7 de dezembro de 2016

sudtirol [italy or not italy]

Na estrada que nos leva para Norte em direcção às montanhas Dolomites apercebo-me, finalmente, que o ambiente austríaco que se sente nas províncias de Trentino e Sudtirol vai muito mais além do que uma simples proximidade de fronteiras: afinal toda esta zona pertencia ao Império Austro-Húngaro e só há menos de 100 anos atrás foi anexada a Itália. 

Falamos de uma influência cultural que se estendeu durante mil anos e que no século XX, simplesmente, mudou.
Mas terá mudado?


Depois do choque inicial ao verificar o quão resumido é o meu conhecimento da história da Europa, fui pesquisar mais um pouco e descobri, uma vez mais, como as zonas fronteiriças e as suas gentes são sempre tão fascinantes.

Existem várias regiões autónomas com estatuto especial em Itália. Foram criadas por factores geográficos e com o intuito de proteger minorias culturais e linguísticas. São o caso das ilhas da Sardegna e Sicília e das regiões alpinas de Valle d’Aosta, Friuli-Venezia Giulia e Trentino Alto Adige – Sudtirol. 

Durante a 1ª Guerra Mundial toda a zona alpina foi palco de grandes conflitos, principalmente nas montanhas Dolomites, entre os kaiserjager austríacos e os alpini italianos, para quem era de extrema importância estratégica o controlo das montanhas. As montanhas ditavam o acesso ao Mediterrâneo.
Assim, como um incentivo à participação na Guerra contra as Potências Centrais (Alemanha, Áustria, Hungria), os Aliados prometeram a Itália o território a sul dos Alpes. Esse território abrir-lhes-ia portas à apetecível hegemonia do Mediterrâneo.


Quem ganhou a 1ª Guerra, isso eu já sabia.

Os pactos pós-conflito que desmantelaram o império austro-húngaro, dividiram parte do território da Áustria como um espólio de guerra, incluindo a região do Tirol, cuja metade a Sul dos Alpes, tal como prometido, passou a pertencer a Itália, e a designar-se por Sudtirol. Estávamos em 1919.

O que se seguiu foi um período de "italianização" extrema da população local, levado a cabo por Mussolini, que incluiu a proibição dos meios de comunicação alemães, o ensino de alemão nas escolas, baniu nomes de família e a cultura alemã no geral.

Posteriormente, Mussolini e Hitler combinaram que a população de língua alemã deveria ser realojada na Alemanha e muitos deles só com grandes dificuldades conseguiram regressar à sua terra natal que, contra a vontade do governo austríaco, continuou a pertencer a Itália, após a 2ª Guerra Mundial.

Também sei quem ganhou a 2ª Guerra.

Os Aliados voltaram a decidir o destino desta província que se manteria dentro das fronteiras de Itália, desde que fossem reconhecidos direitos à comunidade de origem austríaca.
Mas a chegada de grandes vagas de imigrantes italianos nos anos 50 levou ao aumento da tensão na região que culminou em ataques terroristas por parte de separatistas neo-nazis e transformou a questão do sudtirol numa questão de importância internacional.

Apenas nos anos 70 se chegou a um acordo bilateral austro-italiano capaz de agradar a ambas as partes, que passou por conceder maior autonomia da região dentro de Itália e que tem sido considerado um modelo político capaz de resolver disputas inter-étnicas e de proteger minorias linguísticas.


Num pensamento simplificado, quando saí de casa, achei que vinha "conhecer as montanhas italianas", mas esta viagem acabou por se transformar em algo bem mais abrangente que isso. As montanhas são sempre zonas geo-políticas muito interessantes.


6 de dezembro de 2016

trento [color mode]


Trento situa-se no vale do Rio de Adige, na região autónoma de Trentino - Alto Adige / Sudtirol, em Itália, e abriu-nos as portas a uma das regiões fronteiriças mais interessantes que visitei nos últimos tempos.

Ainda que não existam dúvidas que estamos em Itália, Trento tem um ambiente muito austríaco: a sobremesa mais procurada é o apfelstrudel, não faltam sítios para apreciar boa cerveja e o alemão é amplamente falado.

Trento também é uma cidade universitária, vemos estudantes sentados nos degraus dos palacetes a bebericar os seus spritzs enquanto vamos fugindo por entre os pingos da chuva, apreciando os frescos medievais coloridos que caracterizam as fachadas e que são a imagem de marca da cidade.





5 de dezembro de 2016

bergamo [citá alta]


Escolhemos Bergamo para fazer uma pit stop a caminho das montanhas Dolomites. Bergamo está apenas a 50 km de Milão mas é uma cidade onde já encontramos todo um novo ambiente, próprio de quem se encaminha para as montanhas, mesmo a propósito.

Começa por se dividir em Bergamo Bassa, onde está o centro da cidade moderna, os edifícios do séc XIX em diante, o trânsito, a confusão, e Bergamo Alta, a minha preferida, 100 m acima, onde a confusão é outra, uma confusão de edifícios medievais de vários andares, apinhados ao longo de ruas calcetadas praticamente pedonais, onde é possível chegar a pé ou de funicular.

O funicular chega à Piazza Mercato delle Scarpe de onde sai a rua principal de Bergamo Alta, a Via Gombito que passa a ser Via Colleoni após a Piazza Vecchia e segue a linha do antigo decúmano romano.

Bergamo Alta foi construída sobre as linhas romanas, mas é a presença dos venezianos, e a sua influência ao longo de mais de 350 anos, que mais se faz notar um pouco por toda a cidade, principalmente nas fachadas que ostentam porta sim, porta não, o Leão de Veneza, símbolo da antiga República.


