sensivelmente ao longo das cumeadas das montanhas entre Dobiacco e Belluno mas pontualmente desce aos vales e cruza estradas e caminhos que possibilitam a “entrada” ou “saída” àqueles que pretenderem percorrer só uma parte do percurso.

No nosso caso, juntar-nos-íamos à Alta Via 1 em Fanes, a partir de Badia, depois do trilho que nos levaria ao topo da Forcella de Medesc (2591 m).

No entanto, o nevão dessa manhã, que sentimos junto às montanhas de Tre Cime di Lavaredo, tornou alguns caminhos intransponíveis por isso optamos por diminuir a altitude das nossas andanças e ficamo-nos pelo vale de Badia.

Não podia ser um local mais pitoresco.


Badia é uma vila tranquila que mantem o seu charme rural, é conhecida por albergar uma das maiores comunidades Ladin do Sudtirol, por preservar o seu idioma, a sua cultura e organização baseada em políticas de auto-suficiência, as suas tradições de harmonia entre pessoas e natureza e por ser uma verdadeira preciosidade no que diz respeito à arquitectura agrícola alpina.  








19 de dezembro de 2016

lago di braies


O Lago di Braies é um lago muito fotogénico junto à cidade de Dobbiaco, dentro do Parque Natural Fanes - Sennes - Braies.

Fica no sopé da parede de rocha Croda del Becco que se eleva majestosamente centenas de metros à frente das águas serenas cor de esmeralda.

Este é o ponto de partida da Alta Via 1, a caminhada clássica das Dolomites, que inicia neste ponto e durante 10 dias percorre as montanhas até ao Monte Schiara perto de Belluno. 



16 de dezembro de 2016

dolomiti di sesto [tre cime di lavaredo]


O Parque Nacional das Dolomites de Sesto é um dos locais imperdíveis numa visita às Dolomites. A sua singularidade deve-se não somente à esplêndida paisagem mas também ao seu valor cultural e histórico pois foi neste local que aconteceram importantes batalhas entre a artilharia italiana e austríaca durante a 1ª Guerra Mundial. 

Hoje, é impressionante pensar em que condições teriam aqui chegado ambos os exércitos, sem trilhos definidos, sem qualquer ajuda mecânica e como terá sido difícil passar o inverno a esta altitude sem abrigo. Pensei nisso várias vezes enquanto subia o Monte Paterno de mochila às costas e quando, no dia seguinte, regressámos a pé debaixo de um nevão como até ali nunca tinha experimentado. 


Mas começando pelo princípio, de manhã cedo chegamos ao Rifugio Auronzo (2320 m) onde deixamos o carro. A estrada de Misurina até ao refúgio é uma estrada muito panorâmica que está aberta de Maio a Outubro e é necessário pagar uma portagem para percorrê-la.

Do Rifugio Auronzo seguimos o sentiero 101 que segue sempre muito plano junto à base dos 3 Picos. Este trilho é na prática um estradão usado por jipes que levam mantimentos ao Rifugio Lavaredo (2345 m) onde chegamos 45 min depois. O céu está nublado mas as vistas são maravilhosas.


Para subir à Forcella Lavaredo (2445 m) seguimos por um trilho bastante inclinado e ao longe avistamos pela primeira vez o Rifugio Locatelli onde passaremos a noite.



Existem várias opções, relativamente rápidas, para chegar ao refúgio, no entanto escolhemos a via ferrata Innerkofler, um dos percursos mais evocativos do complexo das Dolomites de Sesto, que através de um sistema de túneis e trincheiras de guerra atravessa grande parte do maciço do Monte Paterno.

As galerias vão-se sucedendo. No seu interior existem algumas “janelas” laterais que permitem a entrada da luz e oferecem vistas muito sugestivas para o exterior. O tecto é muito baixo e as janelas muito espaçadas por isso é fundamental levar capacete e lanterna.  





O troço final da via ferrata, que nos leva ao topo do Monte Paterno (2746 m), é praticamente vertical mas está bem equipada com cabos de aço que ajudam à progressão. Do topo vemos a imponente muralha dos Tre Cime di Lavaredo por entre as nuvens, Património Natural Mundial da UNESCO. É um bom local para sentar e aproveitar a vista.

Dali para a frente seria sempre a descer.


Descer uma via ferrata é muito mais complicado do que subir, principalmente com mochila, e às vezes é preciso parar um pouco para ganhar coragem e analisar a melhor maneira de encarar a descida. Mas apesar de termos encontrado várias pessoas, com mais e menos experiência, de várias nacionalidades e idades, nunca notei impaciências, vontades de ultrapassar, nem o contrário. Sempre foram todos muito corteses e reina o espírito de entre-ajuda. Isso é o mais importante para evitar acidentes.



Chegamos ao Rifugio Locatelli, ou Dreizinnenhütte, (2405 m) na parte da tarde.
O refúgio é um edifício de 3 andares em que no piso térreo se encontra a recepção, um bar e um restaurante/cantina e nos pisos superiores vários quartos de várias tipologias, desde os duplos e triplos mais privados até aos dormitórios tipo enfermaria, com vários corredores de beliches duplos, tantos quantos couberem dentro da divisão.


Ao jantar os hóspedes são agrupados nas várias mesas da cantina e segue-se um festim de iguarias como nunca encontrei nem imaginei encontrar num refúgio de montanha: desde o cesto de vários pães, a sopa ou pasta que por si só já era uma refeição inteira, seguida do prato de carne ou peixe à escolha e da sobremesa, café ou chá. Será suficiente dizer que depois todos tivemos que rebolar em direcção aos dormitórios.

Partilhámos mesa com um casal de americanos nos seus 20 e muitos, e com uma dupla muito interessante de pai-filho alemães. O pai, que já passava dos 80 anos, não falava inglês e como nós infelizmente não falamos alemão, muito menos os americanos, o filho fez o favor de ir traduzindo as suas histórias ao longo da noite. Contava-nos, entre outras coisas, da sua paixão por montanhas e como o Rifugio Locatelli estava diferente da primeira vez que lá tinha estado, há 50 anos atrás.





Os refúgios de montanha têm sempre características acolhedoras, mas nunca tinha estado num tão confortável. 
Nem com esta vista.


No dia seguinte as montanhas de Tre Cime di Lavaredo estavam literalmente irreconhecíveis e o Rifugio Locatelli de repente localizava-se num cenário totalmente branco de neve e nevoeiro.

Depois do pequeno-almoço delicioso e reconfortante, entre ter que libertar o lugar no dormitório (esgotadíssimo) e ver as condições meteorológicas a degradar-se a cada 10 minutos que passavam, vestimos os impermeáveis e decidimos pôr-nos a caminho.

Não foi possível seguir pelo caminho mais longo inicialmente pensado e a possibilidade de escorregar fez com que cada passo custasse muito mais a dar que no dia anterior. Foi um bom exemplo de como as condições climatéricas condicionam a nossa experiência na montanha.




Também foi uma daquelas experiências que "formam o carácter".

Quando chegámos ao Rifugio Auronzo, 1h30 depois, de pés ensopados e com os impermeáveis começando a ceder, percebemos que não estávamos equipados para estas intempéries.


Mas mais tarde, de volta ao lago Misurina, olho para trás e penso: "Cada vez gosto mais disto”. 
Só posso estar a ficar maluca.