Um dos grandes highlights da cidade é a Basílica Santa Maria Maggiore, na Piazza del Duomo, um maravilhoso exemplo de uma obra em contínuo progresso ao longo de mais de 500 anos, desde a sua fundação no séc XII.

Entramos na basílica atravessando o pórtico de Giovanni Campione, do séc XIV, com colunas de mármore de várias cores suportadas por imperturbáveis leões, e no seu interior apreciamos várias cenas da bíblia pintadas ao estilo do séc XVII.




  


Nunca planeei visitar Bergamo. Não é, à partida, a primeira cidade que surge quando pensamos numa visita a Itália. Mas descobri em Bergamo Alta um dos mais belos centros urbanos do norte do país, uma mistura de austeridade medieval com a Renascença, ruas para andar sem rumo em ritmo descontraído, belíssimos restaurantes, exposições de arte, onde cada recanto é melhor que o outro.

Mais uma prova de que as melhores surpresas acontecem quando menos se espera.


10 de novembro de 2016

lago di como [lenno, menaggio, varenna e bellagio]

Vou ser sincera: adoro um bom cliché. Por isso não foi preciso muito para a romântica que há em mim começar a borbulhar de excitação à medida que nos fomos aproximando das margens do Lago di Como, a jóia da coroa dos lagos italianos.

É verdade que este é o lago que recebe a maior parte dos visitantes desta região, em busca do ambiente cinematográfico emprestado pelas celebridades, mas mesmo assim, foi possível encontrar os recantos encantadores que lhe dão a reputação de epítome do romantismo italiano à beira lago. 



A forma do Lago di Como assemelha-se a um ‘Y’ invertido e as suas cidades principais, Lecco e Como, situam-se nas extremidades a Sul dos 2 braços inferiores. 

Saltámos as cidades principais e optámos por basear-nos na zona de confluência dos 3 braços de lago, o Centro Lago, onde se destacam localidades com características especiais: Lenno e Tremezzo com as suas maravilhosas villas neo-clássicas, Menaggio com a sua localização perfeita, Varenna e Bellagio para os românticos mais incuráveis. 

Percorremos uma das estradas mais pitorescas da Europa, num ziguezaguear onírico ao longo de margens cercadas de vegetação abundante, pontuadas por flores e jardins sumptuosos. Mas uma vez estabelecidos, descobrimos que o melhor meio de transporte para aproveitar o Lago di Como é, de longe, o barco.




Em Tremezzo encontramos uma das villas mais famosas do Lago, a Villa Carlotta, pelos seus jardins dispostos em terraços onde é fácil perder a noção do tempo.
É muito mais interessante ver estas casas, que nos fazem lembrar de outros tempos mais glamourosos, navegando no lago.





Em Ossucio existe uma abadia Românica, dedicada a Santa Maria Maddalenna, do séc. XII, que despertou a minha curiosidade pela sua singularidade. 

Pequenas marinas para atracar barquinhos são uma constante, assim como passagens junto ao lago que convidam a mergulhos. Em frente a Ossucio está a misteriosa Isola Comacina, a única ilha do Lago di Como.





Em Lenno, a maravilhosa Villa Balbianello, a minha preferida, pela sua localização genial na ponta de uma península arborizada onde só chegamos depois de 1h de caminhada, ou de barco.

Na loggia panorâmica, as vistas para o Lago são deslumbrantes. O esplendor do jardim, o cheiro das flores e do pinheiro mediterrânico, o clima ameno e o enquadramento da arquitectura na Natureza brindam este local com uma atmosfera única. É difícil não me imaginar num cenário de filme. Adivinham qual?










Menaggio, a meio da margem Oeste do Lago di Como, usufrui de uma localização privilegiada desde os tempos dos romanos. Nessa altura, fazia parte da Via Regina, a estrada real, que ligava Cremona a Milão por antigos caminhos usados por marinheiros, soldados e comerciantes, ao longo da margem do Lago.

O coração da vila é a Piazza Garibaldi com os seus edifícios do séc. XIX pintados de cores suaves, pequenas lojas de artesãos a vender produtos locais, restaurantes, cafés, e a elegante promenade junto ao lago abrigada pela sombra das árvores e salpicada de flores.







Existem muitos barcos que ligam Menaggio a Varenna, na margem Este, uma das vilas mais pitorescas do Lago onde parece que o tempo parou.
Depois de desembarcar no pequeno porto, caminhamos ao longo do Lago apreciando as casas coloridas que se amontoam colina acima. 
Destaca-se o campanário de Igreja San Giorgio e, no topo da colina, o Castello di Vezio, uma fortaleza construída numa espectacular posição de vantagem táctica perante ataques de inimigos. 

Varenna também é conhecida pelas suas villas centenárias, a Villa Monastero, um antigo mosteiro que hoje é um jardim botânico com muitas espécies de plantas raras e a Villa Cipressi que hoje é um luxuoso hotel.

Na Piazza San Giorgio, o centro de Varenna, encontramos a Igreja de San Giorgio, e a capela de San Giovanni Battista, do séc. XI, um dos edifícios mais antigos do Lago Como.









Diz-se que nenhuma visita ao Lago di Como estará completa sem passar por Bellagio, conhecida como a “pérola do lago”. 

Bellagio localiza-se num promontório mesmo no centro do Lago, na convergência dos seus três braços, e por isso desfruta da mais abrangente e luminosa vista sobre as águas. Mas as ruas estreitas e íngremes que nos levam para o interior da vila também são muito especiais.










Lago di Como, foste o local perfeito para superar todas as expectativas desta romântica incurável, por ali perdida nas ruelas de gelado na mão. 

Um delicioso cliché.